Pessoas pobres devem ser vacinadas primeiro? Estudo defende que sim

Vacinar os mais pobres primeiro pode não ser só questão de equidade, mas de conter a pandemia mais rapidamente

A população pobre sofreu mais com o coronavírus. Essa leitura, já amplamente reconhecida, levou a medidas como doações empresariais e o auxílio emergencial aprovado duas vezes no Congresso. Mas um novo estudo liderado por pesquisadores no Brasil e no exterior defende que essas evidências devem ser usadas para pensar, também, a vacinação.

Publicado na última semana na revista científica BMJ Global Health, o artigo usa como base a geografia do estado de São Paulo para mostrar como a covid-19 e fatores como raça, renda e CEP estão, infelizmente, altamente relacionados. Os resultados são devastadores: as populações de localidades mais pobres não só contraem mais a covid-19, como morrem mais depois que pegam a doença. O mesmo vale para indivíduos pretos e pardos quando comparados a brancos (leia na íntegra).

Os padrões de isolamento, medidos no estudo por dados do IBGE e de celulares, corroboram a tese, segundo os autores. "Os bairros de mais alta renda e de população branca começam a se isolar antes, se isolam mais rápido, e se isolam com mais intensidade. E, depois, conseguem manter esse isolamento", afirma Rafael Pereira, um dos autores da pesquisa e especializado em estudos urbanos no Ipea. "Por isso, à medida em que terminarmos de vacinar o grupo de risco, seria importante o governo usar critérios socioeconômicos", diz.

O estudo é liderado também por Sabrina Li, da Universidade de Oxford, e Carlos Augusto Prete Junior, da Universidade de São Paulo. Além da equidade, há argumento epidemiológico, defendem os autores: o grupo mais vulnerável, ao seguir contraindo a covid-19 em maior proporção, torna mais difícil o combate à pandemia. "Não faz sentido vacinar primeiro uma pessoa que pode continuar em casa", diz Pereira.

Sobre a relação entre raça e covid, o pesquisador admite que é complexo o tema de priorizar grupos raciais ou mesmo classes de trabalhadores vistos como mais vulneráveis nos resultados do estudo -- como faxineiras ou entregadores. Por isso, argumenta que há opções como vacinar os cadastrados no CadÚnico, base que já é usada para delimitar uma série de políticas sociais, além da instalação de postos de vacinação prioritários em certas regiões. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Rafael H.M. Pereira, do Ipea: governo deveria usar critérios socioeconômicas na vacinação dos mais jovens

Rafael H.M. Pereira, do Ipea: governo deveria usar critérios socioeconômicas na vacinação dos mais jovens (Rafael Pereira/Arquivo Pessoal/Reprodução)

Uma frase bastante ouvida, especialmente no começo da pandemia, é de que "o vírus é democrático", pois mesmo pessoas ricas têm sido vítimas da covid-19. O vírus é menos democrático do que pensávamos?

Rafael Pereira - O primeiro ponto é que essa ideia de que o vírus é democrático é absolutamente falsa. Há um impacto muito maior em alguns grupos do que outros. Assim que o coronavírus entra no Brasil, havia um perfil de alta renda e de brancos entre os infectados. A partir de abril e maio, isso se inverte de forma muito clara. O vírus entrou pelas classes mais altas, vindo do exterior, mas muito rapidamente, quando passamos a ter contágio comunitário, os mais afetados se tornam a população negra e de baixa renda.

Nosso estudo junta dados de monitoramento epidemiológico, pesquisa domiciliar, deslocamento via telefone celular, uma grande quantidade de fontes para ajudar a montar esse quebra-cabeça. O que tentamos fazer é avaliar se há uma desigualdade na pandemia em dois estágios: primeiro, no risco de uma pessoa se contaminar; e uma vez que ela está contaminada, no risco de morrer. Em ambos, a população mais pobre está mais exposta. E há uma grande intersecção aqui entre essa população pobre e a população negra.

O que leva a essa desigualdade na contenção da pandemia?

Via de regra, pessoas negras e de baixa renda tendem a ter menor grau de escolaridade e são profissionais de caráter essencial, que não têm como trabalhar de casa: atendente de loja, limpeza, garçom. Muitas estão, inclusive, no mercado informal. Vimos que essas pessoas também moram, no geral, em bairros com maior densidade populacional. Tudo isso contribui para explicar por que não conseguem se isolar por tanto tempo.

O estudo também mostra que o coronavírus não só é mais transmitido, como é mais letal neste grupo. Por quê?

Aí entramos em um segundo estágio: uma vez que a pessoa está contaminada, qual é a chance de se recuperar. E, mais uma vez, a população de baixa renda e negra tem mais risco de óbito. São dois grandes fatores, o primeiro o acesso a serviços de saúde. Para duas pessoas internadas por covid, uma no público e outra no privado, a pessoa no público tem 40% de chance a mais de morrer. Não é um ponto para criticar o SUS. Se a gente não tivesse o SUS, estaríamos muito pior. Mas isso aponta para a necessidade de uma política emergencial para financiar o SUS e melhorar o atendimento.

De qualquer forma, isso também não explica tudo. Mesmo se comparadas pessoas brancas e negras dentro do público ou do privado, ainda há desigualdade. Então entramos no outro componente que é a maior incidência de comorbidades na população negra, como hipertensão ou diabetes.

Além disso, um outro estudo do qual participei olhou para os 20 maiores municípios do Brasil e para cada quarteirão, mostrando o acesso que as pessoas têm para chegar a um hospital com leito de UTI e ventilador mecânico. Via de regra, em todos esses municípios, pessoas de baixa renda e negras têm dificuldade muito maior de acessar o serviço. Tem casos de a pessoa até morar ao lado do hospital. Mas, se aquele é o único hospital da região inteira, rapidamente vai ter uma fila enorme.

Quais foram as diferenças no isolamento entre os grupos?

A capacidade das pessoas de se isolar é muito desigual. No começo da pandemia, pelos dados da Pnad [do IBGE], as pessoas de baixa escolaridade têm uma chance muito pequena de estar trabalhando em casa. E quando olhamos para a telefonia celular, isso é confirmado. Os quarteirões de bairros de mais alta renda e com maior proporção de pessoas brancas começam a se isolar antes, se isolam mais rápido, e se isolam com mais intensidade. E, depois, mantêm esse nível de isolamento por mais tempo. Em todo o Brasil, nas grandes cidades, o isolamento tem um pico no final de março e a partir de abril começa a cair. Mas para os bairros brancos e ricos, essa queda é mais lenta. Isso mostra a importância das políticas de renda neste momento para impulsionar o isolamento nas regiões mais pobres.

Com base nesses resultados, vocês defendem que deve haver uma priorização socioeconômica na vacinação. Quais seriam as vantagens?

Até hoje, o critério para alocação de vacinas tem sido priorizar profissionais de saúde e pessoas das faixas etárias de maior risco. À medida em que vamos terminando de vacinar esse grupo e a vacina começa a alcançar o resto da população, nosso estudo aponta que seria importante que o governo usasse critérios socioeconômicos e priorizasse populações mais vulneráveis.

Essas são as pessoas mais contaminadas e também que mais morrem mais de covid uma vez contaminadas. E, assim, são também os mais prováveis transmissores. Priorizar esses grupos vulneráveis seria salutar também por um ponto de vista epidemiológico, porque se está vacinando não só as pessoas que mais são contaminadas, mas também as que contaminam, atacando os focos de contágio. E, é claro, seria também uma importante estratégia de equidade. Não faz sentido vacinar uma pessoa que pode continuar em casa. Se os recursos são escassos, é preciso vacinar alguém que tem maior chance de precisar sair.

Um critério socioeconômico não pode reduzir a eficiência da vacinação? No Reino Unido, uma vez que a vacina chegou aos adultos mais jovens, e como havia menor escassez de doses, especialistas aconselharam o governo a não estabelecer critérios de profissão pois isso retardaria a vacinação, apesar de melhorar a equidade. 

Neste caso, há um aspecto de objetivo da política, e um aspecto operacional. Obviamente, não sou especialista em operacionalização de vacinação. Mas do ponto de vista logístico, nós sabemos muito bem quantas são e onde moram as pessoas mais vulneráveis do Brasil. Temos dados extremamente detalhados e atualizados do CadÚnico. E temos os dados do Censo: ainda que desatualizado, os bairros que eram pobres em 2010 continuam sendo pobres em 2020. Se juntarmos o Censo e o CadÚnico, do ponto de vista puramente logístico, conseguimos mapear quais são as regiões geográficas da cidade onde os governos poderiam colocar os pontos avançados da vacinação.

O estudo tem sido lido também como uma defesa de vacinar primeiro pessoas negras. Como fazer esse debate?

Não estou falando aqui em implementar um sistema racial, ter de passar por um sistema de cotas para receber a vacina. Há uma sobreposição desses grupos que o IBGE classifica como vulneráveis, entre pessoas de baixa renda e negras. Vacinar pessoas de baixa renda parece ser mais aceito na sociedade do que o critério racial. Então, se a política buscasse pessoas vulneráveis, e se o governo quisesse levar adiante uma proposta de priorizar pessoas do CadÚnico, seria politicamente muito mais viável e operacionalmente muito mais fácil. É menos controverso decidir se a pessoa é pobre ou não do que decidir se é negra ou não. Por isso, o estudo deixa muito claro que, no geral, é importante priorizar pessoas vulneráveis.

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