Indústria: setor pede mais investimento em inovação e redução do Custo Brasil (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 22 de junho de 2026 às 05h30.
A redução de impostos e a consolidação da reforma tributária são as principais demandas da indústria para o próximo presidente da República. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado nesta segunda-feira, 22, mostra que 29% dos empresários industriais consideram a pauta tributária a prioridade mais urgente para o governo que assumirá o comando do país pelos próximos quatro anos.
Os resultados serão apresentados durante o evento "A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis", realizado em Brasília. Na ocasião, a entidade entregará aos pré-candidatos ao Planalto o documento Construindo o Brasil 2050, que reúne propostas para áreas como agenda macroeconômica, política industrial, inovação, infraestrutura, energia, sustentabilidade e segurança jurídica. Os pré-candidatos Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) confirmaram participação no encontro.
Do total de entrevistados, 18% apontaram a reforma tributária e a redução da carga de impostos como a principal medida a ser adotada pelo novo governo, enquanto outros 11% classificaram o tema como a segunda ação mais importante.
Na sequência aparecem o equilíbrio fiscal e a melhoria da gestão pública, citados por 22% dos empresários. Já as medidas de incentivo à indústria e à produção ocupam a terceira posição entre as prioridades, mencionadas por 21% dos entrevistados.
Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, o país precisa alinhar política fiscal e monetária para criar um ambiente mais favorável ao investimento produtivo.
Segundo ele, a indústria está preparada para ampliar sua participação no crescimento econômico, mas depende de maior previsibilidade e de um Estado capaz de estimular o desenvolvimento de longo prazo.
O controle dos gastos públicos também aparece como uma das principais preocupações do setor, especialmente pela relação com o custo do crédito e o nível dos juros no país.Para 72% dos empresários industriais, a redução da dívida pública por meio do corte de despesas é a principal medida para permitir uma queda sustentável das taxas de juros. A autonomia do Banco Central foi citada por 11% dos entrevistados, enquanto 6% defenderam maior concorrência entre instituições financeiras.
Ao detalhar as expectativas para diferentes áreas da administração pública, a pesquisa mostra que os empresários associam competitividade econômica a reformas estruturais.
Na área de emprego, 71% apontaram a redução de impostos sobre a folha de pagamento como principal prioridade. Em saúde, 48% defenderam o combate à corrupção e ao desvio de recursos. Já em segurança pública, 45% citaram o enfrentamento ao tráfico de drogas e ao crime organizado.
No campo da economia, 42% dos entrevistados indicaram o controle dos gastos públicos combinado à redução de impostos como principal ação governamental. Em educação, a melhoria da capacitação dos professores liderou as respostas, com 38% das menções.
Além da reforma tributária e do ajuste fiscal, a CNI aproveita o encontro com os presidenciáveis para defender mudanças no ambiente de inovação brasileiro.
A entidade argumenta que o país ampliou significativamente os recursos destinados ao desenvolvimento tecnológico, mas ainda enfrenta gargalos burocráticos que limitam o acesso das empresas aos programas de fomento.
Em 2026, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal instrumento federal de apoio à inovação, prevê mais de R$ 17 bilhões para financiamento de projetos inovadores. Para a indústria, no entanto, a ampliação dos recursos precisa ser acompanhada de processos mais simples e rápidos.
Dados levantados pela própria CNI mostram que 36% dos empresários consideram a burocracia o principal obstáculo para acessar instrumentos públicos de apoio à inovação. Entre os entrevistados, 42% afirmaram que sequer tentaram utilizar esses mecanismos.
As dificuldades são ainda maiores para micro e pequenas empresas, que enfrentam exigências de garantias consideradas incompatíveis com projetos baseados em ativos intangíveis e de maior risco tecnológico. Segundo a entidade, o intervalo entre a aprovação de um projeto e a liberação dos recursos pode chegar a 18 meses, prazo considerado incompatível com o ritmo da inovação.
Para enfrentar o problema, a CNI propõe simplificação dos processos em instituições como BNDES e Finep, ampliação de fundos garantidores para pequenas empresas, modernização das linhas de crédito e flexibilização das exigências de garantias reais.
A entidade também defende a ampliação dos incentivos da Lei do Bem para empresas fora do regime de Lucro Real e a criação de mecanismos que permitam o compartilhamento dos riscos tecnológicos.
O documento entregue aos presidenciáveis também sugere a construção de uma estratégia nacional de inovação de longo prazo, com foco em áreas consideradas estratégicas para o país, como inteligência artificial, bioeconomia, combustíveis do futuro, novos materiais e digitalização da indústria.
As propostas apresentadas pela indústria dialogam diretamente com os desafios enfrentados pelas empresas nos últimos anos. Entre as prioridades apontadas pelos empresários para melhorar o ambiente de negócios, a redução de impostos aparece novamente na liderança, citada por 45% dos entrevistados.
Em seguida surgem a redução dos juros e a ampliação da oferta de crédito, mencionadas por 26% dos respondentes, além de medidas de incentivo à indústria e à produção, apontadas por 21%.
A percepção está alinhada aos fatores que mais prejudicaram a atividade industrial nos últimos 12 meses. Em uma escala de 1 a 5, a alta carga tributária recebeu nota média de 4,4 em impacto negativo. A indisponibilidade de mão de obra e as taxas de juros elevadas registraram média de 4,1.
Apesar dos desafios, os empresários mantêm uma visão relativamente estável sobre os investimentos para os próximos quatro anos. Entre os entrevistados, 41% afirmaram que pretendem manter o atual nível de aportes em suas operações. Outros 28% planejam ampliar investimentos, enquanto 9% projetam redução. Já 20% disseram não ter intenção de investir no período.
Para Ricardo Alban, a indústria busca respostas que permitam combinar crescimento econômico, aumento da produtividade e redução das desigualdades sem comprometer a estabilidade macroeconômica. Segundo o executivo, a manutenção de juros elevados e a expansão descontrolada dos gastos públicos ampliam a distância entre o Brasil e os países que conseguem sustentar ciclos mais longos de desenvolvimento.
A pesquisa Prioridades da Indústria – Percepções para o ciclo 2027-2030 foi realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados entre 7 de maio e 5 de junho de 2026. O levantamento ouviu 1.003 executivos de empresas industriais de pequeno, médio e grande porte em todas as regiões do país.