Longevidade, novas gerações e IA obrigam empresas a rever gestão, vínculos, aprendizagem, cuidado e o papel das lideranças (Tirachard Kumtanom/Shutterstock)
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Publicado em 6 de outubro de 2026 às 10h00.
O dossiê do Lab de Tendências da Firjan IEL mostra que aumento da expectativa de vida, queda da natalidade e gerações moldadas pelo ambiente digital estão transformando trabalho, convivência e envelhecimento. O estudo aponta impactos sobre gestão multigeracional, vínculos, uso de tecnologia e economia do cuidado, que pode gerar até 299 milhões de empregos até 2035, segundo a OIT.
Por Mauro Wainstock*
O dossiê “Tendências, Longevidade e Novas Dinâmicas Geracionais”, produzido pelo Lab de Tendências da Firjan IEL, mostra que três forças caminham juntas: o aumento da expectativa de vida, a queda da natalidade e a chegada de gerações moldadas pelo ambiente digital.
Combinadas, elas produzem uma mudança estrutural na forma como cuidamos uns dos outros, convivemos e envelhecemos.
Boa parte dos modelos de gestão em uso hoje foi criada para uma realidade demográfica que não existe mais.
O documento organiza essa transformação em quatro frentes: um novo mapa geracional, a crise dos vínculos, a utilização das telas e a economia do cuidado. Elas se conectam entre si e ajudam a entender os principais desafios que vão ocupar a agenda das organizações nos próximos anos.
A seguir, um panorama de cada uma:
A queda da natalidade, somada ao aumento da expectativa de vida e ao avanço da saúde no processo de envelhecer, muda a composição populacional e influencia diretamente as decisões estratégicas do mercado de trabalho.
O modelo linear de carreira, em que o profissional estuda, trabalha e depois se aposenta, perde força diante de trajetórias mais longas e menos previsíveis. Colaborador acima dos 60 anos segue produtivo, aprende competências, assume desafios diferentes e reinventa a própria jornada.
Ao mesmo tempo, quem começa hoje terá, muito provavelmente, um percurso bem mais extenso do que o de gerações anteriores.
Na prática, o que o RH pode fazer?
Veja exemplos. Nos Estados Unidos, o banco BNY criou o “Genedge”, programa de mentoria bilateral sobre cultura, comunicação e tendência. Com 50 a 100 pares ativos por ano, a iniciativa fortalece a troca intergeracional e amplia o repertório dos dois lados.
Em Portugal, a Católica-Lisbon lançou o “Center on Longevity Leadership”, que reúne empresas para desenvolver, em conjunto, práticas de gestão multigeracional.
O movimento sinaliza como a longevidade pode entrar de vez na agenda de liderança e inovação, sem ficar restrita a um projeto pontual de bem-estar.
Já na Coreia do Sul, companhias como o Booyoung Group passaram a oferecer bônus por filho nascido de funcionário, em resposta à baixa natalidade do país.
A iniciativa, já adotada por outras organizações coreanas, mostra que a transformação demográfica pode ganhar peso crescente dentro da própria gestão corporativa e não só como pauta de governo.
Outro fenômeno que merece atenção é o enfraquecimento do laço social. O dossiê aponta que, em alguns países europeus, a proporção de jovens que não encontram amigo pessoalmente ao menos uma vez por semana saltou de um em cada dez para um em cada quatro na última década.
Ao mesmo tempo, a mediação crescente da relação por tela amplia o debate sobre confiança, rede de apoio e senso de comunidade.
O escritório já não funciona apenas como o lugar onde a tarefa é cumprida. Segundo o estudo, o espaço físico e o modelo híbrido assumem papel estratégico na construção de convívio, colaboração e proximidade.
A pergunta relevante passa a ser que tipo de interação o RH deve estimular quando o time estiver reunido, além de definir onde a atividade será realizada.
A Samsung, na Índia, desenvolveu o programa ConnectX, reunindo grupos com hierarquias diversas para conversas além da pauta habitual. A iniciativa reduziu barreiras e fortaleceu o pertencimento.
Algumas ações simples já ajudam bastante:
- Avaliar se o encontro presencial favorece mesmo a colaboração e não só a ocupação de mesa.
- Criar momento de troca que não dependa de reunião formal marcada.
- Estimular iniciativas entre áreas diferentes, para além do silo habitual.
- Acompanhar indicador ligado à qualidade do relacionamento e ao senso de pertencimento, para complementar a avaliação tradicional de desempenho.
Como preparar a equipe para usar tecnologia sem sacrificar o pensamento crítico?
No Brasil, a BetaLab combina inteligência artificial, neurociência e pílulas do TikTok Learning, com foco em formato curto e alinhado aos hábitos jovens. Na outra ponta, a Vodafone Foundation ampliou na Irlanda o Hi Digital, voltado à competência digital para maiores de 65 anos.
Inclusão e longevidade caminham unidas.
Para o RH, a regra é descartar a receita única. Formatos ágeis e virtuais atendem a perfis específicos, mas equipes diversas exigem autonomia para interpretar dados e dominar novas ferramentas. A tecnologia caduca, a análise crítica permanece.
A varejista americana Claire's intensificou a pesquisa com a Geração Alpha para adaptar produto, linguagem e comunicação às referências de plataforma digital e comunidade “online”. O exemplo evidencia o valor de ouvir esse público.
No ambiente de trabalho, essa escuta também pode ajudar a escolher formas de aprendizagem mais adequadas, preservando a autonomia de quem aprende.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o investimento nesse ecossistema tem potencial para gerar até 299 milhões de empregos no mundo até 2035. Ao mesmo tempo, inteligência artificial, robótica assistiva, monitoramento remoto e plataforma digital abrem uma nova forma de acompanhamento e coordenação.
Esse movimento interessa ao RH por dois motivos. O primeiro diz respeito ao próprio time da empresa, que igualmente envelhece e cuida de familiar. O segundo está ligado ao novo mercado e às soluções que surgem em torno de uma sociedade com mais longevidade.
O cuidado tende a atravessar setores diferentes, como saúde, habitação, seguro e serviços financeiros. O dossiê destaca a expansão das chamadas “caretechs”, “startups” voltadas especificamente a esse ecossistema. Fica ainda um alerta importante.
Quanto maior o uso de dados, inteligência artificial e monitoramento contínuo, maior a necessidade de política sólida de privacidade, ética e segurança da informação.
Nos Estados Unidos, a CVS Health, por meio da Aetna, ampliou um programa de acompanhamento de paciente após a alta hospitalar, que coordena cuidado domiciliar, transporte e suporte médico. A abordagem reforça uma lógica de prevenção contínua.
A Maven Clinic, ainda no mercado americano, acompanha diferentes fases da vida da mulher, da fertilidade à menopausa, e une atendimento clínico, tecnologia e coordenação de serviço em uma única plataforma.
Na Bélgica, a Maurice & Nora conecta estudantes universitários a quem precisa de apoio no dia a dia. A inteligência artificial ajuda a compatibilizar perfis e organizar as visitas, o que cria um modelo de cuidado entre gerações.
Esses casos ajudam a ampliar a conversa sobre benefício e suporte ao longo da carreira. A questão é como construir uma experiência profissional compatível com a fase e a necessidade de cada colaborador.
O desafio não cabe em uma única área. Saúde, educação, moradia, tecnologia e serviço precisam estar mais articulados para responder à nova dinâmica entre gerações. Ao mesmo tempo, a adaptação das cidades, com destaque para habitação, mobilidade e espaço público, abre caminho para soluções mais inclusivas.
Há, portanto, uma oportunidade para que a organização deixe de olhar a longevidade só pelo ângulo da empregabilidade. Ela também pode ser observada pela inovação.
No Brasil, a “startup” InCicle criou um álbum corporativo para amenizar a crise dos vínculos dentro das empresas e fortalecer o senso de pertencimento entre colaboradores.
Inspirada na lógica dos colecionáveis, a iniciativa transforma profissional, equipe e projeto em personagem de uma coleção compartilhada e incentiva a interação entre áreas por meio da troca de figurinhas e do reconhecimento entre colegas.
Ao usar a gamificação para estimular trocas espontâneas e intensificar a experiência coletiva, a ação reforça a cultura, amplia a colaboração e resgata relação que vai além do vínculo estritamente funcional.
É um exemplo interessante porque mostra que enfrentar a crise dos relacionamentos não exige, necessariamente, ações complexas.
A palavra-chave aqui é intencionalidade. Não é razoável esperar que a convivência geracional produza cooperação por conta própria. É preciso formar líder ativo e inclusivo, abrir espaço de troca real e investir na cultura da equipe.
O mesmo raciocínio vale para a educação corporativa. Programa contínuo voltado à longevidade tem gerado resultado mais consistente do que ação isolada. Isso sugere uma mudança de abordagem.
O tema não deve ser tratado como campanha pontual, treinamento avulso ou pauta exclusiva de profissional acima dos 50 anos. Ele precisa fazer parte da estratégia de desenvolvimento de forma permanente e abranger todas as idades e hierarquias.
À medida que a IA assume tarefa repetitiva e analítica, o valor do trabalho humano fica cada vez mais ligado à capacidade de construir confiança, lidar com ambiguidade e solucionar situações complexas. Três competências se destacam: inteligência emocional, adaptação contínua e pensamento crítico.
*Mauro Wainstock, é palestrante internacional sobre Gerações. Membro de 6 conselhos empresariais, foi nomeado 10º influenciador mundial em diversidade e inclusão e TOP RH Influencer América Latina. É jurado do Prêmio Ser Humano, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos, LinkedIn Top Voice, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e coautor de 15 livros. Foi idealizador e realizador do “Hacka4All”, o primeiro Hackaton sobre diversidade e inclusão do Brasil.*
Segundo o dossiê do Lab de Tendências da Firjan IEL, o aumento da expectativa de vida, a queda da natalidade e a chegada de gerações moldadas pelo ambiente digital estão alterando a forma como as pessoas trabalham, convivem e envelhecem.
O modelo linear em que o profissional estuda, trabalha e depois se aposenta perde força diante de trajetórias mais longas. O texto aponta que profissionais acima dos 60 anos seguem produtivos e que o RH precisa adaptar práticas de gestão a equipes multigeracionais.
O dossiê aponta enfraquecimento do laço social e maior mediação das relações por telas. Nesse contexto, escritório e trabalho híbrido passam a ter papel estratégico na construção de convívio, colaboração, confiança e pertencimento.
O texto defende que formatos digitais precisam ser combinados com autonomia para interpretar dados, dominar ferramentas e preservar o pensamento crítico. À medida que a IA assume tarefas repetitivas e analíticas, inteligência emocional, adaptação contínua e pensamento crítico ganham importância.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o investimento na economia do cuidado tem potencial para gerar até 299 milhões de empregos no mundo até 2035.
O texto afirma que a convivência geracional não produz cooperação automaticamente. As empresas precisam formar líderes ativos e inclusivos, criar espaços reais de troca e tratar a longevidade como parte permanente da estratégia de desenvolvimento.