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Tarifaço contra Brasil é político e Lula acerta ao resistir, diz Steven Levitsky

Em entrevista à Exame, professor de Harvard diz que governos que cedem a Trump acabam sofrendo novas intimidações

Steven Levitsky, cientista político e professor de Harvard (Woodrow Wilson International Center for Scholars/Wikimedia Commons)

Steven Levitsky, cientista político e professor de Harvard (Woodrow Wilson International Center for Scholars/Wikimedia Commons)

Publicado em 21 de julho de 2026 às 08h50.

Última atualização em 21 de julho de 2026 às 08h56.

O cientista político e professor de Harvard Steven Levitsky afirma que o tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil é político, como a maioria das decisões comerciais de Donald Trump. Para o autor do best-seller 'Como as Democracias Morrem', a reação do governo Lula desde o tarifaço anterior, de não ceder à tentativa de intervenção no país, está correta.

Em entrevista à EXAME, Levitsky diz que a posição do Brasil, única na América Latina, tem mais chances de sucesso do que a capitulação, uma vez que países que cedem dão incentivos a Trump para continuar a pressionar.

Levitsky também afirma que tentativas americanas de intervir em eleições tendem a ter o efeito contrário ao desejado pelo governo Trump, a exemplo do Canadá, em que o então candidato de centro-esquerda, Mark Carney, foi eleito em março de 2025 após o presidente americano ter feito declarações de que o país poderia ser o 51º estado dos Estados Unidos.

Leia trechos da entrevista abaixo e confira a íntegra na próxima edição da revista EXAME.

O governo Trump anunciou, no dia 15 de julho, que vai impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Essa foi uma decisão de política comercial ou uma medida motivada principalmente por questões políticas, como argumenta o governo brasileiro?

É como a maioria das decisões de política comercial do governo Trump, política. Eu estava em Brasília em agosto [de 2025], pouco depois de Trump impor tarifas de 50% em resposta à tentativa do Judiciário brasileiro de responsabilizar Jair Bolsonaro por ter tentado dar um golpe de Estado. Essa foi uma decisão pessoal e política que não teve absolutamente nada a ver com comércio. É muito difícil encontrar uma racionalidade [comercial nas decisões]. A política de comércio exterior dos Estados Unidos hoje é confusa e bastante inepta, muda a cada dia, conforme o humor do presidente. Não há uma política econômica coerente no que o governo Trump vem fazendo.

As tarifas de 2025 beneficiaram mais a campanha do presidente Lula do que a de Flávio Bolsonaro. Vai acontecer de novo?

Estes caras do governo Trump não são muito inteligentes. Não há uma estratégia coerente por trás dessas intervenções. A administração Trump decidiu adotar uma abordagem intervencionista, muito antiquada e descarada, chegando até mesmo à Alemanha e tomando posição sobre qual partido ela acha que deveria vencer. Ajudando abertamente um lado contra o outro em diversas eleições, sem um estudo sério sobre as consequências.

Há um longo histórico, que remonta a Perón na Argentina na década de 1940, de intervenções americanas que se voltam contra os EUA. Mas esta administração não conhece a história. Houve alguns casos em que as intervenções americanas de Trump parecem ter dado a ele o que queria, como o apoio a Milei e, talvez, a intervenção na eleição hondurenha. Mas há muitos outros casos, principalmente no Canadá, em que Trump realmente beneficiou o outro lado (nas eleições), as forças mais liberais e de centro-esquerda.

Como o uso de tarifas, por parte dos EUA, para tentar influenciar eleições pode afetar a democracia no mundo?

O Brasil é o único lugar na América Latina em que o governo Trump teve de confrontar os limites do seu poder. O governo brasileiro, para seu grande crédito, não recuou apesar das sanções e tarifas até o momento. Não acho que Trump tenha compreendido totalmente com quem estava se metendo no Brasil. O Brasil não é Honduras.

Trump não é um especialista em política externa, tem uma visão muito narcisista e centrada nos EUA. Age como se outros governos não existissem de fato. Ele não pensa muito na Dinamarca quando fala em simplesmente anexar a Groenlândia. Ele quer voltar a uma era anterior à Primeira Guerra Mundial em que as grandes potências simplesmente se aproveitavam dos estados pobres e mais fracos, abandonando completamente a ordem internacional baseada em regras. Não sabemos quais serão as consequências disso a longo prazo. Minha esperança é que possamos restaurar a ordem internacional baseada em regras assim que Trump sair do cargo. Mas isso está causando um grande dano. 

Trump está tentando fazer isso na América Latina. Funcionou para Trump, pelo menos a curto prazo, na Venezuela. Não estou confiante de que isso trará muitos benefícios a alguém a longo prazo. Mas foi muito fácil para Trump fazer o que queria na Venezuela. Ele pressionou os governos do México e da Colômbia. Outros governos, como o de Milei [na Argentina] e o do Equador, foram muito cooperativos.

Diante das dificuldades que Trump encontrou no Brasil e, em outro nível, no Irã, o senhor acha que ele deverá intensificar as ações contra esses países ou parar e buscar outros alvos?

Normalmente, quando Trump não consegue o que quer, ele meio que desiste e tenta em outro lugar. A resposta do governo brasileiro, do Lula, às tarifas americanas, tem sido realmente única na América Latina. É o único governo que resistiu seriamente à intimidação da administração Trump e acho que funciona. Quando os governos cedem a ele e se rendem, Trump simplesmente continua a intimidar. E quando eles reagem, ele tende a recuar.

No Irã, Trump está numa situação realmente complicada porque quer se retirar. Acho que governo Trump adoraria fugir da situação no Irã e provavelmente atacar Cuba, que é um alvo mais fácil. Talvez não tão fácil quanto eles pensam, mas mais fácil do que o Irã. Mas ele está preso porque piorou muito as coisas em relação ao status quo anterior no Irã. E se retirar neste momento seria uma rendição humilhante, que deixaria o Irã mais poderoso do que nunca.

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