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Como a Ciência da Aprendizagem pode te ajudar a ajudar seus filhos

A aprendizagem é uma questão de modelo mental, e os estudos sobre isso podem ajudar você a compreender os processos de seus filhos
Aprendizagem é maior quando o mindset é de que a inteligência é flexível e se desenvolve ao longo do tempo, e não algo fixo (Tom Werner/Getty Images)
Aprendizagem é maior quando o mindset é de que a inteligência é flexível e se desenvolve ao longo do tempo, e não algo fixo (Tom Werner/Getty Images)
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Publicado em 17/11/2021 às 12:08.

Última atualização em 17/11/2021 às 13:17.

Por Fernando Shayer*

Se você tem filhos na educação básica, provavelmente teve de enfrentar durante a pandemia a dura realidade com relação ao seu conhecimento sobre as matérias que eles estão estudando. Conheço pais que suaram frio ao ouvir a frase “mãe, pai, me ajuda com esse problema de matemática?” e alguns que responderam “filho, eu não sabia isso nem na sua idade!”

Mesmo no momento de retorno às aulas presenciais, esse tema permanece muito importante: como apoiar nossos filhos nos estudos?

Nas últimas décadas, a neurociência evoluiu muito e, combinada com a psicologia e com a pedagogia, tem apoiado um novo ramo da educação: a Ciência da Aprendizagem. Antes dela, não existia tecnologia adequada para identificar os processos mentais envolvidos na cognição. A observação sobre a aprendizagem era sempre baseada nos comportamentos externos dos alunos. Por exemplo, o (excepcional) trabalho do biólogo, psicólogo e professor suíço Jean Piaget sobre desenvolvimento humano foi realizado no século passado exclusivamente com a observação externa. Era o que tinha.

Após a invenção de ferramentas como as tomografias computadorizadas e as ressonâncias magnéticas, e da realização de pesquisas em pacientes que, por vários motivos, tiveram disfunções ou perdas de partes do cérebro, passamos a compreender a anatomia cerebral e a atividade metabólica de cada área do cérebro — inclusive em tempo real, enquanto a pessoa realiza atividades. Com isso, além do externo, também observamos os padrões neurais internos que se formam quando os alunos aprendem.

No mundo, os pesquisadores se debruçaram sobre este tema. Quais partes do cérebro ficam mais ativas quando ouvimos, enxergamos, falamos, pensamos, nos emocionamos e lidamos com a informação? E, mais importante: quais práticas fazem a aprendizagem acontecer de forma mais eficiente nessas atividades neurais? Seria preciso um livro para resumir o que se sabe sobre isso hoje, mas seguem alguns pontos chave para ajudar.

Em primeiro lugar, aprendizagem é uma questão de modelo mental, de mindset. Se seus filhos dizem “não nasci para estudar matemática”, isso reduz sua capacidade de aprender matemática. Diz-se que o cérebro tem plasticidade, que as redes neurais são maleáveis e mudam de forma e de organização quando acessamos novas informações. Grosso modo, é como os músculos, que ficam maiores quando você frequenta a academia. Há muitos estudos que indicam que a aprendizagem é maior quando o mindset é de que a inteligência é flexível e se desenvolve ao longo do tempo, e não algo fixo.

Garanta o compromisso, mas tire a pressão. Quando nosso pertencimento depende de nossos resultados, ativamos os sistemas cerebrais de defesa, que dificultam a aprendizagem. Aprendemos quando nos sentimos relaxados e acolhidos emocionalmente. Cobre disciplina e compromisso (input), converse e conscientize, mas não ameace ou coloque medo quando não vierem resultados (output).

Aprendizagem é esforço, mas isso não quer dizer o que normalmente pensamos, que o aluno aprende ao se concentrar por muitas horas seguidas para memorizar um conteúdo. O esforço é interno, de reorganização das informações no cérebro. O ato de aprender envolve integrar e consolidar novas informações com as que já temos em nossa memória, reorganizando-as. Para ser efetivo, esse exercício leva tempo e dá trabalho. É como se o aluno tivesse de redecorar seu quarto todos os dias, repensando como as coisas serão arrumadas enquanto vai mexendo. Quanto mais ele reorganizar, mais aprende. Se não for exigido esse pensar mais profundo, sem idas e vindas e frustrações ao longo do processo, não é aprendizagem, mas decoreba.

Ao estudar, o aluno arquiva e acessa a informação com mais facilidade ao fazer perguntas para si mesmo do que grifando trechos ou relendo o texto várias vezes. Lembre-se: o importante na aprendizagem é raciocinar, não apenas memorizar. Passar na prova porque decorou a matéria na véspera não significa que a aprendeu. Quando seus filhos estiverem lendo um texto, ajude-os a perguntar coisas como “o que esse texto está dizendo?”, “como isso é diferente do que eu achava?”. Nesse método de auto quiz, peça para escreverem as respostas num caderno separado, fechando o material que está sendo lido. Depois, verifique no texto se a compreensão estava correta.

Diferentemente do que aprendemos na escola, insista que seus filhos estudem espaçadamente por vários dias e intercalando as matérias, ao invés de estudar longas horas um mesmo tema. Separar o estudo em várias seções e em vários dias, alternando com outras matérias, exigirá que eles acessem e reorganizem suas memórias anteriores mais vezes e com mais esforço, aumentando a aprendizagem.

Outra prática relevante é a contextualização. Com os problemas de matemática, traga um exemplo da vida real mais próximo da realidade dos seus filhos, usando meios com os quais eles estejam acostumados, como plataformas digitais. Isso os engajará e facilitará o acesso às suas memórias positivas e a consolidação de novas informações.

Para finalizar, reflita se a atividade que a escola está cobrando dos seus filhos é pura repetição de conteúdo. Não estamos mais no século 20. Esse conteúdo está disponível de graça no YouTube, com videoaulas muito engajadoras. A escola deve educar os seus filhos a usar o conteúdo para resolver problemas que tenham significado para eles e não para decorar o que o Google responde em três segundos. E, quando você estiver com dúvidas sobre a matéria, veja esses vídeos gratuitos com seus filhos. Eles se sentirão apoiados porque você está entrando no universo deles e, depois de vê-los, há uma boa chance de você se perguntar “por que eu não tinha isso disponível no meu tempo?”.

*Fernando Shayer é cofundador e CEO da Cloe, plataforma de aprendizagem ativa

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a EXAME. O texto não reflete necessariamente a opinião da EXAME.

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