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Economistas relacionam exclusão social a menor eficiência operacional, perda de capital humano e aumento das despesas com supervisão e proteção nos negócios (Natalya Kosarevich/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 08h02.
A discriminação e a desigualdade podem custar ao Brasil até 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB), ao reduzir a produtividade, excluir trabalhadores do mercado e limitar a formação de capital humano. A estimativa faz parte de um estudo dos economistas Michael França e Daniel Duque, realizado em parceria com o Instituto Ethos e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (NERI).
O levantamento tenta traduzir em números um efeito que costuma aparecer de maneira menos direta nos balanços das empresas: quanto ambientes marcados por discriminação, violência e baixa mobilidade social podem comprometer a capacidade produtiva do país e, por consequência, a competitividade do setor privado.
Além do impacto sobre o PIB, o estudo calcula em R$ 14,6 bilhões por ano a perda de arrecadação fiscal associada à discriminação corporativa. Também identifica efeitos sobre a entrada e permanência de profissionais no mercado de trabalho e sobre a produtividade futura de grupos mais expostos à violência.
Entre os exemplos está a mortalidade de jovens, que atinge de forma desproporcional homens negros de baixa escolaridade. Segundo o estudo, a morte de um jovem nesse perfil representa uma perda individual estimada em R$ 550 mil de produtividade futura que deixa de ser incorporada à economia.
As desigualdades também afetam a participação das mulheres no mercado de trabalho. A criminalidade e a falta de infraestrutura social podem afastar até 7 pontos percentuais das mulheres da força de trabalho, de acordo com os dados reunidos pelos pesquisadores. O efeito alcança tanto a oferta de mão de obra para as empresas quanto a renda disponível das famílias.
Parte da análise se concentra no que o estudo chama de “custo invisível da desconfiança”, expressão usada para descrever as despesas adicionais que surgem quando relações econômicas e trabalhistas operam em ambientes de baixa coesão social.
Na prática, a ideia é que empresas inseridas em sociedades com menor nível de confiança precisam gastar mais com supervisão, contratos, mecanismos de controle e proteção.
“A confiança é uma infraestrutura invisível da economia. Quando existe, permite a cooperação, reduz a necessidade de supervisão, acelera decisões e favorece investimentos de longo prazo. Quando falta, cada transação comercial e relação trabalhista precisa carregar uma margem adicional de proteção”, afirma Ricardo Young, empresário e cofundador do Instituto Ethos.
Segundo Young, esse custo adicional acaba pressionando as margens das companhias.
A análise amplia uma discussão que, no ambiente corporativo, costuma ficar concentrada em indicadores de representatividade. Para os pesquisadores, a desigualdade também interfere em fatores diretamente relacionados à operação das empresas, como disponibilidade de mão de obra, produtividade e tamanho do mercado consumidor.
“Durante muito tempo, a desigualdade foi encarada pelo mercado apenas sob o prisma ético. As evidências reunidas no estudo provam que ela compromete diretamente a competitividade das organizações, reduz a eficiência operacional e restringe o crescimento das próprias empresas”, afirma Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos.
O impacto sobre capital humano é uma das principais frentes levantadas pela pesquisa. Quando determinados grupos enfrentam maior exposição à violência, dificuldades de acesso ao mercado ou discriminação dentro das empresas, parte da força de trabalho disponível deixa de alcançar seu potencial produtivo.
Para Michael França, economista e coautor do estudo, esse efeito deveria aproximar o debate sobre diversidade das decisões econômicas tomadas pelas companhias. “A violência e a exclusão corroem o capital humano do país. O setor privado precisa entender que promover ambientes inclusivos e combater a desigualdade não é concessão, mas sim construção de capacidade competitiva e de mercado”, afirma.
O argumento também desloca a discussão de DEI, sigla para diversidade, equidade e inclusão, de uma agenda concentrada em reputação para uma questão relacionada à eficiência.
A lógica apresentada pelo estudo é que uma empresa não é afetada apenas pela discriminação que eventualmente acontece dentro de sua própria estrutura. Desigualdades mais amplas também podem diminuir a quantidade de profissionais disponíveis, limitar a renda de potenciais consumidores e elevar custos associados à violência e à falta de confiança.
Os dados integram o projeto que deu origem ao livro "Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas", de Michael França e Daniel Duque, desenvolvido com o Instituto Ethos e o NERI e publicado pela editora Jandaíra.
A obra reúne análises sobre discriminação, violência e baixa mobilidade social, mas os números apresentados colocam uma questão mais imediata para as empresas: parte do custo da desigualdade não aparece necessariamente como uma linha específica nas demonstrações financeiras.
Ele pode surgir na dificuldade de encontrar e reter profissionais, na redução do potencial de consumo das famílias, em gastos adicionais com segurança e supervisão ou simplesmente em produtividade que nunca chega a ser gerada.
Ao estimar esse efeito em até 0,8% do PIB, o estudo tenta dar dimensão econômica a perdas que, quando analisadas isoladamente, tendem a permanecer dispersas entre empresas, trabalhadores e contas públicas.