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Cabral depõe sobre propina para Rio 2016, um evento de R$ 40 bi

Ainda esta semana, o ex-governador do estado atribuiu seis milhões de reais em caixa dois à campanha do ex-prefeito Eduardo Paes

Jogos Olímpicos: Cabral pagou propina a comitês olímpicos para que votassem no Rio como cidade sede (Paul Gilham/Getty Images)

Jogos Olímpicos: Cabral pagou propina a comitês olímpicos para que votassem no Rio como cidade sede (Paul Gilham/Getty Images)

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Redação EXAME

4 de julho de 2019, 07h06

Segundo uma estimativa do Ibope, em 2016, cerca de 63 milhões de brasileiros acompanharam pela televisão ao menos um minuto das Olimpíadas sediadas no Rio de Janeiro. Na cerimônia de abertura, assistida ao vivo por 28 milhões de pessoas, o Rio fez a promessa de plantar a Floresta dos Atletas, com 13.250 mudas de 207 plantas nativas da Mata Atlântica ― 40 delas espécies ameaçadas de extinção. Três anos depois, floresta nenhuma foi plantada, e nesta quinta-feira, 4, o ex-governador do estado, Sérgio Cabral, irá prestar o primeiro depoimento sobre o pagamento de propina para a escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016.

Emedebista eleito governador do Rio por dois mandatos seguidos, Cabral irá prestar depoimento ao juiz da 7.ª Vara Criminal do estado, Marcelo Bretas, pela segunda vez só nesta semana. Como já adiantou, nesta quinta-feira, ele falará especificamente sobre as supostas propinas pagas a comitês olímpicos para que votassem no Rio como cidade sede dos jogos Olímpicos de 2016. Na última segunda-feira, 1, em um outro interrogatório da Justiça Federal carioca, Cabral atribuiu seis milhões de reais em caixa dois à campanha que elegeu o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM). Segundo Cabral, o então empresário Arthur Soares, conhecido como Rei Arthur, teria doado a quantia a Paes em troca de uma licitação para oferecer serviços no Centro de Operações Rio. O ex-prefeito nega ter recebido qualquer doação irregular. 

O testemunho inédito de Cabral sobre as Olimpíadas é só mais uma das investidas do político para tentar aliviar os 198 anos de prisão aos quais já foi condenado em nove processos diferentes. Réu em outras 20 ações penais na justiça Federal e em três na estadual, Cabral vem confessando alguns dos crimes que lhe são atribuídos desde o início do ano.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), a mando de Cabral, o próprio Arthur Soares é quem teria pago 2 milhões de dólares ao executivo senegalês Lamine Diack, membro do Comitê Olímpico Internacional que escolheu o Rio como sede do evento. Além de Diack, o  ex-presidente do Comitê Olímpico do Brasil, Carlos Arthur Nuzman, e o ex-diretor da Rio-16, Leonardo Gryner, também são réus no inquérito. O MPF embasa as acusações com e-mails trocados entre as partes que falam explicitamente sobre a suposta propina.  

Embora até hoje não se tenha feito nenhum balanço fiscal oficial do evento, estima-se que as Olimpíadas sediadas no Rio tenham consumido cerca de 40 bilhões de reais. Existem desde obras faraônicas que viraram elefantes brancos, como a vila dos atletas, até empreendimentos que, à sua maneira, modificaram a cara da cidade, como uma nova linha de metrô e a inauguração do VLT. Já projetos nutridos de maior responsabilidade social e ambiental, como a despoluição da Baía de Guanabara e a Floresta dos Atletas, nunca saíram do papel. As mais de 13 mil mudas que formariam a mata continuam mantidas em uma empresa no município de Silva Jardim, a 100 quilômetros da cidade, numa mostra simbólica de que a semente das Olimpíadas do Rio nunca germinaram como o prometido.