O avanço da inteligência artificial redefine as portas de entrada para o primeiro emprego (VesnaArt/Shutterstock)
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Publicado em 7 de maio de 2026 às 15h00.
Por Alessandro Saade*
O Brasil está gerando empregos. Mas não necessariamente para quem está começando.
Embora a taxa de desemprego no país tenha caído para 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica, segundo o IBGE, entre jovens de 18 a 24 anos o índice segue quase o dobro (11%).
Quase 9 milhões de jovens não estudam nem trabalham. E um novo fator vai influenciar essa dinâmica: a inteligência artificial.
Alguns estudos começam a acender sinais de alerta. Pesquisa do Stanford Digital Economy Lab indica que o emprego de jovens em ocupações mais expostas à inteligência artificial caiu cerca de 6% nos Estados Unidos entre 2022 e 2025.
Em contrapartida, o índice cresceu mais de 8% entre trabalhadores mais experientes. Análises do Federal Reserve, publicadas em 2026, seguem a mesma direção.
A exposição à tecnologia está associada à redução da participação de jovens nesses empregos, principalmente pela queda nas novas contratações para o primeiro emprego.
Já um levantamento da Anthropic, empresa criadora do modelo de linguagem Claude, aponta que a contratação de profissionais de 22 a 25 anos em áreas expostas à tecnologia teria recuado 14% em solo americano.
Tarefas típicas de profissionais juniores, como redação, suporte e análise básica de dados, perdem espaço crescente para a automação.
No Brasil, evidências recentes reforçam esse movimento. Levantamento da Fundação Getulio Vargas indica que jovens já percebem efeitos concretos da inteligência artificial sobre renda e inserção profissional.
Entre os mais expostos à tecnologia, a probabilidade de ocupação é até 3,3 pontos percentuais menor, enquanto os rendimentos podem ser até 7% inferiores.
O impacto é mais intenso justamente nas funções de entrada -- aquelas que tradicionalmente funcionam como porta de acesso ao primeiro emprego.
O receio é de um estreitamento no vestíbulo. O impacto vai além da renda imediata. Afeta o desenvolvimento de habilidades, a construção de trajetórias e a produtividade ao longo da vida.
Funções operacionais e administrativas básicas raramente têm alto valor agregado. Mas possuem elevado valor formativo. São, historicamente, o espaço onde se aprende a trabalhar.
Nesse contexto, ganha ainda mais relevância o papel de políticas públicas estruturadas, como a Lei da Aprendizagem (nº 10.097/2000).
Ao combinar formação teórica com experiência prática, o modelo cria uma ponte concreta entre escola e mercado.
Dados recentes de uma pesquisa do Espro ajudam a ilustrar esse efeito. Um ano após a conclusão da aprendizagem, 80% dos jovens de 18 a 24 anos permanecem ocupados.
Entre eles, 60% conciliam trabalho e estudo – quatro vezes mais que a média nacional. Já o índice de jovens que não estudam nem trabalham é de 7%, bem abaixo dos 22% registrados no país.
O avanço da inteligência artificial impõe atualizações de instrumentos de empregabilidade jovem como esse. Não basta garantir acesso – é preciso preparar para um mercado em transformação.
Isso implica ampliar o repertório formativo: fundamentos de tecnologia, leitura crítica de informações digitais, capacidade analítica e adaptabilidade.
Essas são habilidades que permitem ao jovem não apenas executar tarefas, mas compreender contextos, tomar decisões e interagir em ambientes cada vez mais complexos.
Isso sem deixar de fora a colaboração, trabalho em equipe, negociação, inteligência emocional e responsabilidade social, diretrizes da agenda 2030 da ONU cada vez mais necessárias.
O Brasil apresenta uma janela de oportunidades. O mercado de trabalho segue dinâmico, e há políticas capazes de ampliar o acesso. Mas o tempo de adaptação pode ser curto.
A pergunta que se impõe não é se haverá empregos no futuro. É quem terá acesso a eles.
Se a porta de entrada continuar se fechando, o risco é claro: transformar um avanço tecnológico em um novo fator de exclusão.
A diferença estará em como o país decide preparar – ou não – sua próxima geração para atravessar essa porta.
*Alessandro Saade é superintendente executivo do Espro (Ensino Social Profissionalizante).