'Habeas Corpus': Marjorie Estiano e Any Gabrielly protagonizam nova série da Netflix. (Julia Mataruna/Netflix/Divulgação)
Repórter
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 04h01.
"É uma maneira do espectador se perceber através da arte, se refletir." A frase é de Marjorie Estiano sobre "Habeas Corpus", série que estreia nesta quarta-feira, 23, na Netflix, primeira produção brasileira construída inteiramente em torno de uma revisão criminal.
Ao lado de Any Gabrielly, com quem divide o protagonismo, a atriz falou à EXAME sobre como a ficção pode aproximar o público de um tema real: os erros judiciais que podem levar pessoas inocentes à prisão.
A série acompanha Inez (Marjorie), professora de Direito que lidera um grupo de revisão criminal para provar a inocência de Jonatan, condenado por um crime que afirma não ter cometido. "Eu tentava gritar e ninguém me ouvia", diz o personagem, interpretado por Hipólyto, durante o segundo episódio.
"A gente tá falando sobre justiça, que é uma coisa que, independente do momento, da hora, da ocasião, é extremamente importante. Essa frase do Jonatan é muito forte porque diz muito sobre uma falha grave que a gente tem dentro desse sistema", afirma Any.
Para as atrizes, a ficção pode colocar esse debate no cotidiano sem transformar a história em uma denúncia direta. "A arte tem esse trabalho de dar voz e de inserir, dentro da vida das pessoas, de forma amorosa, calma e fluida, esses assuntos dentro da casa das pessoas, nas conversas do dia a dia. E essa transformação acontece sem que você perceba", diz Any.
"Habeas Corpus" é inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil, organização que investiga e atua na reversão de condenações injustas no país. Para se preparar para a série, o elenco teve contato com integrantes da organização.
"A gente teve a assessoria do Innocence Project Brasil, com a Dora Cavalcanti, a Flávia Rahal e o Rafael Tucherman. Falamos também com um advogado criminalista que trouxe os bastidores da prática do sistema judiciário", conta Marjorie.
Segundo o próprio instituto, em publicação no Instagram, a série contou com a consultoria dos fundadores e diretores da organização brasileira voltada à revisão de condenações e erros judiciários.
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Any diz que o contato ajudou o elenco a entender não apenas os aspectos jurídicos dos casos, mas também o impacto das condenações na vida das pessoas.
"Eles foram o contato mais próximo que a gente teve com a realidade dessas pessoas. Assistimos a julgamentos, vídeos, lemos sobre o assunto. Mas esse estudo com o Innocence nos aproximou tanto do lado técnico quanto do lado humano. São pessoas que passam por isso", diz.
A série reúne um núcleo de atores mais jovens — Any Gabrielly, Nicolas Lee, Luiza Gabus, Felipe Ricca e Pedro Roza, que interpretam o grupo de estudantes de Direito — e outro de nomes mais experientes, como Vladimir Brichta, Danton Mello, Marisa Orth, Naruna Costa e Natália Lage.
Nicolas Lee, Felipe Ricca, Any Gabrielly, Marjorie Estiano, Pedro Roza e Luiza Gabus no elenco da série 'Habeas Corpus', da Netflix. (Julia Mataruna/Netflix/Divulgação)
"Eu sempre falo que eu acho que eu aprendi muito mais com a Any do que ela poderia ter aprendido comigo", afirma Marjorie. "A cada trabalho, para mim, parece que eu tô começando do zero. Você contracena com pessoas que têm histórias completamente diferentes", diz.
Any, por sua vez, brinca que a colega se subestima. "Não é sempre que você encontra atores veteranos que têm esse frescor e esse compromisso", afirma.
Para o elenco, reproduzir o jargão jurídico com naturalidade foi um dos principais desafios da preparação. A série exige que os personagens discutam leis, estratégias e procedimentos sem transformar as cenas em uma sequência de termos técnicos.
"É um vocabulário difícil, muito verborrágico. Advogado é verbo, é estratégia, interpretação de texto. Eles ficam buscando brechas na frase para conseguir trazer uma outra interpretação sobre aquela narrativa", diz Marjorie.
Any lembra do esforço para decorar os termos sem deixar que as falas soassem mecânicas. "Tem o vocabulário técnico mesmo, o artigo tal, a lei tal. Mas não dá para só falar a palavra, você tem que ter a compreensão disso", afirma.
A preparação também envolveu observar comportamentos de profissionais da área. "É uma percepção que, a partir do momento em que você pertence a uma profissão, está com você 24 horas por dia. Você continua na pesquisa, observando circunstâncias — e é assim com qualquer profissão", diz Marjorie.
Segundo a atriz, as conversas com um advogado criminalista ajudaram a entender aspectos práticos da profissão, como o cuidado com informações e provas que podem ser usadas contra o próprio cliente.
Para ela, a preparação exigiu repetição até que o vocabulário se tornasse natural. "É um trabalho bem específico. É lida, é musculação com aquele vocabulário."
Entre as cenas mais marcantes das gravações, as atrizes destacam as sequências de julgamento e as visitas ao parlatório.
"A série é toda muito sensível nesse lugar dos embates e das realidades, das injustiças, da ética, da moral, da contradição. Os personagens estão o tempo inteiro cutucando a gente nesse lugar", diz Marjorie.
Questionada sobre os locais mais difíceis de gravar, Any relembra as cenas em tribunais. "Era muito interessante ver a contradição ali, na sala: o familiar naquele momento traumático, o condenado com medo do que vai ser da vida, o advogado preocupado com a estratégia, um juiz cansado", diz.
"São momentos que te confrontam com a realidade, nua e crua."
"Habeas Corpus" estreia nesta quarta-feira, 23, com os oito episódios da temporada disponíveis de uma vez no catálogo da Netflix.