Com o uso de inteligência artificial, redes de supermercados conseguem antecipar a demanda de consumo e reduzir drasticamente o desperdício de comida (Shutterstock AI/Shutterstock)
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Publicado em 4 de outubro de 2026 às 07h00.
O desperdício de comida atinge altos índices na cadeia global de hortifrúti, onde a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima perdas de 40% a 50%. A falha transcende a logística e tem origem na lacuna de informação entre produção e o varejo, impactando diretamente o estoque dos supermercados. Hoje, o uso de inteligência artificial e estatística permite cruzar dados de vendas para otimizar a oferta e reduzir perdas financeiras em toda a cadeia.
Por Marco Perlman é cofundador e CEO da Aravita*
Todo ano o mundo joga no lixo um de cada cinco pratos de comida que chegam ao consumidor. É o que estima a ONU. No hortifrúti é pior: a FAO calcula que entre 40% e 50% das frutas e verduras se perdem no caminho entre a roça e a mesa, o maior índice de qualquer categoria de alimento.
No Brasil, a Embrapa estima que mais de 40% do que sai da terra em frutas e verduras nunca chega a ser comido.
A leitura fácil é que isso é um problema de logística. Caminhão, câmara fria, estrada ruim. Tudo isso pesa, e muito.
Mas a logística é a face visível de um erro que nasce antes dela: ninguém na cadeia sabe direito quanto o cliente vai querer amanhã. O desperdício de fresco, na origem, é um problema de informação.
Na cadeia do hortifrúti, ninguém decide de má-fé, decide sem instrumento.
O distribuidor compra do produtor sem saber ainda se vai vender, e o preço que consegue pagar carrega esse risco embutido.
Não é malícia, é a mesma cegueira de todo mundo na cadeia, só que ela sobra em cima de quem tem menos margem pra negociar: o produtor.
Essa cegueira desce a cadeia inteira e deságua no varejo. Dentro do supermercado, o problema muda de forma, mas não de tamanho: o estoque que está no sistema da loja nasce errado.
Não é desleixo da equipe, é estrutural: o fresco muda de identidade depois que chega, é pesado, embalado, remarcado, e o sistema nem sempre acompanha essa transformação em tempo real.
O resultado é que a banca conta uma história e o sistema conta outra. E é em cima desse número que o comprador decide quanto pedir amanhã. No escuro, igualzinho ao distribuidor.
Junte as pontas e aparece o desenho inteiro. Do produtor ao caixa, a cadeia do fresco funciona apostando às cegas sobre quanto o cliente vai querer.
O que falta vira venda perdida e cliente que foi embora. O que sobra vira quebra, vai pro lixo e leva a margem junto.
A comida que a FAO conta como perdida é o custo dessa aposta, e a inflação de alimentos torna a aposta mais cara a cada ano. O que mudou não foi o caminhão nem a câmara fria. Foi a chance de fechar a lacuna de informação.
Hoje existe capacidade de cálculo para tratar o desvio de estoque como aquilo que ele é, um problema de estatística: cruzando o que vendeu, o que entrou e o que se perdeu, dá para achar onde o número do sistema descolou da realidade, sem parar a loja para contar caixa.
E dá para antecipar o consumo produto a produto, loja a loja, levando em conta clima, promoção e sazonalidade. Não é mágica, e não é a promessa de uma cadeia que se conserta sozinha. É trocar o palpite por conta feita, todo dia, em milhares de itens.
Quando essa lacuna começa a fechar, o efeito aparece primeiro no resultado de quem vende. Falta menos na gôndola, e cada falta a menos é uma venda que não se perdeu. Sobra menos no lixo, e cada sobra a menos é a margem que fica na casa.
Depois o efeito sobe a cadeia: o custo para de ser empurrado para o elo mais fraco, e o produtor que hoje absorve a ignorância dos outros passa a poder ser pago pelo que o mercado de fato vai querer.
É nesse ponto estreito, o da compra do fresco, que resolvi apostar depois de quinze anos tocando a operação. Não pela tecnologia, mas porque é ali, na conta que quase todo mundo ainda faz no escuro, que mais comida se perde e mais dinheiro se decide.
Por muito tempo o desperdício de comida foi tratado como fatalidade, ou como pauta de consciência. Ele é, antes disso, um problema de conta: comida que apodrece é dinheiro que alguém já pagou, e boa parte dele se perde porque a decisão foi tomada no escuro.
Acender a luz deixou de ser promessa e virou aritmética.
*Marco Perlman é cofundador e CEO da Aravita, startup de inteligência artificial que ajuda varejistas a otimizar a gestão de FLV.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula que entre 40% e 50% das frutas e verduras se perdem no trajeto entre a roça e a mesa, sendo o maior índice registrado para qualquer categoria de alimento.
Segundo o texto, embora a logística influencie, o desperdício de produtos frescos na origem é fundamentalmente um problema estrutural de informação, no qual fornecedores e supermercados precisam decidir quantidades de compra no escuro, sem clareza sobre o que o cliente final vai demandar no dia seguinte.
O texto destaca que os alimentos frescos mudam de identidade ao chegar na loja — são pesados, embalados e remarcados —, e o sistema nem sempre consegue registrar essa transformação em tempo real, gerando divergências que baseiam decisões erradas de reposição.
Cruzando estatísticas de venda, entrada e perda de mercadorias, a capacidade atual de cálculo permite aos supermercados identificar falhas no sistema sem interromper a operação e antecipar o consumo exato por loja, cruzando informações como clima, sazonalidade e campanhas de promoção.
O autor afirma que a ausência de dados precisos resulta em custos que são empurrados pela cadeia de suprimentos em direção ao elo de menor margem para negociação, fazendo com que o produtor rural assuma boa parte desse risco.