O ex-governador do Pará, Helder Barbalho, durante comício de Lula em Belém (Ricardo Stuckert/Flickr)
Colaboradora
Publicado em 3 de outubro de 2026 às 06h01.
A saída de Helder Barbalho do governo do Pará para disputar o Senado em 2026 abre uma nova etapa para o grupo político construído pela família Barbalho ao longo de gerações. Com Hana Ghassan no governo e candidata à reeleição pelo MDB, a eleição testa a capacidade do grupo de preservar alianças, redes políticas e influência sem Helder no comando direto do Executivo estadual. Especialistas ouvidos pela EXAME apontam que a continuidade de grupos familiares depende não apenas da transferência de votos, mas também da reorganização de relações, compromissos e espaços políticos.
Há décadas, o sobrenome Barbalho ocupa diferentes espaços da política paraense. De Laércio Barbalho, que deu início à trajetória política da família, a Jader Barbalho e, depois, Helder Barbalho, o grupo atravessou diferentes governos, partidos e disputas eleitorais, mantendo integrantes da família em posições de destaque no Executivo e no Legislativo.
Ao longo desse percurso, o capital político construído por uma geração passou a ser compartilhado e reorganizado entre filhos, irmãos, primos e aliados.
Agora, a saída de Helder do governo do Pará para disputar uma vaga no Senado abre um novo capítulo nessa trajetória.
Com ele fora da disputa pelo Executivo estadual, a família precisa reorganizar posições, alianças e espaços de influência enquanto tenta manter o peso político construído ao longo de décadas. Mas como esse tipo de estrutura se forma, se reproduz e passa de uma geração para outra?
É nesse ponto que aparece o chamado “barbalhismo”. E para entender o grupo político e o processo de sucessão dentro da família, a EXAME ouviu especialistas que acompanham de perto a política paraense.
Para Yago Rodrigues, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará e especializado em Política & Sociedade pelo IESP/UERJ, o fenômeno pode ser compreendido como um grupo político de base familiar.
Nesse modelo, a família deixa de ser apenas uma relação de parentesco e passa a funcionar como um núcleo de recrutamento, distribuição de recursos e continuidade política.
“Esses grupos vão combinar herança familiar, investimento próprio, prestígio escolar, prestígio profissional e, consequentemente, capilaridade eleitoral”, diz Rodrigues.
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Na prática, o conceito ajuda a explicar por que a política de uma família pode sobreviver à troca de partidos, governos e gerações.
Rodrigues recorre ao conceito de “espólio” para explicar o que é transmitido entre os integrantes de uma família política. Não se trata apenas de votos. Entram nessa conta cargos, prestígio, redes de relacionamento, reconhecimento público, alianças e até posições conquistadas dentro das instituições.
O sobrenome também pode funcionar como um ativo político.
Segundo o pesquisador, o parentesco pode reduzir parte da incerteza própria de uma disputa eleitoral porque o eleitor já reconhece aquele nome e associa o novo candidato a uma trajetória política anterior.
“Esses vínculos de parentesco vão contrabalançar os fatores de incerteza e insegurança que geralmente definem a concorrência num jogo eleitoral”, afirma.
É uma lógica que ajuda a entender a trajetória dos Barbalho.
A história política da família não começa com Helder — nem mesmo com Jader. O próprio Jader já relatou ao Senado que seu pai, Laércio Wilson Barbalho, teve atuação política e chegou a ter o mandato cassado durante o regime militar.
Jader começou a carreira como vereador de Belém em 1967. Depois, foi deputado estadual, deputado federal, governador do Pará por dois mandatos, ministro e senador. Também presidiu o Senado.
Ao longo de quase seis décadas, portanto, acumulou experiências e relações em diferentes níveis do poder público.
Esse percurso criou o que a ciência política chama de capital político: um conjunto de recursos que pode ser convertido em influência, alianças e capacidade eleitoral.
A sucessão entre gerações é um dos elementos centrais para entender a trajetória dos Barbalho.
Jader construiu sua carreira em um período em que a política era feita sem redes sociais, sem comunicação digital e com outras formas de organização partidária e eleitoral. Décadas depois, Helder chegou ao governo com uma estratégia própria, uma presença pública diferente e uma inserção que extrapolou o Pará.
Helder foi prefeito de Ananindeua, deputado estadual, ministro e governador. Em 2022, foi reeleito no primeiro turno com mais de 70% dos votos válidos.
Para Rodrigues, esse percurso fez com que Helder deixasse de ser apenas o sucessor de Jader e construísse um capital político próprio.
“O Helder é mais articulado, ele tem um maior nível de inserção, até mesmo a nível internacional”, afirma.
O pesquisador cita como exemplo a articulação política em torno da realização da COP 30 em Belém, em 2025, como um episódio que ampliou a projeção nacional e internacional do então governador.
A mudança de protagonismo dentro da própria família é importante para compreender o momento atual. Na avaliação de Rodrigues, Helder já havia “eclipsado” politicamente a figura do pai antes mesmo de deixar o governo.
Agora, porém, o movimento é diferente: o próprio Helder deixa o Executivo estadual e precisa transferir parte desse capital para outro nome.
É justamente aqui que a sucessão de 2026 ganha importância.
Hana Ghassan assumiu o governo em abril, depois da renúncia de Helder, e foi oficializada pelo MDB como candidata à reeleição. Helder, por sua vez, foi lançado pelo partido para disputar o Senado.
A questão, para Rodrigues, não é simplesmente saber se os votos de Helder serão transferidos para Hana.
“O que se transmite mesmo no processo de sucessão política é um conjunto de compromissos, um conjunto de lealdades, inclusive de intermediários e cabos eleitorais”, afirma.
Ou seja: a estrutura que sustenta um grupo político é maior do que o candidato que aparece na urna.
Há partidos, prefeitos, vereadores, deputados, lideranças locais, empresários, cabos eleitorais e redes de relacionamento. A capacidade de reorganizar esses vínculos pode ser tão importante quanto a popularidade individual de quem deixa o cargo.
É por isso que Rodrigues chama atenção para outro mecanismo: a rotação de cargos entre integrantes do grupo.
Ao longo da trajetória dos Barbalho, diferentes integrantes ocuparam posições distintas. Jader foi governador, deputado, ministro e senador.
Helder foi vereador, prefeito, deputado, ministro e governador. Jader Filho ocupou o Ministério das Cidades e disputa uma vaga na Câmara dos Deputados. Elcione Barbalho possui longa trajetória como deputada federal.
O grupo, portanto, não depende de uma única pessoa ocupar sempre o mesmo cargo. A lógica é de reorganização.
Entrada da COP30, em Belém: evento foi vitrine internacional para Helder Barbalho e para o Pará (Leandro Fonseca /Exame)
A presença de diferentes parentes em cargos distintos também aparece na política municipal.
Igor Normando, prefeito de Belém, é sobrinho de Elcione Barbalho e primo de Helder e Jader Filho. Ele chegou à Prefeitura de Belém em 2024, depois de uma trajetória como vereador e deputado estadual.
O movimento amplia a presença de integrantes e parentes do grupo em diferentes esferas da política paraense.
Para Rodrigues, essa distribuição é parte de um mecanismo observado em outras famílias políticas brasileiras: quando um integrante deixa determinado espaço, outro pode ocupar a posição e preservar parte da estrutura construída anteriormente.
O pesquisador ressalta, porém, que a sucessão não funciona como uma “receita de bolo”. A existência de um sobrenome conhecido não garante automaticamente a transferência do capital eleitoral.
É justamente essa ressalva que torna 2026 um momento particularmente relevante.
Na avaliação de Rodrigues, a saída de Helder do governo representa um ponto de inflexão para o grupo.
O motivo, para ele, é a concentração de poder que existe no cargo de governador. Além da visibilidade política, o Executivo estadual reúne capacidade de nomeação, articulação institucional e influência sobre alianças que alcançam outras disputas eleitorais.
Sem Helder sentado na cadeira de governador, o cientista político explica que o grupo precisa demonstrar que consegue preservar essas redes mesmo sem controlar diretamente o Executivo.
“Essa saída do Helder do governo representa sobretudo uma mudança de posição de um grupo que vai precisar provar sua própria capacidade de viver fora do comando direto do Executivo”, afirma.
Ao mesmo tempo, Rodrigues evita tratar o cenário como um possível desaparecimento da influência dos Barbalho.
Na leitura dele, famílias políticas com longa trajetória raramente desaparecem de forma imediata quando uma liderança perde espaço. O mais comum é a reorganização em torno de outros integrantes e aliados.
“O fim da autoridade patriarcal não necessariamente produz um declínio linear daquela família. Ela se reorganiza”, diz.
É essa reorganização que a eleição de 2026 coloca em evidência.
O grupo Barbalho chega ao pleito com uma estrutura construída por diferentes gerações. Jader acumulou cargos e relações ao longo de décadas. Helder construiu uma trajetória própria e comandou o Estado por oito anos. Outros familiares ocuparam e ainda disputam diferentes espaços políticos.
Agora, pela primeira vez em um novo ciclo, o principal nome da geração atual precisa exercer influência sem ocupar diretamente o Palácio dos Despachos.
Para Yago Rodrigues, isso não significa necessariamente o fim do ciclo político dos Barbalho. “A família consegue sobreviver ao declínio do patriarca, mas isso acontece, em regra, se ela conseguir reorganizar as suas alianças”, afirma.
O pesquisador considera que a sucessão de Jader por Helder é um exemplo desse processo e que a eleição atual representa uma nova etapa.
“A saída do Helder do governo representa sobretudo uma mudança de posição de um grupo que vai precisar provar sua própria capacidade de viver fora do comando direto do Executivo”, diz.
A saída de Helder do governo do Pará e a disputa pelo Senado levantam as hipóteses de um interesse do ex-governador pela Presidência da República no futuro.
Rodrigues considera essa possibilidade ainda precoce de ser avaliada, mas afirmou que a ida para o Senado pode ampliar a capacidade de articulação nacional de Helder, tanto política quanto partidária.
Segundo ele, caso o ex-governador queira futuramente se apresentar como presidenciável, precisará construir apoio dentro do próprio partido e ampliar sua atuação para além do Pará.
“A ida para o Senado corrobora com a tentativa de fortalecimento do nome dele a nível nacional”, avaliou. Para o pesquisador, porém, o movimento também pode ser interpretado, neste primeiro momento, como um caminho comum para governadores que encerram o segundo mandato e deixam o Executivo estadual para disputar uma vaga no Senado.
Família Barbalho
Aliados políticos, mas não parentes
O termo é usado na matéria para descrever o grupo político de base familiar formado em torno dos Barbalho no Pará. Segundo o cientista político Yago Rodrigues, esse tipo de estrutura combina herança familiar, capital político, redes de relacionamento, prestígio e capilaridade eleitoral, permitindo a continuidade do grupo entre diferentes gerações.
A trajetória remonta a Laércio Barbalho, pai de Jader Barbalho. Jader iniciou a carreira como vereador de Belém em 1967 e depois ocupou cargos como deputado estadual, deputado federal, governador do Pará, ministro e senador, além de ter presidido o Senado.
Helder foi prefeito de Ananindeua, deputado estadual, ministro e governador do Pará. Em 2022, foi reeleito governador no primeiro turno com mais de 70% dos votos válidos. Na avaliação de Yago Rodrigues, essa trajetória permitiu que ele construísse capital político próprio, para além da condição de sucessor de Jader Barbalho.
Helder deixou o governo para disputar uma vaga no Senado, enquanto Hana Ghassan, que era vice-governadora, assumiu o Executivo estadual e foi oficializada pelo MDB como candidata à reeleição. O cenário coloca em evidência a capacidade do grupo de reorganizar alianças e preservar sua influência sem Helder no comando direto do governo.
Não. Segundo Yago Rodrigues, a sucessão política envolve também compromissos, lealdades, lideranças locais, intermediários e cabos eleitorais. Partidos, prefeitos, vereadores, deputados e outras redes de relacionamento também integram a estrutura que sustenta um grupo político.
Além de Helder, candidato ao Senado, a rede familiar apresentada na matéria inclui Jader Barbalho, Elcione Barbalho, Jader Filho, Mara Lúcia Barbalho, Nay Barbalho e José Priante. Igor e Renan Normando também integram um ramo familiar ligado aos Barbalho. Hana Ghassan e Chicão são aliados políticos citados no texto, mas não pertencem à família por parentesco.
A matéria não aponta uma candidatura presidencial definida. Yago Rodrigues considera precoce avaliar essa possibilidade e afirma que a ida ao Senado pode ampliar a articulação nacional de Helder, mas também observa que disputar uma vaga de senador é um caminho comum para governadores que encerram o segundo mandato.