Tecnologia e atendimento humano se complementam no futuro do varejo alimenta (Shutterstock AI/Shutterstock)
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Publicado em 11 de junho de 2026 às 17h00.
Por Sami Diba*
Toda vez que surge uma nova tecnologia, a primeira pergunta costuma ser a mesma: quais empregos ela vai eliminar? Foi assim com a mecanização da indústria, com a informatização dos escritórios, com a internet e agora com a inteligência artificial.
E a verdade é que essa preocupação faz sentido: a IA deve substituir determinadas atividades, principalmente as mais repetitivas e operacionais. Mas essa é apenas uma parte da história.
Toda grande transformação tecnológica eliminou algumas funções, criou outras e aumentou a relevância de determinadas profissões e a inteligência artificial não parece ser uma exceção.
No varejo alimentar, setor que conheço de perto, estamos observando esse movimento, que ganha ainda mais importância em um momento em que o setor enfrenta escassez de mão de obra, alta rotatividade e discussões sobre mudanças na jornada de trabalho, incluindo o debate sobre o fim da escala 6x1.
Independentemente da direção que essa discussão tome, existe uma realidade econômica difícil de ignorar: se houver menos horas de trabalho disponíveis ou aumento dos custos operacionais, as empresas precisarão encontrar formas de manter produtividade, eficiência e qualidade de atendimento.
É nesse contexto que a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de modernização e passa a ser uma necessidade estratégica.
Durante décadas, o supermercado foi uma operação baseada principalmente em presença física. Problemas eram identificados por pessoas caminhando pela loja. Boa parte da gestão era construída a partir da experiência e da observação visual.
Hoje, sensores, inteligência artificial, sistemas preditivos e monitoramento remoto enviam alertas em tempo real, sistemas registram padrões de consumo energético, algoritmos identificam anomalias operacionais.
Nos próximos anos, veremos o crescimento de funções que até pouco tempo atrás praticamente não existiam dentro dos supermercados. Profissionais especializados em monitoramento remoto acompanharão simultaneamente dezenas ou centenas de lojas a partir de centrais de operação.
Analistas de dados interpretarão padrões de consumo, comportamento do cliente e eficiência operacional para apoiar decisões estratégicas. Especialistas em inteligência operacional trabalharão na identificação de desperdícios, riscos e oportunidades de melhoria.
A razão pra tudo isso é econômica: o varejo alimentar opera com algumas das margens mais apertadas da economia.
Uma falha em um equipamento de refrigeração, um consumo energético acima do necessário, uma perda operacional não identificada ou uma decision equivocada de estoque podem comprometer margens que já são naturalmente baixas.
Por outro lado, aquilo que deixa de ser desperdiçado se transforma em lucro. É por isso que reduzir desperdício é determinante.
Ao mesmo tempo, existe um aspecto curioso nessa transformação: quanto mais tecnologia entra na operação, mais algumas profissões tradicionais ganham valor. Pense no açougueiro.
Do ponto de vista tecnológico, é possível automatizar uma enorme quantidade de processos dentro de um supermercado. É possível automatizar pedidos, reposição, monitoramento, precificação, pagamentos e diversas atividades administrativas.
Mas existe uma diferença importante entre algo que pode ser automatizado e algo que deveria ser automatizado. Quando um consumidor pede um corte específico de carne, pergunta sobre o melhor preparo para um churrasco ou escolhe uma peça recém-cortada, ele não está comprando apenas um produto. Ele está comprando confiança.
Existe uma percepção de qualidade, frescor e personalização que continua sendo valorizada pelo consumidor.
O mesmo raciocínio vale para hortifrúti, rotisserie, adegas e outras áreas onde o conhecimento técnico e a interação humana influenciam diretamente a decisão de compra. Não se trata apenas de eficiência operacional, mas de percepção de valor.
Essas funções possuem uma característica que a inteligência artificial ainda não consegue reproduzir plenamente: a capacidade de combinar conhecimento técnico, contexto, relacionamento e confiança.
Existe uma ironia interessante nisso. Enquanto parte do supermercado se transforma em um ambiente altamente digital, outra parte se torna ainda mais humana.
A tecnologia assume tarefas operacionais para liberar tempo, recursos e pessoas para aquilo que realmente gera diferenciação.
Talvez esse seja um dos maiores equívocos do debate atual sobre inteligência artificial: automatizar não deveria ser um objetivo em si, mas sim deveria ser um meio para que as pessoas possam dedicar mais tempo às atividades em que o fator humano faz diferença.
Acredito que a tecnologia não substitui a humanização, mas viabiliza. O futuro do varejo alimentar não será uma disputa entre humanos e máquinas.
Será uma colaboração cada vez mais sofisticada entre ambos, mas que exigirá adaptabilidade dos humanos.
As máquinas serão responsáveis por monitorar, processar, analisar e alertar. As pessoas continuarão responsáveis por interpretar, decidir, criar relacionamentos, resolver problemas complexos e gerar confiança.
Por isso, acredito que o supermercado do futuro terá mais inteligência artificial, mais sensores, mais automação e mais dados. Mas continuará precisando de pessoas, sejam elas analistas de IA ou açougueiros.
*Sami Diba é CEO do NEO Estech, plataforma de inteligência de dados para monitoramento e gestão de equipamentos que atende mais de 52% do varejo alimentar brasileiro.