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Por Stevin Zung*

Muito além das doenças inflamatórias ou infecciosas, um dos desafios mundiais de saúde são as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), tão ignoradas e agravadas nestes últimos anos de pandemia global. 

As DCNT respondem hoje por quase 74% das mortes globais e atingem 41 milhões de pessoas anualmente. As populações de menor renda são as mais suscetíveis pela exposição frequente à fatores de risco comportamentais que favorecem o desenvolvimento destas doenças, ao lado da genética e do envelhecimento. As principais DCNT são as cardiovasculares, cânceres, doenças respiratórias crônicas e diabetes.

Estima-se que, ano após ano, as doenças cardiovasculares levem embora 17,9 milhões de pessoas no mundo, o câncer, 9,3 milhões de pessoas; as doenças respiratórias crônicas mais 4,1 milhões, e a diabetes, 2 milhões. Um estudo realizado em 204 países verificou que a carga das doenças crônicas sobre a saúde da população aumentou consideravelmente nos últimos 30 anos. Em 11 dos países avaliados, incluindo países desenvolvidos como Austrália, Irlanda, Islândia, Nova Zelândia e Qatar, mais da metade das situações de perda de saúde estão relacionadas à traumas e doenças crônicas não transmissíveis.

As doenças crônicas estão presentes até mesmo nas Blue Zones, lugares no mundo de mais longevidade e saúde. Estes locais, reconhecidos mundialmente por uma cultura de hábitos saudáveis, também registram a presença de diabetes, dislipidemia e hipertensão, porém em proporções menores. A explicação vem da contribuição da genética nestas doenças, da falta de prevenção e da baixa adesão ao tratamento.

O impacto das DCNTs

As doenças crônicas têm um desenvolvimento lento e silencioso, ampliando os riscos por falta de identificação e acompanhamento médico adequado. Com duração longa e incerta, apresentam múltiplas causas e seu tratamento exige cuidados constantes por toda a vida. Além de mortes precoces, diminuem a qualidade de vida das pessoas, trazem limitações e situações de invalidez, impactando também a saúde financeira dos pacientes, das famílias e da sociedade como um todo. 

Em 2019, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 1,8 milhões de internações em decorrência destas doenças, o que acarretou ao governo brasileiro despesas da ordem de R$ 8,8 bilhões. No mesmo ano, foram registradas mais de 738 mil mortes por DCNT no Brasil, o correspondente a 54,7% do total de mortes. Destas mortes, 41,8% ocorreram prematuramente, entre pessoas com 30 a 69 anos de idade, evidenciando que a incidência das DCNT é cada vez maior e mais precoce. De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde da Fiocruz (2020), 52% dos brasileiros com 18 anos ou mais receberam diagnóstico de pelo menos uma doença crônica em 2019, sendo as principais: hipertensão arterial (23,9%), problema crônico de coluna (21,6%), colesterol alto (14,6%), depressão (10,2%), diabetes (7,7%), artrite ou reumatismo (7,6%), doenças cardíacas (5,3%), asma (5,3%), câncer (2,6%) e Acidente Vascular Cerebral (AVC) (2,0%).  

Causas e fatores

Quando surgem as principais doenças crônicas? Essa questão é de difícil resposta, pois cada pessoa é única, cada organismo é único. No entanto, as patologias mais precocemente diagnosticadas são a depressão e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho, onde os primeiros sinais são identificados geralmente entre os 30 e 39 anos. Doenças como a hipertensão, diabetes mellitus, doenças cardíacas, artrite e insuficiência renal crônica aparecem com mais frequência entre 40 e 49 anos. Já o AVC e o câncer, mais comumente entre 52 e 53 anos. Vale destacar que as doenças do aparelho circulatório e as do coração são as que mais afetam os pacientes acima de 50 anos de idade, seguidas por câncer e doenças do aparelho respiratório. 

A maior parte das doenças crônicas decorre de quatro fatores de risco modificáveis: tabagismo, inatividade física, dieta pouco saudável e consumo nocivo do álcool. Esses hábitos não-saudáveis podem provocar mudanças metabólicas e fisiológicas relevantes no organismo, como aumento da pressão arterial, obesidade, aumento da glicose no sangue e aumento do colesterol. Como consequência, a maioria das mortes prematuras também estão ligadas a estes mesmos fatores de risco.

Para exemplificar, cerca de 1,8 milhão de mortes por ano são atribuídas ao excesso de ingestão de sal/sódio, grande fator de risco para a hipertensão arterial. Mais da metade das 3 milhões de mortes relacionadas ao uso de álcool anualmente são consequências de DCNTs. Além disso, 830 mil mortes por ano podem ter sido causadas por sedentarismo e atividade física insuficiente.  

A situação é ainda mais desafiadora, pois um a cada três adultos sofre de condições crônicas múltiplas, ou seja, tem de conviver com duas ou mais doenças crônicas simultaneamente, o que torna o tratamento mais complexo e oneroso. E isso certamente contribui para mais um agravante: a baixa adesão aos tratamentos propostos. Parte significativa dos pacientes de doenças crônicas têm ignorado as orientações médicas, independentemente do tipo ou gravidade da doença.

Perspectiva de tratamento

Nos países mais desenvolvidos, a adesão ao tratamento é em média de apenas 50%, e é ainda menor nos países em desenvolvimento. Na Gâmbia e China apenas 27% e 43% dos pacientes, respectivamente, aderem ao regime de medicação para hipertensão arterial. Os índices são similares em outras doenças como depressão (40%-70%), asma (43% para tratamentos agudos e 28% para manutenção) e HIV/AIDS (37%-83%). No Brasil, a não adesão aos tratamentos varia de 21% a 50% a depender da quantidade de comprimidos a serem ingeridos diariamente. A baixa adesão está associada ao aumento de visitas à emergência, hospitalizações, maior gravidade da doença, duração e custo de tratamento.

Com o envelhecimento populacional acelerado no Brasil, a pergunta não é SE teremos uma doença crônica e sim QUANDO teremos uma doença crônica. Mudar o cenário atual destas doenças exige uma mudança de perspectiva de todos os agentes: governo, indústria farmacêutica, classe médica e pacientes. É necessário desmistificar o olhar e entendimento da cura para uma abordagem de controle das doenças e busca pelo bem-estar e qualidade de vida.

É preciso implementar políticas públicas eficientes, desenvolver medicamentos que tragam maior adesão ao tratamento com comodidade e facilidade de uso (doses menos frequentes, formas farmacêuticas mais confortáveis para pacientes e cuidadores) e ampliar o acesso a informações científicas de qualidade.

É fundamental capacitar profissionais de saúde e famílias e, principalmente, ajudar os pacientes a aprender a conviver de forma mais serena e responsável com as doenças crônicas, sabendo que são os maiores interessados e responsáveis pelo ritmo e resultado dos seus processos de saúde.

*Stevin Zung é médico psiquiatra e diretor médico do Aché Laboratórios Farmacêuticos

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