(Josh Edelson/AFP)
Agência de notícias
Publicado em 11 de junho de 2025 às 06h25.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o regulador da concorrência no país, vai avaliar hoje se vai prosseguir com um inquérito administrativo que investiga o Google por práticas economicamente abusivas no mercado digital. O caso trata da exibição de conteúdo jornalístico nas plataformas da empresa sem a remuneração dos veículos que o produziu, além do desvio de tráfego direto para esses veículos, limitando ainda a distribuição de receitas com publicidade digital.
A apuração teve início em 2018, por iniciativa do próprio Cade. No fim do ano passado, o inquérito acabou arquivado pela superintendência-geral do órgão. Em março último, contudo, a conselheira Camila Cabral Pires Alves recomendou que o processo fosse retomado.
Ela sustentou tratar-se de um caso complexo, incluindo três teses de dano em análise.
Uma delas é de tratar-se de uma inovação predatória à concorrência, a segunda é que o Google atuaria dando prioridade a seus próprios serviços nos resultados de busca (o que é conhecido como self-preferencing) e, por fim, a retenção de tráfego para aferir ganhos com publicidade.
Entidades como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF), entre outras, defendem que o inquérito seja convertido em processo administrativo, o que permitiria não apenas apurar efeitos das práticas do Google, mas também aplicar eventuais remédios desenhados de forma a garantir condições justas de concorrência no mercado digital.
As entidades sustentam que o Google prejudica os veículos jornalísticos ao adotar a prática de scraping, ou raspagem. Trata-se de exibir trechos de notícias produzidas por essas empresas no Google Search e no Google News, sem remunerá-las por isso.
A ANJ, que reúne uma centena de representantes do setor jornalístico nacional, e a Fenaj, em conjunto com RSF, enviaram manifestações ao Cade requerendo o aprofundamento das investigações e a abertura de um processo administrativo.
"O Cade sempre esteve na vanguarda das discussões antitruste no mundo. Não faria sentido o Cade, quando muitos países avançam nesta discussão de abuso de poder econômico das plataformas (digitais), ignorar o tema neste momento", diz Marcelo Rech, presidente executivo da ANJ.
O entendimento é que as profundas transformações pelas quais passou o setor de jornalismo nos últimos anos, a reboque da digitalização, evidenciam o efeito negativo das práticas adotadas pelo Google para os veículos de comunicação. E que o advento das ferramentas de inteligência artificial generativa desenvolvidas por big techs exigirá ainda mais monitoramento da concorrência no mercado digital.
No documento enviado ao Cade, a ANJ afirma que, no cenário atual, “os veículos de mídia não possuem qualquer poder de escolha — ou estão no Google, ou simbolicamente encontram-se alienados do ambiente de acesso ao seu conteúdo, já que estar fora do ambiente do Google é limitar drasticamente as interações com os consumidores” finais do mercado jornalístico.
“É preciso produzir mais informações sobre os impactos das ferramentas de busca e, principalmente, de um mecanismo que tem o monopólio global desse serviço, como é o caso do Google, na imprensa brasileira”, pontua a jornalista Bia Barbosa, coordenadora de Incidência da RSF para a América Latina.
A presidente da Fenaj, Samira de Castro, avalia que o encerramento prematuro dessa investigação pelo Cade equivaleria a “renunciar à chance de corrigir desequilíbrios que afetam não só os concorrentes mas a própria sociedade.”
"A gente acredita que há um prejuízo à sustentabilidade do jornalismo e da produção de conteúdo, porque a extração massiva de conteúdo por meio de scraping, sem autorização e sem remuneração (dos produtores), prejudica os modelos de negócios baseados na geração de conteúdo original, especialmente no jornalismo digital, que depende de tráfego direto e monetização própria", afirma. "Isso impacta a pluralidade de vozes e fontes na internet e o próprio acesso público a informação de qualidade."
Documento enviado por Fenaj e RSF ao Cade sublinha que “a posição dominante de algumas das principais plataformas de tecnologia alterou fundamentalmente a forma como as informações são distribuídas, consumidas e monetizadas”.
E que essas big techs se tornaram gatekeepers (portas de controle de acesso a serviços e informações essenciais para milhões de usuários), “determinando quais fontes de notícias prosperam e quais lutam com o alcance do público”.
As entidades ressaltam ainda que o Google domina cerca de 95% das buscas no Brasil.
Esse debate se estende globalmente, tendo o Google como alvo de investigações antitruste ao redor do mundo. Regras específicas para regular o mercado digital foram adotadas em países como Canadá, Reino Unido e Austrália. E há propostas na mesma direção sendo discutidas nos Estados Unidos e na Nova Zelândia.
Na Alemanha, após processo sobre possíveis práticas anticompetitivas no Google News Showcase, no fim de 2023, a empresa fechou acordo para pagar anualmente mais de € 3 milhões a editores de notícias.
Antes disso, na França, em 2020, a big tech teve de negociar condições para remunerar de forma mais justa a utilização de conteúdos de terceiros e o prejuízo causado a eles. A medida foi implementada apenas em 2022, após imposição de multa de € 500 milhões ao Google.
Nos EUA, o Departamento de Justiça venceu, em abril, ação movida contra o Google por práticas anticompetitivas configurando monopólio e abuso de poder dominante no mercado de anúncios on-line.