Eleições mostram que ‘outsiders’ perderam espaço para candidatos de centro

Resultado mostra que o eleitor deu preferência a candidatos moderados e com propostas concretas, em vez de apostar em nomes desconhecidos
 (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)
A
Alessandra Azevedo, de Brasília

Publicado em 30/11/2020 às 16:52.

Última atualização em 30/11/2020 às 17:15.

O resultado do segundo turno das eleições municipais, neste domingo, 29, evidencia a decadência de pautas extremistas e uma busca do eleitor por candidatos conhecidos e com propostas concretas, em vez dos “outsiders” que tiveram crédito em 2018. Não por acaso, os partidos que mais conseguiram prefeituras no pleito de 2020 foram os considerados mais moderados, de centro, principalmente centro-direita.

Um fator que fez o centro crescer em 2020 foi o fim do protagonismo da Lava Jato nos discursos políticos e eleitorais, acredita o cientista político Lucas de Aragão, da Arko Advice. “Em 2016 e em 2018, a Lava Jato foi um tema muito quente, principalmente em 2018. Nesta eleição, não. Isso acabou tirando um pouco da pressão que existia sobre o centro, que tem muitos partidos que estavam na mira da Lava Jato. Assim, eles conseguiram fluir melhor", explica.

Na visão de Marco Antonio Teixeira, professor de ciência política da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, o que pesou na votação deste ano não foi só o fato de serem partidos mais moderados, mas de terem experiência. “Foi uma eleição na qual se evitaram aventureiros e outsiders, muito diferente da anterior”, observa. As escolhas levaram em conta a pandemia do novo coronavírus. “O negacionismo em torno da covid-19 veio de eleitos pela ‘nova política’, e não foi bem visto. O eleitor agora buscou a política real”, acredita.

A maior dúvida resultante das eleições é para onde vai o centro, depois de toda essa expansão, afirma Aragão, da Arko Advice. Ganhar prefeituras em pleitos municipais é importante para angariar apoio, mas nem sempre reflete em resultados nas eleições presidenciais. “Se fosse só por número de prefeituras, o MDB já teria eleito presidente e o centro já teria candidatos fortes. São eleições muito diferentes”, observa.

Aragão lembra que, em 2016, o PSDB foi um dos grandes vencedores das eleições municipais, com 785 prefeituras. Mas, dois anos depois, não conseguiu garantir nem dois dígitos para o candidato à Presidência, Geraldo Alckmin, que ficou com 4,76% dos votos válidos no primeiro turno e, em quinta posição, sequer chegou ao segundo turno. “O centro tem votos, mas não tem liderança”, explica o especialista.

O fato de o discurso mais radical ter perdido força em 2020 não significa, na visão de Aragão, que a narrativa para 2022 será em torno dos partidos de centro. “É muito cedo para saber, sem definição ainda de quais serão as principais forças políticas em jogo", afirma. Para Teixeira, a tendência para 2022 é que o grupo de partidos situado no campo mais moderado consiga fazer um arco de alianças mais à direita. "Talvez a frente mais forte contra o bolsonarismo venha desse grupo, não da esquerda", acredita.

Os cinco partidos que mais conseguiram prefeituras neste ano foram de centro, centro-direita ou direita: MDB, PP, PSD, PSDB e DEM. O MDB conquistou o maior número: 784. Segue na liderança, mas perdeu espaço desde 2016, quando tinha 1.035. O mesmo movimento aconteceu com o PSDB, que passou de 785 para 520. O DEM, o PSD e o PP foram os que conseguiram se manter no topo e ampliar espaço nos municípios.

O PSDB foi o partido que conseguiu mais prefeituras nas grandes cidades, mas também o que mais perdeu entre 2016 e 2020 (Veja gráfico abaixo). Segundo Aragão, houve um inchaço do PSDB nas eleições anteriores, pelo sentimento de antipetismo, que estava concentrado nos tucanos. “Na época, não tinha Bolsonaro ainda. Toda a insatisfação desaguou na única alternativa que existia no país de maneira organizada, que era o PSDB”, explica.

Em 2020, esse quadro ficou mais equilibrado, por ter outros partidos que abraçaram o antipetismo. Muitos deles estão no chamado Centrão, o que também pode explicar o avanço dos partidos que integram o bloco. Veja o desempenho das legendas entre as grandes cidades, nas últimas eleições. Veja gráfico abaixo:

 

Para Aragão, a esquerda perdeu mais do que Jair Bolsonaro, apesar de o presidente ter emplacado poucos candidatos. Pela primeira vez desde a redemocratização, o PT saiu das eleições sem nenhuma capital. “Eu diria que o bolsonarismo não foi fracassado, mas perdeu a chance de sair vitorioso”, diz. Faltou ao presidente, na visão dele, uma organização partidária. “O que vai dizer se ele saiu perdedor ou não é para onde o centro vai”, considera Aragão.

 

"A esquerda não avançou, ela estacionou", observa Teixeira. O candidato de Ciro Gomes (PDT), Sarto, ganhou onde já ganhava: em Fortaleza. O PSB também venceu onde já vencia, no Recife, com João Campos. E o PSol quase teve êxito em São Paulo, com Guilherme Boulos, e venceu em Belém, com Edmilson Rodrigues, mas se enfraqueceu no Rio de Janeiro. "A esquerda continua dividida", concluiu.

Também por influência do contexto atual, com a pandemia ainda em alta, o foco deve continuar sendo em propostas. "A pandemia vai exigir mais vocabulário em termos de gestão, mais capacidade em termos de política e que entre menos político como atirador e mais como administrador", avalia Teixeira. O eleitor mostrou que não deu certo a política "violenta" do governo federal, com muitos desentendimentos entre os poderes. "Tudo isso cansou rapidamente e teve resultado nas urnas”, diz.