Os presidentes Donald Trump e Lula, durante encontro em maio, na Casa Branca (Divulgação)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 17 de julho de 2026 às 17h13.
Última atualização em 17 de julho de 2026 às 17h16.
A equipe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) pediu ao governo brasileiro, em janeiro deste ano, durante as negociações sobre o tarifaço, que limitasse o acesso de "atores não orientados pelo mercado" às reservas nacionais de minerais críticos e terras raras. Integrantes do governo Lula interpretaram a proposta como uma tentativa de restringir a atuação da China, principal rival geopolítico dos EUA na disputa por esses recursos estratégicos.
Nas negociações, os americanos, encabeçados pelo representante comercial do governo Trump, Jamieson Greer, pediram ainda que o Brasil zerasse as tarifas sobre produtos industriais vindos dos EUA, sem oferecer nenhuma contrapartida, segundo pessoas familiarizadas com as tratativas.
A China é o país com a maior reserva de terras raras do mundo (49% , segundo relatório do U.S. Mineral Commodity Summaries de 2025) e detém a tecnologia de processamento desse conjunto de 17 elementos considerados estratégicos para a transição energética por serem usados na fabricação de baterias, microchips e smartphones. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta, com 23% do mapeado globalmente, à frente da Índia, que tem 7,7%.
Um integrante do governo Lula afirma, sob reserva, que o pedido dos americanos de uma parceria na área de minerais críticos, que previa essa limitação, foi entregue por escrito e rechaçado pelos negociadores brasileiros.
Não houve, na ocasião, nenhuma oferta de contrapartida dos EUA para desenvolver o processamento de minerais críticos e de terras raras no Brasil, tema considerado crucial pelo governo Lula. Em outras conversas com autoridades brasileiras, fora da negociação do tarifaço, emissários do governo americano chegaram a mencionar o interesse dos EUA pelos minerais críticos do Brasil e a possibilidade de investir no desenvolvimento de uma indústria de processamento no país, mas não houve avanços nesse sentido.
O ministro Márcio Elias Rosa já havia dito nesta quinta-feira, 16, ao comentar o tarifaço de 25% anunciado pelos EUA contra exportações brasileiras, que o pedido dos americanos havia sido feito, mas não mencionou a China.
"Numa das rodadas de negociação, o que foi solicitado foi que nós fizéssemos medidas que pudessem limitar investimentos por atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras, a exemplo do que eles fizeram com outros países, como o Reino Unido e a Austrália. Isso chegou a não ser apresentado formalmente e, obviamente, não aceitamos e não aceitaremos, porque terras raras e minerais críticos pertencem ao povo brasileiro", disse o ministro.
A Austrália, que tem a quarta maior reserva de terras raras (com 6,3%) fechou um acordo com os EUA em outubro do ano passado para garantir aos americanos o fornecimento de minerais críticos e terras raras. O acordo inclui anúncios de investimentos e o processamento de uma indústria para processar os elementos localmente. O documento prevê que os dois países invistam US$ 8,5 bilhões no setor de mineração australiano.
Na mesma ocasião em que fizeram o pleito sobre minerais críticos, os americanos exigiram que o Brasil zerasse as tarifas sobre as importações dos Estados Unidos em uma série de setores industriais. Entre as demandas por tarifa zero pleiteadas pelos EUA, estava o etanol, como a EXAME noticiou. Mas também estavam, entre outros produtos, aviões e componentes aeroespaciais, todo o mercado automotivo americano, produtos químicos, máquinas e equipamentos elétricos.
Ao abordarem o Pix, as autoridades americanas não chegaram a formular uma proposta para a infraestrutura de pagamentos do Brasil, mas indicaram que consideravam desleal que o Banco Central, autoridade que regula o mercado bancário, fosse também o detentor da ferramenta.
Nas reuniões de negociação, no entanto, os brasileiros defenderam a infraestrutura de pagamentos, que é gratuita e disponível a todas as instituições financeiras que operam no país. Além disso, ressaltaram que, desde a implementação do Pix, a movimentação em cartões de crédito não deixou de crescer, o que colocaria em xeque a afirmação do USTR de que o sistema brasileiro prejudicaria meios de pagamento americanos, como as bandeiras Visa e Mastercard.
O aceite dos termos desse acordo, considerados leoninos pelos brasileiros, não garantia a isenção do tarifaço, o que o governo brasileiro considerou inaceitável. Membros da equipe de Greer afirmaram, apenas, que poderiam considerar reduzir as tarifas propostas.
A equipe de negociadores do Brasil, chefiada pelo ministro Márcio Elias Rosa, considerou as condições americanas completamente desarrazoadas. Ao longo das cinco reuniões que teve com Greer desde maio, o ministro apresentou uma série de alternativas. Depois de janeiro, os americanos não apresentaram novas demandas.
Rosa chegou a apresentar o que chamou de Mapa do Caminho, um documento no qual o Brasil dá garantias sobre ações que pode adotar em áreas contempladas na investigação aberta pelo órgão americano com base na Seção 301: comércio digital e meios de pagamento, proteção ao meio ambiente, à propriedade intelectual, tarifas preferenciais, combate à corrupção e tratamento dado ao etanol americano. O ministro, no entanto, não obteve resposta, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.