Investir na educação e na proteção de crianças e jovens amplia o capital humano e fortalece o desenvolvimento socioeconômico do Brasil (gorodenkoff/Getty Images)
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Publicado em 22 de setembro de 2026 às 15h00.
Por Daniel Senna Strand*
O escritor Machado de Assis dizia que existem dois Brasis diferentes: o país oficial e o país real. O Brasil oficial é aquele que almeja ser uma nação de primeiro mundo, com avanços tecnológicos e protagonismo global.
No entanto, o desenvolvimento socioeconômico pleno esbarra constantemente na realidade do país real: uma nação onde, segundo dados do UNICEF com base na PNAD Contínua, 28,8 milhões de crianças e adolescentes vivem em situação de pobreza multidimensional e 1,65 milhão estão submetidos ao trabalho infantil, conforme levantamento do IBGE.
Toda vez que fechamos os olhos para uma dessas crianças, escolhemos, como sociedade, atrasar o futuro do Brasil. Crianças privadas do direito básico de brincar e aprender não são apenas uma falha moral intolerável; elas representam um gargalo produtivo imenso.
O capital humano é o maior patrimônio de uma nação, e ignorar a base da nossa pirâmide demográfica significa desperdiçar talentos que poderiam prosperar ao fundar empresas inovadoras, liderar indústrias, gerar empregos ou revolucionar a ciência.
No ambiente de negócios, o pragmatismo exige que investimentos tragam resultados mensuráveis. Quando falamos de infância, a lógica não é diferente.
Estudos do Prêmio Nobel de Economia, James Heckman, da Universidade de Chicago, comprovaram que investir em programas integrais na primeira infância (de 0 a 5 anos) proporciona um retorno anual de 13%. Em termos práticos, a pesquisa demonstra que, para cada R$ 1 investido nessa fase escolar e de acolhimento, o benefício econômico que retorna para a sociedade é de R$6,30.
Nenhuma outra iniciativa pública ou privada ostenta um multiplicador financeiro tão alto. Intervenções tardias, como programas corretivos na vida adulta, não apenas custam significativamente mais caro, como entregam resultados muito inferiores.
Alfabetizar na idade certa e manter os jovens na escola, longe de atividades perigosas, é a estratégia de desenvolvimento socioeconômico de maior eficácia que o mercado e o poder público podem adotar de forma conjunta.
Os números das principais entidades estatísticas do país expõem com clareza o abismo entre o potencial nacional e a formação da futura força de trabalho.
De acordo com o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Inep/MEC, na etapa final da educação básica, apenas 5,2% dos estudantes da rede pública concluem o ensino médio com aprendizado adequado em matemática, uma disparidade gritante frente aos 30,5% registrados na rede privada.
Somado a isso, levantamentos do UNICEF e da Undime indicam que quase 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão totalmente fora da escola, sendo 67% deles pretos, pardos ou indígenas.
O impacto produtivo também se reflete na subutilização de ferramentas legais de inclusão no setor privado.
Dados do Observatório SmartLab, mantido pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), revelam que 44,9% da cota nacional de aprendizagem profissional prevista em lei permanece vaga, o que representa cerca de 450 mil oportunidades protegidas de primeiro emprego que deixam de ser criadas.
Paralelamente, o IBGE aponta que 586 mil jovens ainda são submetidos às piores formas de trabalho infantil em atividades insalubres. Resgatar esses adolescentes e integrá-los por vias legais e educativas é o caminho para qualificar a mão de obra e gerar o crescimento sustentável de que o mercado necessita.
O cenário de miséria, o abandono e o recrutamento de crianças para a criminalidade são problemas altamente organizados. Já passou da hora de o combate a essas mazelas também aprender a se organizar em rede.
Como bem pontuou Albert Einstein, o problema do mundo não é a quantidade de pessoas más, mas o fato de as boas não se unirem para fazer o bem.
É com essa premissa de unir esforços e dar escala ao que cada setor já faz de melhor que iniciativas integradas se tornam essenciais.
A criação de modelos colaborativos como a Aliança Nacional pela Infância e Desenvolvimento (ANID), que propõe colocar na mesma mesa o setor produtivo, o Ministério Público, as universidades e a sociedade civil, reflete a urgência dessa pauta.
O Brasil que queremos ser nas próximas décadas depende das escolhas de gestão e dos compromissos que firmamos hoje. Transformar o talento invisível das nossas crianças no motor do nosso desenvolvimento socioeconômico é um dever de todos nós.
*Daniel Senna Strand é advogado e Presidente da entidade filantrópica sem fins lucrativos de obras sociais Todos por 1, que tem o objetivo de erradicar a situação de extrema vulnerabilidade de jovens no Brasil.