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Falta de renovação desafia esquerda nos estados, diz cientista político

Projeção de Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que esquerda deve perder espaço no Nordeste e ter dificuldade para eleger uma forte bancada no legislativo

Eleições 2026: análise com base em pesquisas aponta que esquerda deve perder governos estaduais em 2026 (Ricardo Stuckert / PR/Divulgação)

Eleições 2026: análise com base em pesquisas aponta que esquerda deve perder governos estaduais em 2026 (Ricardo Stuckert / PR/Divulgação)

Giovanna Bronze
Giovanna Bronze

Colaboradora

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 6 de fevereiro de 2026 às 14h55.

Pouca renovação, falta de atualização de lideranças e baixa conexão com temas do cotidiano, como segurança pública, podem afetar o desempenho da esquerda nas eleições de 2026.

A avaliação é do cientista político e analista de pesquisas eleitorais Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), com base em análises de desempenho eleitoral desde 2002.

Segundo ele, partidos como PT, PSB, PDT, PCdoB, PSOL e Rede devem perder espaço no pleito deste ano, com destaque para a redução no número de governadores eleitos no Nordeste.

“A ausência de novos quadros competitivos e com capacidade de mobilização simbólica faz com que a esquerda seja percebida como um campo de pouca renovação, presa às fórmulas do passado”, afirmou Medeiros em entrevista à EXAME.

“Principalmente na área de segurança pública, que é um calcanhar de Aquiles”, completou.

O levantamento aponta que os partidos de esquerda devem governar apenas 23% do eleitorado do Nordeste em 2026, o menor percentual desde a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência, em 2002.

Em 2022, o percentual era de 74%, o equivalente a 42,6 milhões de eleitores. A projeção atual indica queda para 9,7 milhões de eleitores sob governos de esquerda.

As vitórias esperadas são no Piauí, onde Rafael Fonteles (PT) tenta a reeleição, e em Pernambuco, onde João Campos (PSB) poderá enfrentar Raquel Lyra (PSD), atual governadora.

As estimativas se baseiam em dados das pesquisas Real Time Big Data e Paraná Pesquisas. Um dos fatores para a retração, segundo Medeiros, é a fadiga de poder.

Estados como Bahia e Ceará são governados por partidos de esquerda de forma ininterrupta desde 2007.

Nos dois estados os atuais governantes têm alta reprovação, mesmo com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As candidaturas à reeleição de Elmano de Freitas, no Ceará, e de Jerônimo Rodrigues, na Bahia, ainda não estão garantidas.

Nos bastidores, nomes como Rui Costa, ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia, e Camilo Santana, ministro da Educação e também ex-governador do Ceará, são cogitados como alternativas para tentar evitar derrotas eleitorais nos dois estados.

Outro ponto crítico é a segurança pública. Facções do Sudeste, como o Comando Vermelho (CV), avançaram na região, agravando os índices de criminalidade.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 destaca que as 10 cidades mais violentas do país estão no Nordeste, com destaque para Maranguape, no Ceará. As maiores taxas de homicídios intencionais se concentram nas regiões Norte e Nordeste.

Congresso mais ao centro

Além dos governos estaduais, Medeiros alerta para um possível enfraquecimento da esquerda no Congresso. Em 2026, estarão em disputa 513 cadeiras na Câmara, 1.035 nas assembleias estaduais e 54 no Senado.

“Há uma expectativa de crescimento da bancada conservadora no Senado”, afirmou. “O Senado virou uma peça-chave na governabilidade do presidente da República, inclusive por ter o poder de abertura de processos contra ministros do Supremo Tribunal Federal.”

Atualmente, o PT conta com 9 senadores, enquanto o PL, maior partido da oposição, possui 15. Medeiros observa que o Senado será o principal campo de batalha político em 2026.

A projeção é de que partidos de centro e centro-direita, como PSD, Republicanos, União Brasil, PP e MDB, dominem a próxima legislatura. Essas legendas controlam os maiores fundos eleitorais e o tempo de propaganda gratuita em rádio e TV.

Hoje, o PL lidera a Câmara dos Deputados com 87 cadeiras, seguido pelo PT com 67. Outros partidos relevantes são União (59), PP (49), PSD (47), Republicanos (44), MDB (42), Podemos (16) e PSDB (15). Entre os partidos de esquerda, PDT e PSB têm 16 cadeiras cada, o PSOL tem 11 e a Rede, 4.

“O centro deve manter o controle da Câmara”, diz Medeiros. “São partidos com forte presença local, que cresceram nas últimas eleições municipais e consolidaram uma base sólida.”

Processo para 2030

Com a possibilidade de reeleição de Lula, 2026 marca também o início de um ciclo de transição para a esquerda. Caso reeleito, Lula não poderá concorrer em 2030, pois completará o limite de dois mandatos consecutivos.

“Hoje não há um nome claro para sucedê-lo. Suceder Lula não será fácil porque ele transcende a esquerda e dialoga com o campo conservador”, afirma Medeiros.

“O lulismo está acima da esquerda”, disse. Segundo ele, o PT deve perder hegemonia dentro do campo progressista, abrindo espaço para partidos como o PSB e o PSOL, este último considerado uma “incubadora de lideranças” da esquerda.

O processo eleitoral de 2026, portanto, deve consolidar um Congresso mais ao centro e indicar uma nova correlação de forças para o ciclo político que levará ao pleito de 2030.

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