Lula, Flávio e Tarcísio: cenário mostra (Ricardo Stuckert/PR /Edilson Rodrigues/Agência Senado/Paulo Guereta/Flickr)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 08h10.
A 10 meses das eleições presidenciais, as pesquisas eleitorais permitem poucas previsões sobre quem deve vencer, mas já ajudam a entender quais candidatos têm margem para crescer e quais enfrentam obstáculos mais difíceis de contornar.
Segundo analistas políticos ouvidos pela EXAME, a eleição começa a tomar forma em meio à estagnação da aprovação do governo Lula e à reorganização da direita em torno de nomes com maior visibilidade.
Nesta semana, as pesquisas Meio/Ideia e Genial/Quaest foram divulgadas. Ambos os estudos colocam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na dianteira em cenários de segundo turno, mas mostram que a avaliação do governo se mantém no mesmo patamar, em empate técnico entre aprovação e desaprovação.
Por sua vez, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à presidência, avança no campo da direita, beneficiado por recall e pelo peso simbólico do sobrenome Bolsonaro.
Para Fabio Zambeli, diretor da Athos, agência de public affairs do Grupo In Press, a rejeição e a avaliação de governo são os indicadores mais relevantes neste início do ano eleitoral.
“São esses dados que ajudam a compreender os limites e o potencial real de crescimento das candidaturas ao longo do processo”, afirma. “Em disputas presidenciais decididas em dois turnos, a rejeição costuma ser um dos melhores preditores de desempenho.”
O crescimento de Flávio Bolsonaro, de três pontos percentuais na Genial/Quaestf, segundo Zambeli, é resultado direto da “força do sobrenome”, mais do que de atributos técnicos da candidatura.
“O eleitorado de direita mais radical tende a se organizar rapidamente em torno do sobrenome”, afirma.
O fenômeno, para o analista, é típico de início de campanha, mas não garante sustentabilidade.
“A largada favorece quem tem lembrança; a chegada exige redução de rejeição, ampliação de diálogo com o centro e competitividade no segundo turno” , afirma Zambeli.
Nesse ponto, o diretor da Athos destaca que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparece como nome mais competitivo da direita no segundo turno, indicando menor rejeição relativa e maior capacidade de dialogar fora do núcleo ideológico mais duro.
Zambeli ainda observa que, diante da indefinição no campo da direita, nomes como o do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), voltam a ser mencionados.
“ Esse tipo de movimentação tende a ganhar força quanto mais o quadro permanecer indefinido ”, afirma.
Creomar de Souza, CEO da consultoria de análise de risco político Dharma, vê nas pesquisas uma reafirmação da estratégia de Lula de tentar ocupar o centro do campo progressista.
Segundo ele, isso garante ao presidente um “piso alto” de apoio, na casa dos 40%, e um teto ligeiramente acima dos 50%, mas sem folga.
“Dadas as condições atuais de temperatura e pressão, e se nada acontecer, o Lula está no segundo turno”, afirma.
E completa: “Pelo desenho que temos hoje, ele ainda é o favorito por todas as questões que envolvem capacidade de controle da máquina, carisma acumulado, recall eleitoral” .
Para o analista, o carisma do ex-presidente Jair Bolsonaro migra para Flávio, o que explica o desempenho do senador.
No entanto, Creomar chama atenção para a dinâmica do segundo turno: há uma clara divisão do eleitorado entre lulopetistas e anti-lulopetistas.
“Independentemente de qual nome esteja do lado contrário ao lulopetismo, esse nome sempre vai performar bem em um eventual segundo turno”, afirma.
Essa realidade, no entanto, não garante vitória à oposição. “Isso traz um desafio importante: saber que tipo de direita vai para as urnas”, diz Creomar.
Ele questiona se será uma direita conservadora, uma continuidade do bolsonarismo ou uma tentativa de ruptura.
“Me parece que, olhando os dados, não há alternativa competitiva ao Lula fora do guarda-sol do bolsonarismo”, afirma.
Assim, para o CEO da Dharma, a eleição pode caminhar para ser um “grande plebiscito sobre Bolsonaro, sua força e as interpretações da sociedade sobre ele”.