Quando o Rio de Janeiro terá trens decentes?

O 3º acidente em menos de três meses é uma prova de que o sistema ferroviário carioca não acompanhou as transformações da cidade. É preciso por tudo de volta nos trilhos

São Paulo - Pela terceira vez em 2014, um trem da SuperVia, concessionária dos trens metropolitanos do Rio de Janeiro, se envolveu em um acidente. Na manhã desta segunda-feira, um trem que seguia para a Central do Brasil descarrilou próximo à estação Deodoro, na zona oeste da cidade. 

As causas do incidente, que deixou 7 feridos e obrigou centenas a andarem nos trilhos para chegar à estação mais próxima, ainda não foram divulgadas, mas ocorrências do tipo já são velhas conhecidas de quem precisa viajar em trens velhos, linhas mal sinalizadas e estações precárias. 

A resolução para estes problemas está nas mãos do governo do estado e da Odebrecht Transport, que assumiu a operação da SuperVia em 2010 (e comandará o sistema até 2048). 

Desde a assinatura do contrato, fala-se em investimentos vultuosos: ao governo, caberia investir R$ 1,2 bilhão para renovar a frota de trens. Já a SuperVia, por sua vez, ampliou sua parte no acordo de R$ 1,2 bilhão para R$ 2,1 bilhões.

Nada que tenha conseguido, até agora, trazer sossego à quem usa o sistema. A esperança é que a necessidade de tornar o negócio rentável para o lado da Odebrecht, o que irá exigir que se atraia mais passageiros para os trens, acarrete na melhoria dos serviços no futuro. 

O horizonte para que as evoluções comecem a ser sentidas é curto. Com as Olimpíadas se aproximando, governo e empresa têm a missão de modernizar os trens para por tudo de voltar nos trilhos. 

Quando melhora?

Segundo a empresa, o total de investimentos que já estão sendo feitos permitirá a renovação de boa parte da frota e a atualização da infraestrutura hoje precária.

Cento e vinte novos trens refrigerados já estão em circulação, e outros 360 começam a circular neste ano. Haverá também, promete a empresa, a troca de mais de 100 quilômetros de trilhos, a instalação de 70 mil dormentes e a substituição de 80 mil metros de cabos de rede aérea e reformas de estações.

Segundo a SuperVia, o número de falhas foi reduzido de 1.611, em 2011, para 600 no ano passado. No entanto, a quantidade de incidentes ainda incomoda a empresa, governo e, principalmente, os usuários. 

"Trens novos (com ar condicionado!) já estão vindo para o Brasil e devem melhorar a situação em partes. O problema é que eles não conseguem trafegar em uma velocidade mais alta por conta dos trilhos e sinalizações ultrapassados", explica o professor da UERJ, Alexandre Rojas.

Os trens da SuperVia circulam hoje a uma velocidade média de 38km/h, pouco mais que os ônibus que enfrentam o trânsito caótico da capital fluminense.

Trilho e sinalização novos poderiam dobrar a velocidade e a quantidade de passageiros transportados. "Funcionando bem, a SuperVia tem o potencial de melhorar, inclusive, o trânsito nas ruas da cidade", conclui Rojas.

À EXAME.com, a empresa disse que as melhorias ainda devem demorar um pouco para serem percebidas.

"O processo de mudança do trem do Rio é irreversível e seguimos firmes na decisão de contribuir com essa transformação. Entretanto, os investimentos na modernização de qualquer sistema ferroviário do mundo demoram de 4 a 5 anos para serem concluídos", diz em nota.

Em janeiro deste ano, outro descarrilamento levou o caos ao Rio de Janeiro. Um trem que ia da Central do Brasil para Duque de Caxias saiu dos trilhos por volta das 5h. Os vagões atingiram a rede elétrica, que foi derrubada sobre a linha, afetando todo o transporte ferroviário na região metropolitana da cidade.

Um milhão

A meta da Odebrecht é trazer de volta para os trens os 1 millhão de passageiros que utilizavam o sistema ferroviário até o final dos anos 1980 -hoje, esse número está em cerca de 600 mil passageiros por dia. Para isso, no entanto, serão necessárias melhorias em infraestrutura.

Para Alexandre Rojas, da UERJ, os trens são vítimas de 50 anos de degradação.

"A SuperVia tem uma malha semelhante à da CPTM, em São Paulo, só que o projeto da rede de trens carioca data de meados do inicio do século XX", explica o professor.

Sua concepção, que data quase 100 anos de idade, não atende mais às necessidades da segunda maior metrópole do Brasil. 

Segundo Rojas, a maior parte dos problemas está ligada a essa estrutura ultrapassada. "Não adianta fazer reparo, tem que ser tudo reprojetado", afirma. 

Em 1998, quando houve a privatização da SuperVia, a circulação de passageiros já havia despencado para 300 mil por dia.

Atualizada às 19h19

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