Integrar processos e fortalecer a cultura de aprendizado contínuo são os pilares para liderar equipes durante a reforma tributária (Wanwajee Weeraphukdee/Shutterstock)
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Publicado em 25 de julho de 2026 às 13h00.
Por Tâmara Lira*
A reforma tributária não é apenas uma questão fiscal. É, antes de tudo, um desafio de gestão de pessoas.
Enquanto departamentos jurídicos e fiscais se debruçam sobre a letra da lei, é a liderança que determina se a organização atravessará essa transição com resiliência ou com desgaste.
Liderar a transformação tributária significa sair da operação e pensar como estrategista de negócio. Isso exige integrar tecnologia aos processos, construir uma cultura orientada a dados e gerir a mudança de comportamento das equipes.
Nós, que somos líderes, precisamos fortalecer uma cultura de adaptação nesse sentido. Em vez de tratar a reforma como um projeto com data para terminar, será necessário encará-la como parte de um ambiente regulatório cada vez mais dinâmico.
Organizações que cultivam flexibilidade, aprendizado e melhoria contínua respondem melhor às mudanças e conseguem transformar desafios em oportunidades.
O impacto da reforma não ficará restrito ao departamento fiscal. Áreas como compras, comercial, financeiro, logística, tecnologia, jurídico e atendimento ao cliente serão diretamente influenciadas pelas novas regras.
Isso significa que líderes precisarão estimular uma atuação integrada, rompendo barreiras entre departamentos e fortalecendo uma cultura de colaboração.
Processos que funcionavam de forma automática por anos precisam ser revisitados linha a linha. Sistemas de ERP, notas fiscais, precificação, contratos com fornecedores e clientes — tudo passa por algum grau de reformulação.
É tentador tratar isso como um projeto técnico, delegado a consultorias e ao time de TI. Mas essa visão subestima o fator humano: são as pessoas que vão operar os novos processos, interpretar as novas regras no dia a dia e lidar com a incerteza que naturally acompanha qualquer transformação regulatória de grande escala.
Líderes que tratam a reforma apenas como um problema técnico correm o risco de entregar sistemas prontos para equipes despreparadas e, isso é receita para erros operacionais, retrabalho e ansiedade generalizada.
Existem três dimensões primordiais que toda liderança precisa equilibrar para preparar equipes para a transformação tributária, são elas: cultura, tecnologia e processos.
Cultura: A transformação tributária impõe uma mudança de mentalidade que é sair de uma área fiscal reativa, voltada à execução burocrática, para uma função de inteligência de negócios. Outro ponto importante quando falamos de cultura é saber que toda mudança carrega um subtexto emocional: medo de errar, medo de multas, medo de parecer incompetente diante de regras novas. A cultura que a liderança cultiva antes e durante a transição determina se as pessoas vão esconder dúvidas ou levantar a mão para perguntar. Essa mudança cultural reduz o medo do desconhecido e direciona as equipes para a análise de dados, e não apenas para o cumprimento de tarefas operacionais.
Tecnologia: A adoção de automação, inteligência artificial e sistemas integrados — como ERPs e ferramentas de validação fiscal — é decisiva nesse processo de transformação. Essas soluções garantem o compliance tributário e liberam horas antes dedicadas a tarefas manuais, que passam a ser investidas em decisões estratégicas. Novos sistemas e módulos tributários só geram valor quando incorporados ao comportamento das pessoas.
Processos: passo essencial é o remapeamento completo das operações, do cadastro de produtos à apuração dos tributos. As empresas precisam compreender as novas dinâmicas de aproveitamento de créditos e assimilar a mudança na lógica de tributação, que passa a ser baseada no destino das operações. Antes de qualquer treinamento ou comunicação, a liderança precisa garantir que os novos processos estejam desenhados com clareza.
Durante o período de transição da Reforma Tributária, as empresas vão precisar operar dois sistemas em paralelo: o antigo (ICMS, PIS/Cofins, ISS) e o novo (CBS e IBS).
Isso exige que a empresa seja “ambidestra” — capaz de manter a operação legada funcionando enquanto constrói e testa a nova estrutura. Ou seja: não é uma substituição simples de sistema, é uma sobreposição temporária que aumenta a complexidade operacional antes de simplificar.
Preparar equipes para toda essa transformação exige que nós, enquanto líderes, possamos traduzir a complexidade técnica e jurídica da reforma em linguagem acessível para cada público interno, evitando tanto o excesso de jargão quanto a simplificação que esconde riscos reais.
Precisamos também reconhecer que a incerteza regulatória gera ansiedade legítima e não tratá-la como frescura ou resistência à mudança. Isso não significa minimizar prazos ou cobranças, mas sim comunicar com transparência e previsibilidade sempre que possível.
E por fim, mas não menos importante, precisamos ser fonte de aprendizado contínuo. A reforma tributária não termina em uma data específica, ela se desdobra em anos de regulamentação, ajustes e nova jurisprudência. Diante disso, as equipes precisam ser preparadas não para um evento único, mas para uma capacidade permanente de adaptação.
Transformações tributárias testam a capacidade de liderança de forma particular: exigem rigor técnico e, ao mesmo tempo, sensibilidade humana. As empresas que atravessarem esse período com menos atrito não serão necessariamente as que tiveram a melhor tecnologia ou a consultoria mais cara, mas as que conseguiram alinhar processos, cultura e ferramentas em torno de um propósito comum — e que tiveram líderes capazes de sustentar suas equipes durante a travessia, não apenas cobrar resultados no fim dela.
*Tâmara Lira é CFO da Paschoalotto.