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Como a análise de dados pode prever futuro da jornada de trabalho no Brasil 

Entidade avalia necessidade de análise técnica rigorosa sobre os efeitos de mudanças propostas recentemente

CNC estima que fim da escala 6x1 pode elevar custos do comércio em R$ 122 bilhões mensais (Thinkstock)

CNC estima que fim da escala 6x1 pode elevar custos do comércio em R$ 122 bilhões mensais (Thinkstock)

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Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 17h00.

Por José Roberto Tadros*

O debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho para 36 horas voltou ao centro da agenda legislativa.

Trata-se de um tema que envolve legítimas preocupações sociais — como qualidade de vida e saúde do trabalhador —, mas que também exige análise técnica rigorosa sobre seus efeitos econômicos.

Tais impactos são cruciais especialmente em setores que operam de forma contínua, como comércio e serviços.

Com o objetivo de contribuir para esse debate, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) elaborou estudo técnico avaliando os possíveis impactos da mudança.

Os dados ajudam a dimensionar o alcance da medida e seus desdobramentos potenciais.

Impactos na força de trabalho e no comércio

Hoje, o Brasil possui 57,8 milhões de empregos formais. Estima-se que cerca de 31,5 milhões de trabalhadores estejam submetidos a jornadas de trabalho que seriam diretamente afetadas por uma redução do limite semanal.

No comércio varejista, 93% dos contratos formais concentram-se acima de 40 horas semanais; no atacado, o percentual é de 92%.

Ou seja, trata-se de um segmento particularmente sensível a alterações na organização da redução da jornada.

Custos de adequação e pressão sobre os preços

A simulação realizada pela CNC considerou um cenário de redução da jornada para 40 horas semanais sem diminuição nominal de salários.

Nessa hipótese, para manter o funcionamento regular das empresas, seria necessária reorganização de escalas e até mesmo adoção de novas tecnologias.

O custo estimado de adequação para o setor do comércio alcançaria R$ 122,4 bilhões mensais, o que representa aumento de 21% na folha salarial do segmento.

O estudo também analisou possíveis efeitos sobre preços e rentabilidade.

A modelagem econométrica indica que, no longo prazo, um aumento de 1% na massa salarial do comércio tende a gerar repasse médio de 0,6% aos preços ao consumidor.

Em um cenário de elevação de 21% na folha, a pressão estimada sobre os preços poderia alcançar até 13%.

Rentabilidade e dinâmica do mercado de trabalho

Considerando os impactos combinados sobre preços e volume de vendas, a estimativa aponta para redução de 5,7% no Excedente Operacional Bruto (EOB) do comércio.

Este indicador reflete a remuneração do capital antes de impostos sobre o lucro. A valores atuais, essa retração poderia corresponder a aproximadamente R$ 73 bilhões.

É importante contextualizar esses números. O mercado de trabalho brasileiro convive com elevada informalidade — cerca de 40% da força de trabalho.

O comércio responde por parcela significativa da geração de empregos formais no país. Alterações estruturais na jornada de trabalho impactam diretamente a dinâmica de contratação, preços, margens e investimentos.

A necessidade de planejamento e transição

O debate sobre jornada de trabalho não pode prescindir de análise ampla, que considere tanto os objetivos sociais da proposta quanto seus efeitos econômicos e setoriais.

Mudanças dessa magnitude exigem planejamento, transição estruturada e avaliação criteriosa de impactos.

A contribuição da CNC, por meio de seu estudo técnico, é oferecer dados concretos para qualificar essa discussão.

Em temas que afetam milhões de trabalhadores e empresas, decisões informadas são condição essencial para que o país avance de forma equilibrada e sustentável.

*José Roberto Tadros é presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

 

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