Brasil

Legado da COP 30 entra no debate sobre o próximo governo do Pará

Quase um ano após a conferência, obras mudaram a paisagem de Belém, mas especialistas apontam desafios para transformar a agenda climática em política permanente

COP30: legado da conferência entra na discussão eleitoral  (Leandro Fonseca /Exame)

COP30: legado da conferência entra na discussão eleitoral (Leandro Fonseca /Exame)

Gabi Gutierrez
Gabi Gutierrez

Colaboradora

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 09h00.

Priorizar nos meus resultados Google

Quase um ano depois da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), evento que colocou Belém no centro da agenda climática mundial, deixou para a eleição de 2026 mais do que parques, obras de infraestrutura e equipamentos culturais.

Para além do legado físico, o evento ampliou o repertório disponível para a disputa pelo governo do Pará: desmatamento, adaptação climática, bioeconomia, restauração florestal e o modelo de desenvolvimento do estado passaram a fazer parte de uma agenda que os candidatos terão de traduzir para o eleitor.

A COP, no entanto, não determina sozinha o debate eleitoral. Essa é a avaliação do cientista político Rodolfo Marques, doutor em Ciência Política pela UFRGS e mestre pela UFPA. Para ele, a conferência ampliou os assuntos disponíveis para as campanhas, mas não substituiu as questões que tradicionalmente mobilizam o eleitorado.

“A COP 30 ampliou o repertório disponível para as campanhas, mas não determinou a agenda da eleição”, afirma.

Na avaliação de Marques, o desafio está justamente em transformar uma agenda que ganhou dimensão internacional em problemas que façam sentido para a população. Questões como enchentes, moradia, produção agrícola, infraestrutura e os efeitos das mudanças climáticas são algumas das portas de entrada para esse debate.

A disputa de 2026, segundo o cientista político, também é atravessada por um confronto narrativo entre continuidade e ruptura. Nesse cenário, a COP 30 pode ser mobilizada tanto como resultado de uma trajetória de governo quanto como ponto de partida para uma nova agenda.

“O principal confronto narrativo de 2026 é entre continuidade e ruptura. A disputa é para definir qual interpretação do Brasil atual prevalecerá, se de continuidade ou de mudança”, diz o cientista.

O mesmo raciocínio vale para a agenda climática. Para Marques, campanhas que consigam conectar temas complexos a problemas concretos têm mais condições de fazer com que eles cheguem ao eleitor.
A questão que fica para o Pará é, portanto, menos se a COP 30 será um tema isolado da campanha e mais como os candidatos vão interpretar o que ficou depois da conferência.

Continuidade, ruptura e o legado que virou ativo político

A dimensão física dessa herança é a mais evidente. A preparação para a COP 30 mobilizou recursos de diferentes fontes. Segundo a página de transparência da Presidência da COP 30, os investimentos associados à preparação do evento somam R$ 6,12 bilhões, considerando aportes da União, do Governo do Pará, de estatais federais, financiamentos e recursos privados vinculados à infraestrutura. Desse total, R$ 4,24 bilhões são classificados como investimentos públicos e financiamentos.

Em Belém, os recursos ajudaram a acelerar obras que permaneceram depois da conferência. Entre elas estão o Parque da Cidade, os parques lineares da Nova Doca e da Tamandaré, intervenções de drenagem e urbanização, a reforma do Mercado de São Brás e a revitalização do Complexo do Ver-o-Peso.

O Parque Linear da Tamandaré recebeu R$ 154 milhões em recursos do Governo do Pará e do BNDES e foi entregue às vésperas da COP 30. Já a revitalização do Ver-o-Peso teve contrato de cerca de R$ 47,3 milhões, segundo a página de transparência da Prefeitura de Belém.

Enquanto a atual governadora Hana Ghassan, que foi presidente do comitê responsável pelo evento, defende os investimentos e o que considera o legado da conferência, Dr. Daniel e aliados criticam o que chamam de gastos bilionários e apontam problemas em obras emblemáticas, como da Avenida Liberdade. Os dois aparecem na liderança nas últimas pesquisas.

Ver-o-Peso: mercado símbolo de Belém, foi parcialmente reformado para a COP30 e foi um dos destinos preferidos dos visitantes durante a conferência (Leandro Fonseca /Exame)

São obras que, no debate eleitoral, podem ser apresentadas como resultados concretos da preparação para a conferência. Mas, passado o evento, elas também criam uma nova obrigação para o governo que assumir em 2027: manter os equipamentos, avaliar seus resultados e decidir quais políticas devem continuar.

É nesse ponto que a análise de Ana Cláudia Cardoso, professora da Universidade Federal do Pará, ganha peso. Para ela, nem tudo o que foi construído no contexto da COP 30 deve ser analisado da mesma maneira.

“Tem obras que eram fundamentais para a COP e outras que são obras de oportunidade. A COP permitiu que determinadas obras fossem financiadas e executadas em uma velocidade que provavelmente não aconteceria sem esse recurso", afirma.

A distinção coloca uma questão para o próximo ciclo: quais intervenções devem ser mantidas e ampliadas e quais precisam ser reavaliadas a partir das necessidades climáticas de Belém?

A COP 30 como discussão sobre modelo econômico

O legado da conferência também extrapola a capital. Para o economista Kleber Mourão, presidente do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon-PA/AP), a visibilidade internacional conquistada pelo Pará só terá efeito de longo prazo se for convertida em uma estratégia econômica.

“A COP mostrou para o mundo a dimensão, a complexidade e também o potencial da Amazônia. O mundo veio até a Amazônia para discutir a Amazônia. Isso tem um valor estratégico enorme”, afirma.

Para Mourão, a eleição de 2026 acontece em um momento em que o Pará precisa discutir não apenas quanto pretende crescer, mas como pretende crescer.

O estado tem uma economia fortemente ligada à mineração, à agropecuária e ao extrativismo, mas o economista defende uma mudança na relação com esses ativos.

“O nosso grande desafio é sair de uma economia baseada na extração e exportação de produtos primários ou semielaborados para uma economia com industrialização mais madura, diversificada, com produção de bens de maior valor agregado, tecnologia e melhores empregos”, diz Mourão.

A discussão sobre o legado da COP 30, nesse sentido, passa a ser também uma discussão sobre o programa econômico que estará em jogo na eleição.

Para ele, o Pará não pode continuar simplesmente retirando o recurso natural e ‘mandando para fora’. “Precisamos criar mecanismos para transformar esse capital natural em plataformas produtivas de maior valor”, opinou o economista.

Mourão também defende que a política da floresta em pé seja incorporada de maneira mais concreta à economia, além de criar uma lógica em que preservar a floresta também seja economicamente interessante.

“Hoje existe um custo para quem mantém a floresta em pé e um valor muito grande para quem consegue explorar determinados recursos. Essa equação precisa ser revista”, afirma.

A agenda climática, portanto, não aparece apenas como uma questão ambiental. Ela se conecta a emprego, indústria, infraestrutura, arrecadação e desenvolvimento regional — temas tradicionalmente presentes nas disputas pelo governo estadual.

O que deveria virar política de Estado?

É na relação entre meio ambiente e desenvolvimento que Beto Veríssimo, cofundador e pesquisador sênior do Imazon, coloca uma das principais questões para o próximo governo.

Para ele, a COP 30 criou uma oportunidade para que o Pará transforme a agenda ambiental em uma estratégia permanente, mas isso depende de continuidade para além de um mandato.

“Essa precisa ser uma agenda de Estado para os próximos dez anos, e não apenas uma agenda de governo”, afirma Veríssimo.

A primeira prioridade, segundo Veríssimo, é reduzir o desmatamento. Ele defende que o Pará avance para um patamar inferior a 30 mil hectares desmatados por ano e, paralelamente, amplie a restauração de áreas que já perderam a cobertura florestal.

“O primeiro grande desafio é eliminar o desmatamento nos próximos anos. E não é só parar de desmatar. É também começar a plantar árvores nativas em áreas que já foram desmatadas”, declara.

Para o pesquisador, essa agenda pode ser associada a uma nova frente econômica para o estado. A bioeconomia, a restauração florestal e a agricultura de baixo carbono são apontadas por ele como setores com potencial de crescimento.

“O Pará já é o estado brasileiro que mais planta árvores nativas para esse mercado. Então existe uma oportunidade muito concreta de transformar a restauração em atividade econômica”, afirma.

O desafio é fazer com que essas atividades ganhem escala. Veríssimo aponta que o mercado global de bioeconomia já movimenta valores elevados, enquanto a participação da Amazônia brasileira ainda é pequena.

Beto enfatiza que o Pará tem um mercado global de bioeconomia enorme, mas a participação da Amazônia brasileira ainda é muito pequena: “Precisamos remover as barreiras para que os negócios da região consigam participar desse mercado”.

Ele também cita como prioridades a rastreabilidade da cadeia pecuária, a regularização fundiária, a segurança, a inovação e a redução dos custos para negócios de baixo carbono.

“Não existe transição para uma economia de baixo carbono sem resolver questões muito concretas, como regularização fundiária, segurança, infraestrutura e inovação”, pontua.

A disputa também passa pela cidade que ficou da COP 30

Se a floresta e o modelo econômico colocam a COP 30 na agenda estadual, Belém concentra outra parte da herança: a necessidade de adaptar a cidade às mudanças climáticas.

Ana Cláudia Cardoso avalia que esse pode ser um dos principais desafios urbanos do próximo ciclo. Para ela, parte das intervenções ainda reproduz uma lógica baseada em concreto, canalização e impermeabilização, enquanto a cidade precisaria incorporar mais soluções baseadas na natureza.

“Em 2026, todo mundo está falando de renaturalização. Só que a população precisa entender o que isso significa. A vegetação reduz a temperatura, ajuda a absorver a água e regula o volume de água. Isso é uma infraestrutura que funciona”, afirma.

A professora defende que a adaptação climática passe a fazer parte do planejamento urbano permanente, e não apenas de projetos associados a grandes eventos.

“Não adianta simplesmente fazer mais do mesmo. A infraestrutura que foi dimensionada para o clima do passado não necessariamente vai funcionar para o clima que estamos tendo agora”, diz a urbanista.

A discussão envolve desde drenagem e áreas verdes até a forma como novos empreendimentos são planejados e como os espaços públicos são mantidos.

“Precisamos de uma cidade mais permeável, mais vegetada e preparada para esse novo regime climático. Isso precisa estar no planejamento urbano, na legislação e na forma como a cidade é construída”, pontua Cláudia.

Assim, para ela, o legado da COP 30 também cria uma cobrança política específica para Belém: não apenas preservar os espaços entregues, mas incorporar a adaptação climática às próximas decisões de infraestrutura.

A agenda que chega às urnas

O efeito político da COP 30 na eleição de 2026 está, portanto, menos na conferência como tema isolado e mais nas questões que ela ajudou a colocar em evidência. A agenda ambiental aparece nos programas dos candidatos ao governo do Pará, com propostas relacionadas a combate ao desmatamento, bioeconomia, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável.

Para Rodolfo Marques, porém, a presença desses temas nos programas não significa que eles tenham se tornado automaticamente o centro da decisão eleitoral. “O desafio está em fazer a conexão entre a agenda global e a vida cotidiana”, afirma.

É por isso que a COP 30 pode funcionar na campanha como uma herança a ser interpretada: para um lado, como demonstração de investimentos, visibilidade internacional e obras; para outro, como ponto de partida para cobrar mudanças no modelo de desenvolvimento, na política ambiental e na adaptação das cidades.

Beto Veríssimo estabelece algumas das metas que poderiam servir como referência para esse acompanhamento: menos de 30 mil hectares de desmatamento por ano, rastreabilidade de pelo menos 80% do rebanho bovino, expansão da bioeconomia e restauração de áreas degradadas.

“Se daqui a quatro anos a gente conseguir olhar para o Pará e ver menos desmatamento, mais restauração, uma bioeconomia maior e mais empregos verdes, aí teremos evidências de que essa transição está acontecendo", afirma.

Kleber Mourão amplia a cobrança para o campo econômico. “Precisamos pensar em aproximadamente oito milhões de paraenses e em como gerar desenvolvimento para essa população. A Amazônia não pode ser vista apenas como fornecedora de matéria-prima”, diz o representante do Corecon.

E Ana Cláudia leva a mesma discussão para a cidade: “Não basta construir. É preciso acompanhar, manter e avaliar se aquilo está funcionando.”

Acompanhe tudo sobre:Eleições 2026COP30

Mais de Brasil

O que o TSE decidiu sobre posts que citam Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida?

Pesquisa Real Time: Flávio Bolsonaro tem 46% e Lula, 45%, no 2º turno

Real Time: a 3 dias do 1º turno, Lula chega a 43% e Flávio Bolsonaro marca 39%

Lula e Flávio Bolsonaro vão ao debate da Globo? Veja os candidatos confirmados