Brasileiro tinha mais medo da covid-19 há um ano do que agora

Análise exclusiva feita pela startup Behup aponta que, ao longo de um ano, o medo do coronavírus deu lugar à preocupação e tristeza

Centro de São Paulo: com a reabertura do comércio depois do primeiro pico de contaminação, aglomerações foram registradas

Centro de São Paulo: com a reabertura do comércio depois do primeiro pico de contaminação, aglomerações foram registradas (Amanda Perobelli/Reuters)

No início da pandemia de covid-19, os baixos registros de casos, mortes e de internações pela doença contrastavam com um grande medo da população brasileira em relação ao coronavírus. Um ano depois, com quase 290 mil mortes causadas pela doença e notícias que mostram o agravamento da pandemia no país, caiu a disposição das pessoas em se proteger e se isolar na tentativa de conter a disseminação do vírus. Mas o que explica essa mudança de sentimento? Por que, mesmo em um cenário tão trágico, o brasileiro parece assistir tudo anestesiado?

A psicanálise nos ajuda a entender essa razão. Para o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Christian Dunker, o medo faz com que as pessoas queiram agir e atacar o elemento que está causando esta emoção.

Com o passar do tempo, ele dá lugar a uma angústia, tristeza e conformismo, caso não se possa ultrapassar o obstáculo. Surge também um sentimento de estar anestesiado, que pode se dividir em dois lados: impotência perante o motivo do medo, ou indiferença com a situação.

“A emoção neste momento com a pandemia de covid-19 é similar quando se analisa a curva de desemprego. Quando a pessoa fica muito tempo sem conseguir trabalho, ela simplesmente desiste. Como resposta, um grupo se sente sem forças para continuar, sem alento. Outro grupo vai no sentido de tentar curar a tristeza, e faz isso em festas”, explica o psicanalista.

Todo este universo de emoções que os brasileiros sentiram durante um ano de pandemia de covid-19 também são o foco de uma pesquisa da Behup, startup que cria tecnologias para analisar e entender o comportamento humano, a qual EXAME teve acesso com exclusividade. Os números traduzem o que vemos nas ruas e na teoria psicanalítica.

De março de 2020 a março de 2021, foi analisado semanalmente qual o sentimento dos brasileiros. A pesquisa foi feita de forma qualitativa, captando as palavras que expressavam os sentimentos dos entrevistados ao responder a pergunta: “Pensando na última semana e em todos os acontecimentos, quais emoções e sentimentos você vivenciou? O que você sentiu?”.

Ao final de um ano, mais de 200 mil respostas foram coletadas e computadas pela Behup. Os resultados mostram que em março de 2020, quando a pandemia ainda registrava menos de 100 casos diários e uma dezena de mortes, o medo da doença e das consequências que a pandemia impôs aos brasileiros era muito maior do que agora.

Só que no atual momento estamos no pior cenário da infecção do coronavírus, diante do maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil, segundo boletim da Fundação Oswaldo Cruz. Na última terça-feira, 16, o país atingiu o maior número de mortes registradas em 24 horas desde o início da pandemia, quase 3.000.

 (Arte/Exame)

“A presença da emoção medo é duas vezes maior no início da pandemia do que agora. As entrevistas foram feitas por áudio, porque ele consegue exprimir melhor tudo o que as pessoas estão sentindo. Um dado interessante que percebemos é que quando estávamos em datas especiais, como Dia dos Namorados ou Dia das Mães, o otimismo e felicidade subiam, mas logo o medo voltava, muito provavelmente refletindo o sentimento pós-aglomeração”, explica Matheus Caldas Vieira, head de parcerias e projetos da Behup.

A startup também cruzou informações referentes às emoções de medo, preocupação, felicidade e tristeza, com o Índice de Confiança do Consumidor (ICC). Os números apontam que, quando o medo e a preocupação eram maiores, a confiança em comprar era menor. Com o passar do tempo, a situação se inverteu.

 (Arte/Exame)

Foi quando o medo e a preocupação caíram que as aglomerações e as festas clandestinas começam a se tornar cada vez mais frequentes, sobretudo, entre a população mais jovem, de 18 a 30 anos. Também passou a ser comum ver em ruas pelo Brasil muitas pessoas não usando máscaras. O professor de psicanálise da USP diz que nesta faixa etária há muitos comportamentos de autoafirmação, de autonomia e de independência.

"O jovem está dando passos para a vida adulta, então vem uma ordem que diz que tem de ficar em casa. Vem também a informação de que letalidade em jovens é menor. Há o sentimento de que ir a uma festa não tem tanto risco, porque por 'mais que eu viva com meus pais, eu só fico no meu quarto'. O jovem só percebe que estava em uma ilusão quando transmite o coronavírus para a mãe e para o pai", afirma.

O impacto da concessão auxílio emergencial em 2020 também é capturado pela pesquisa da Behup. Em meados de maio, o índice que me mede a preocupação com o emprego e com a renda  atingiu o ápice, mas passou a cair rapidamente a partir do início dos pagamentos das parcelas do auxílio emergencial, no final de maio.

Apesar do alto desemprego no país, o alcance do programa - cerca de 66 milhões de pessoas receberam diretamente o benefício - conseguiu reduzir a ansiedade de boa parte da população naquele momento.

Interrompido no final de 2020, o presidente Jair Bolsonaro assinou na quinta-feira, 18, a medida provisória com as regras para a nova rodada do auxílio emergencial, detalhando valores e grupos que serão beneficiados. As parcelas devem começar a ser pagas em abril.

População anestesiada

O psicanalista Christian Dunker explica que para as pessoas que estão em teletrabalho, a tristeza leva a um momento de exaustão. “Essa pessoa precisa elaborar a angústia, o luto e o medo. Esse sujeito exausto pode ter comportamentos de desistência, entra em uma espécie de inércia”, diz.

Mariana Medeiros, Juan Florian, e Raquelly Lopes: sentimentos mudaram ao longo da pandemia

Mariana Medeiros, Juan Florian, e Raquelly Lopes: sentimentos mudaram ao longo da pandemia (Montagem EXAME/ FOTO/Acervo pessoal)

A enfermeira Raquelly Lopes, de 27 anos, não está na linha de frente no atendimento da covid-19, e mesmo assim teve a doença no ano passado. “Medo é a palavra que resume mais o momento em que eu estava em março de 2020. Eu tive a covid-19 e infelizmente meu tio faleceu devido às complicações da doença. Naquele momento, eu e minha família ficamos apavorados. O sentimento de que posso ser contaminada voltou novamente”, desabafa.

A volta da preocupação de se infectar também é sentida pela administradora Mariana Medeiros, de 36 anos, moradora da cidade de São Paulo. Para ela, o principal ponto é o ritmo da vacinação, que ainda está muito lento. O país aplicou pelo menos a primeira dose em mais de 9,6 milhões de pessoas, o equivalente a 4,5% da população. Apesar de ter tradição em grandes campanhas de imunização, o Brasil está atrás de países como Estados Unidos, Israel, Chile e Reino Unido.

“Desde o início eu sempre tive muito medo. Não era uma doença simples, e de fácil resolução. A gente fica perdido, não sabe para onde ir. Cada vez mais é o desespero batendo, o receio, a preocupação é ainda maior que no começo. Também tem a indecisão. Não vejo uma melhora a curto prazo”, diz.

Juan Florian, de 31 anos, é colombiano, mas mora no Brasil desde 2014. No começo da pandemia estava em Santa Catarina, e fez duas mudanças neste período, uma para o Paraná e outra para Guarulhos, na Grande São Paulo, onde vive.

“O início foi um momento bem difícil, mas não achei que não seria tão grande. Não via como uma gripezinha, mas sempre respeitei as medidas de segurança, como usar máscara. Depois eu percebi a gravidade da situação. Eu tinha parado de fumar, depois voltei, comecei a beber mais em casa. Agora meu sentimento é de aceitação, passado o luto e a raiva”, diz.

 

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