Desastres em Pernambuco são efeito extremo do La Niña

Fenômeno pode estar intensificando aumento do volume de chuvas e ventos na região, diz especialista
Chuva em Recife (JOãO CARLOS MAZELLA/FOTOARENA/FOTOARENA//Estadão Conteúdo)
Chuva em Recife (JOãO CARLOS MAZELLA/FOTOARENA/FOTOARENA//Estadão Conteúdo)
Por Estadão ConteúdoPublicado em 29/05/2022 08:25 | Última atualização em 29/05/2022 08:29Tempo de Leitura: 2 min de leitura

Os fortes temporais que vêm atingindo Pernambuco podem estar relacionadas ao La Niña, fenômeno climatológico que causa o aumento de precipitações nas regiões Norte e Nordeste. Segundo Pedro Côrtes, geólogo da USP, o grande volume de chuva está sendo provocado pelo aumento dos ventos que sopram na direção do continente, típicos nesta época do ano. O fenômeno, intensificado pelo La Niña, converge massas de ar úmidas para o Norte e Nordeste, gerando as chuvas.

Desde o ano passado, porém, com enchentes na Bahia, em Minas e na Região Serrana do Rio, o volume de precipitação tem sido anormal. Segundo Côrtes, o aumento da temperatura do Oceano Atlântico também é um fator que contribui para o aumento da umidade das massas de ar. O aquecimento, de acordo com ele, pode ter origem nas mudanças climáticas dos últimos anos.

"Durante o La Niña, é comum que haja aumento dos ventos na região equatorial e, com isso, que mais massas de ar úmido sejam carregados para o interior do continente. O aquecimento do Atlântico não está ligado a esse fenômeno, mas foi uma coincidência que potencializou as chuvas."

Em média, foi possível registrar nesta madrugada um volume de chuva de 236,01 milímetros, valor que corresponde a mais da metade do verificado em todo o mês de maio de 2021, segundo o Inmet. Para este ano, o volume já representa 70% do previsto para o mês.

Outro fator determinante para os alagamentos é a própria estrutura litorânea da região. Por estar perto do mar, os rios que cortam a Grande Recife recebem mais água do que podem comportar.

"Os fenômenos climáticos continuam estáveis há um tempo, tanto o El Niño quanto o La Niña. Mas há uma tendência grande no aumento da intensidade de como as consequências desses eventos atingem o continente", explica Côrtes.

Para José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ainda é cedo para falar se a anormalidade das chuvas é resultado do aquecimento global. "Mas o cenário futuro de clima mostra que esses extremos de chuva podem ser mais frequentes em uma área vulnerável, essas chuvas alcançam as consequências que podemos observar", alerta.