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Bússola Poder: E começou a santa guerra eleitoral

Ainda que o movimento pela democracia tenha mostrado força, grupos menores insuflam questionamentos ao resultado

Faz-se o diabo na disputa pelo voto (EVARISTO SA/Getty Images)

Faz-se o diabo na disputa pelo voto (EVARISTO SA/Getty Images)

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Márcio de Freitas*

18 de agosto de 2022, 20h00

"A guerra não é mais que a continuação da política por outros meios”, definiu Clausewitz. A campanha eleitoral é a guerra com todos os meios possíveis para conquistar o poder. A eleição de 2022 já começou com armas de todo calibre e munição ainda mais diversa na tentativa de se alcançar a vitória. Quem chegar menos ferido em outubro tende a ganhar. Essa frase não é literal: a facada em 2018 foi fator diferencial em benefício de Jair Bolsonaro.

Faz-se o diabo na disputa pelo voto, como bem disse certa feita a petista Dilma Rousseff, num rasgo de sinceridade não comum nos profissionais do jogo. E ela não era, de fato. Mas o raciocínio mostra como a disputa inclui forças ocultas, mística nada culta e adentra no santo terreno da religião, em profano uso para afastar eleitores do adversários e blindar o rebanho próprio da incursão indesejada. É uma guerra em que santos olham à distância.

Esse foi apenas o princípio, sem o meio e ainda longe do fim da campanha. Será um grande desafio duas forças tão francamente opostas se enfrentarem abertamente na disputa nacional sem deixar marcas fundas num país tão dividido. E isso com radicalização que opõe Nordeste ao Sul, pobres e ricos, mais instruídos e menos. É o que mostram os dados da pesquisas, de todas elas — mesmo quando os índices de intenção de voto são divergentes.

Ainda que o movimento pela democracia tenha mostrado força, grupos menores ainda insuflam questionamentos ao resultado. Apagam o fogo com gasolina (agora mais barata), com objetivo de criar um temor de insegurança sobre o resultado eleitoral. Inconsequência beligerante. Não existe ação sem reação, princípio básico da física, muito aplicado também à política nacional e internacional.

No meio da rua, no meio do redemoinho, o diabo se apresenta à eleição que parece batalha propícia para Riobaldo Tatarana. Jogar com o medo para criar zonas de influência sobre o eleitor é uma tática. E o medo é um ingrediente usado para conquistar terreno, ainda mais quando se fala de uma eleição onde a rejeição pode ser definidora do resultado. Viver é perigoso…

O fato é que a eleição já teve momentos em que parecia embicar para um lado, e mudou o rumo para a incerteza. Quem ameaçou calçar salto agulha, mudou para salto plataforma e já olha a sandália rasteira. Isso porque a aprovação do governo melhorou, coincidindo com os índices da economia que também vão criando uma escada para Jair Bolsonaro subir alguns pontos junto ao eleitorado.

Sapo pula por precisão, não por gosto. E, na posse de Alexandre de Moraes na presidência do TSE, o velho sapo barbudo pulou.. pulou para o lado do ex-presidente Michel Temer (MDB), tentando se reaproximar de um nome que já deu estrutura para o PT vencer eleição no passado. Lula mira o segundo turno e não repete o que fez em 1989, quando desprezou apoio de Ulysses Guimarães (PMDB) e perdeu a eleição para Fernando Collor. Na paz, a confraternização é com amigos; na guerra, é importante ter alguém lutando ao seu lado contra o mesmo inimigo. E quantos mais, melhor.

Os aliados podem ter muitas diferenças, mas se enfrentam o mesmo adversário, é o que conta. Bolsonaro já definiu suas tropas, muito leais e mobilizadas. E reforçou o time com o Centrão, que prefere cuidar dos suprimentos e da linha de fornecimento das tropas.

Em política como na guerra, ocupar terreno pode ser definidor da vitória. O PT teve duas derrotas significativas em 2014 e 2018 no importante território de São Paulo, quando Aécio Neves e Jair Bolsonaro deram uma sova grande nos candidatos petistas, com cerca de 20% de frente. Lula trouxe o ex-governador paulista Geraldo Alckmin para reforçar a retaguarda, e mandou à linha de frente Fernando Haddad, um quadro soft do PT para ajudar na redução da margem do adversário ou tentar virar o jogo.

A batalha das batalhas ficou reservada a Minas Gerais. Lá, nem Bolsonaro, muito menos Lula, tem um general de primeira linha para liderar as tropas. Bolsonaro improvisou um candidato sem grande força até agora, o senador Carlos Viana (PL). Lula reforçou o time com o carismático ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD). O comandante do pedaço é Romeu Zema (Novo), que procura se desvencilhar dos dois nomes nacionais para preservar sua posição encastelada no Palácio Tiradentes, de onde não quer sair.

Minas pode ser uma espécie de Waterloo da eleição de 2022. Quem souber se mover pelas serras desconfiadas do território férreo que sintetiza o Brasil, poderá colher a vitória em outubro.

*Márcio de Freitas é analista político da FSB Comunicação

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