Economia

Novo tarifaço dos EUA afeta 18% das exportações brasileiras, diz governo Lula

Ministro afirma que medida dos EUA deve atingir US$ 7,4 bilhões em exportações brasileiras e relata impasses nas negociações com o governo Trump

Elias Rosa: ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Júlio César Silva/MDIC)

Elias Rosa: ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Júlio César Silva/MDIC)

Publicado em 16 de julho de 2026 às 17h52.

Última atualização em 16 de julho de 2026 às 19h57.

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O ministro Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), disse nesta quinta-feira, 16, que o tarifaço de 25% anunciado pelo governo de Donald Trump vai incidir sobre 18% das exportações brasileiras, considerando-se os dados de 2024, ano anterior ao primeiro tarifaço americano, de 50%.

Com base nesse parâmetro, o montante afetado na balança comercial entre os dois países chega a US$ 7,4 bilhões.

"Queria destacar que nós vamos ter cerca de 18% das nossas exportações para os Estados Unidos atingidas, o que corresponde a US$ 7,4 bilhões. Isso, levando em conta o ano de 2024, antes, portanto, do início do tarifaço", disse o ministro.

Considerando valores do ano passado, afetados negativamente pelo primeiro tarifaço promovido pelos americanos, a incidência da nova tarifa impacta setores que exportaram US$ 5,8 bilhões aos Estados Unidos em 2025.

Entre os segmentos mais impactados pela nova tarifa, de 25%, estão os que exportam madeira, móveis e mobiliário, máquinas e equipamentos elétricos, produtos cerâmicos, calçados e açúcar, disse o ministro.

Elias Rosa, que encabeçou a equipe de negociadores brasileiros junto ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), afirmou que as exigências apresentadas pelos americanos eram inaceitáveis.

Entre os pedidos que teriam sido feitos pelos americanos, segundo o ministro Rosa, estavam zerar as tarifas à importação de bens industriais e a produtos químicos, e o acesso livre do mercado brasileiro para o setor automotivo americano.

"Pretendiam nada mais, nada menos do que toda a abertura do setor químico, a redução a zero das tarifas dos bens industriais e o acesso ao mercado automotivo, dentre outros setores”, disse.

Os americanos também pediram, de acordo com o ministro, que o Brasil restringisse o acesso a minerais críticos e terras raras brasileiros a "agentes de mercado" e instituições estrangeiras que não americanas.

"Numa das rodadas de negociação, o que foi solicitado foi que nós fizéssemos uma medida que pudesse limitar investimentos por atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras, a exemplo do que eles (os EUA) fizeram com outros países, como Reino Unido e Austrália; os Estados Unidos fecharam acordo nesse sentido com esse enunciado. Obviamente não aceitamos e não aceitaremos porque terras raras e minerais críticos pertencem ao povo brasileiro", afirmou o ministro.

Apesar disso, o ministro afirmou que o governo brasileiro vai continuar as negociações e que "nos próximos dias" vai procurar estabelecer novas tratativas com as autoridades americanas com o objetivo de reverter o tarifaço.

"Seria um grande desrespeito com setores atingidos se nós não voltássemos para as mesas de negociação. Temos que postular a exclusão de outros setores. É evidente que nós vamos ter que continuar defendendo a não aplicação da tarifa. Daqui a alguns dias nós vamos retomar a discussão e o diálogo", afirmou.

Entenda o tarifaço dos EUA ao Brasil

O governo dos Estados Unidos anunciou, na noite desta quarta-feira, 15, a aplicação de novas tarifas de importação a produtos brasileiros. A nova taxa será de 25%, com uma série de exceções, que incluem café, carne, frutas e partes de aviões, entre outros.

A nova cobrança passará a ser feita em 22 de julho, com exceções para itens que estiverem em trânsito. A cobrança se soma a outras taxas já pagas pelos produtos.

A tarifa foi adotada após uma investigação feita contra o Brasil, por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025. No começo de junho, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.

O USTR avalia que essas práticas dão vantagens indevidas ao Brasil no comércio, e propôs uma nova tarifa para tentar reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA. A decisão foi chancelada pelo presidente Donald Trump.

Além disso, em outro processo, o Brasil é acusado de se beneficiar de trabalhos forçados. A decisão deste processo ainda não foi divulgada, e poderá gerar uma outra tarifa de 12,5%.

Um alto funcionário ligado ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirmou, sob reserva, que apesar das cinco reuniões com a equipe negociadora do Brasil, chefiada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o lado americano não sentiu empenho para mitigar as motivações comerciais da tarifa.

Ao mesmo tempo, este funcionário afirma que ainda há espaço para novas negociações, embora não tenha detalhado em quanto tempo as conversas poderiam ser retomadas.

Relembre as várias etapas do tarifaço de Trump contra o Brasil

A reação do Brasil

Do lado brasileiro, integrantes do governo Lula afirmam, também sob reserva, que os americanos não se mostraram abertos ao diálogo e que desconsideraram os argumentos do Brasil. Afirmam, ainda, que os americanos insistiram em pedidos que estavam completamente fora de cogitação, como concessões acerca do Pix, que, segundo o USTR, representaria uma competição desleal com meios de pagamento americanos.

Horas antes do anúncio, um assessor do governo Lula disse, de forma reservada, que as autoridades brasileiras esperavam a definição do USTR para então definir qual seria a resposta brasileira, que pode incluir o uso da Lei de Reciprocidade, com medidas contrárias aos EUA.

Há, ainda, a expectativa de que os Estados Unidos só aceitem negociar depois das eleições presidenciais brasileiras, em outubro.

Na terça-feira, 14, o governo brasileiro teve a quinta reunião com Jamieson Greer, chefe do USTR, em que o Brasil reiterou o caráter injusto das tarifas.

"Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas. Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", afirma nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

*Em atualização. 

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