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Eleição no Pará testa força do grupo Barbalho sem Helder na disputa

O que está em jogo na eleição no estado com 6,2 milhões de eleitores

Hanna e Dr Daniel: disputa no Pará coloca aliada dos Barbalhos contra ex-prefeito (Facebook/Montagem/Divulgação)

Hanna e Dr Daniel: disputa no Pará coloca aliada dos Barbalhos contra ex-prefeito (Facebook/Montagem/Divulgação)

Gabi Gutierrez
Gabi Gutierrez

Colaboradora

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 1 de outubro de 2026 às 06h50.

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Belém, Pará — A eleição para o governo do Pará em 2026 coloca em teste a força política construída pelo grupo Barbalho e, ao mesmo tempo, expõe uma disputa entre narrativas de continuidade e mudança.

Sem Helder Barbalho (MDB) na corrida pelo Executivo estadual, Hana Ghassan (MDB) tenta manter no governo o grupo político que comanda o estado, enquanto Dr. Daniel (Podemos) passou a ocupar, na percepção de parte do eleitorado, o espaço de principal contraponto ao grupo.

Depois de dois mandatos à frente do Executivo, Helder deixou o cargo para disputar o Senado e passou o comando do governo à então vice, Hana Ghassan, que agora tenta permanecer no posto.

As pesquisas mais recentes mostram um cenário incerto.

A Quaest, divulgada no sábado, 26, mostrou Dr. Daniel com 41% das intenções de voto e Hana com 32% no primeiro turno. No segundo turno simulado, Daniel aparece com 47%, contra 36% de Hana. Já pesquisa do Real Time Big Data, divulgada nesta segunda-feira, 28, apontou Hana com 44% e Daniel com 37% no primeiro turno.

Mais do que a oscilação dos números, a eleição coloca em discussão a capacidade de transferência do capital político de Helder, a força da estrutura do MDB e a forma como a oposição conseguiu construir uma narrativa própria.

Para o cientista político André Buna, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a sucessão ocorre em um cenário no qual a força política construída pela família Barbalho se encontra com uma disputa que também pode ser atravessada pela polarização nacional entre lulismo e bolsonarismo.

“Um dos pontos centrais é entender quanto do capital político acumulado por Helder pode ser aproveitado por Hana”, diz Buna.

Dr. Daniel e a nacionalização da disputa

Na avaliação de Buna, a eleição para o governo do Pará também começa a incorporar elementos da disputa presidencial. O fenômeno é chamado por ele de “verticalização”: a transferência de questões e alinhamentos do cenário nacional para a disputa estadual.

Segundo o cientista político, a experiência eleitoral brasileira após a redemocratização mostra uma tendência de candidatos a governador e parlamentares se beneficiarem da força de candidaturas presidenciais nos estados quando conseguem estabelecer um palanque nacional forte.

“Quando se tem uma campanha forte, que é o que estamos começando a enxergar, principalmente a partir da visita de Lula, meio tardia, mas pode gerar um impacto positivo para a campanha da Hana”, afirma Buna.

O movimento, segundo ele, pode favorecer a candidatura de Hana pela associação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto Dr. Daniel passou a ser identificado por parte do eleitorado como um candidato de oposição a esse campo político.

Buna pondera, porém, que essa associação não nasceu necessariamente de uma estratégia formal do Podemos. Na avaliação dele, foi o próprio eleitorado que passou a atribuir a Daniel o papel de opositor ao grupo de Helder e, por extensão, ao campo político associado a Lula.

“O eleitor resolveu assumir o Dr. Daniel como um opositor”, afirma.

Segundo Buna, essa identificação é particularmente relevante entre eleitores bolsonaristas, que, na avaliação dele, encontraram em Daniel um nome capaz de ocupar o espaço de oposição ao grupo Barbalho.

“Eles acolheram esse candidato muito em oposição ao Lula, por ter essa percepção de Hana como uma associação direta ao barbalhismo que, com a figura do Helder, se contrapôs à figura de Bolsonaro”, afirma.

A associação, para André, cria uma particularidade na candidatura de Daniel:

“Embora ele tenha construído parte de sua trajetória política dentro do mesmo grupo de Helder, hoje aparece para uma parcela do eleitorado como representante da mudança. Era muito associado, ainda é, querendo ou não, ao próprio Helder Barbalho”.

Daniel foi prefeito de Ananindeua pelo MDB antes de romper com o grupo e migrar para outra legenda. Para Buna, essa trajetória ajuda a explicar a complexidade da atual disputa: o candidato que hoje se apresenta como contraponto ao grupo Barbalho também fez parte dele.

Ex-governador do Pará e candidato ao Senado, Helder Barbalho: legado do político estará em jogo na disputa do estado (Leandro Fonseca /Exame)

Da ruptura interna à narrativa de oposição

Buna avalia que a saída de Daniel do MDB, em 2024, precisa ser compreendida dentro de uma característica própria da legenda: a força de lideranças regionais e de grupos familiares na organização partidária.

“O MDB é um partido diferente dos outros partidos. Ele não tem uma nacionalização e uma figura central nacional, como o próprio PL, como o próprio PT. O MDB tem uma característica de caciques, de múltiplas dominâncias”, afirma.

Na leitura do cientista político, o partido apresenta estruturas de poder fortemente regionalizadas, com famílias políticas ocupando posições centrais em diferentes estados.

No Pará, segundo Buna, a concentração de poder do grupo Barbalho no MDB teria limitado o espaço de crescimento de Daniel dentro da própria legenda. A saída do partido, nesse contexto, abriu caminho para uma candidatura construída em oposição ao grupo que antes integrava.

Esse rompimento também teria sido incorporado à comunicação política de Daniel, segundo Buna, que avalia que a narrativa de perseguição e enfrentamento ao grupo Barbalho passou a fazer parte da identificação do candidato com seu eleitorado.

Para o cientista político, essa construção ajudou a transformar uma ruptura interna em uma narrativa mais ampla de oposição.

Pesquisas mostram redução da indecisão

A mudança no posicionamento de Daniel também aparece, segundo Buna, na evolução dos números da Quaest.

Na pesquisa divulgada em 26 de setembro, Daniel aparece com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Hana. No segundo turno simulado, ele chega a 47%, enquanto Hana registra 36%. Em agosto, os dois estavam tecnicamente empatados no segundo turno, com 36% cada.

Buna relaciona o avanço de Daniel principalmente à redução da parcela de eleitores indecisos e ao aumento do conhecimento sobre os candidatos.

Na pesquisa Quaest, 54% dos entrevistados estavam indecisos na pergunta espontânea, ante 69% em agosto. No segundo turno simulado, o percentual de indecisos caiu de 20% para 9%.

Para Buna, o movimento ajuda a explicar a mudança do cenário.

“Quanto mais ele conhece esses candidatos, mais ele passa a decidir sobre um e sobre o outro, inclusive sobre não querer um em relação ao outro”, afirma.

Segundo o cientista político, a evolução também pode ser observada nos índices de conhecimento e rejeição dos dois candidatos. Na avaliação dele, Daniel conseguiu ampliar a parcela de eleitores que o conhecem e declaram intenção de votar nele sem que o crescimento de sua rejeição acompanhasse na mesma proporção.

No caso de Hana, Buna observa um aumento maior entre os que dizem conhecer a candidata, mas afirmam que não votariam nela.

A leitura, para ele, é de um eleitorado que chega à reta final com menos incerteza sobre os dois principais nomes da disputa.

Disputa também é por narrativa

O jornalista e cientista político Rodolfo Marques, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre pela UFPA e MBA em Marketing pela FGV, avalia que a eleição de 2026 também será marcada por uma disputa de narrativas.

Para ele, as campanhas não disputam apenas votos, mas a interpretação que o eleitor fará do momento político.

“O principal confronto narrativo de 2026 é entre continuidade e ruptura, mas com uma diferença importante em relação a eleições anteriores. Não se trata de defender ou rejeitar um governo. A disputa é para definir qual interpretação do Brasil atual prevalecerá, se de continuidade ou de mudança”, afirma o analista político.

Na avaliação de Marques, essa disputa passa pela forma como as campanhas conseguem organizar diferentes problemas e expectativas em uma narrativa compreensível para o eleitor.

Segurança, economia, corrupção, serviços públicos e o papel do Estado podem aparecer juntos, desde que sejam apresentados como partes de uma mesma interpretação sobre o país.

“A campanha de 2026 que conseguir conectar esses assuntos em uma explicação simples tende a ter um espaço maior na preferência do eleitor”, diz.

A continuidade no Pará

A lógica nacional se encontra, no Pará, com uma questão mais específica: como o grupo político que está no poder apresenta sua continuidade ao eleitor depois da saída de Helder da disputa pelo governo.

É nesse ponto que a comunicação da candidatura de Hana se cruza com a capacidade de transferir — ou não — o capital político acumulado pelo governador.

Para Buna, porém, uma boa avaliação de governo não necessariamente se converte em apoio ao candidato que representa sua continuidade.

“Não podemos cravar que essa conversão de avaliação, de boa avaliação de um governo, vá, de fato, passar para outro candidato que pode não ter o mesmo carisma, pode não ter a mesma simpatia do eleitor. É difícil saber o quanto se transfere de capital político de Helder para Hana Ghassan. Transferência nunca é direta, nunca é automática”, afirma.

Ao mesmo tempo, Buna ressalta que Hana não chega à disputa apenas como sucessora de Helder. Ela teve um período à frente do governo e, segundo o cientista político, passou a desenvolver uma atuação própria.

“Ela teve um período de governo e se mostrou, em certa medida, proativa e deu continuidade a alguns projetos, encabeçando outras agendas que foram prioritárias nesse segundo momento, a partir de uma nova releitura das demandas e das necessidades de atendimento da população”, afirma.

Pará e Brasil têm agendas diferentes

A disputa de narrativas apontada por Marques também encontra limites nas preocupações concretas do eleitorado. Buna diferencia o que aparece como prioridade no Pará do que domina o debate nacional.

“Hoje temos uma percepção muito clara de que existem duas preocupações: uma do Pará, regionalizada e com todas as suas particularidades, principalmente na capital, e outra que é nacionalizada”, afirma.

Na pesquisa Quaest mais recente, a saúde aparece como a principal preocupação dos eleitores paraenses, com 37%, seguida por violência, com 12%.

Para Buna, a infraestrutura ganhou maior visibilidade depois da COP 30, especialmente em Belém. A realização do evento colocou em evidência questões relacionadas a mobilidade, serviços urbanos e capacidade de investimento.

No cenário nacional, o cientista político aponta a violência como uma preocupação recorrente, seguida por corrupção e economia. A diferença entre as agendas ajuda a separar o debate sobre a eleição para governador daquele que ocorre na disputa presidencial.

Parque da Cidade, construído para receber a COP30: discussão sobre infraestrutura cresceu no estado após evento global (Leandro Fonseca /Exame)

A força da estrutura do MDB

Se Marques aponta a capacidade de construir uma narrativa como um elemento importante da comunicação eleitoral, no Pará essa disputa também acontece sobre uma estrutura política já organizada.

Para Buna, a força do MDB está associada à capilaridade construída pela família Barbalho e à presença do grupo em diferentes regiões do estado.

“O MDB é o partido mais organizado localmente, sem sombra de dúvida. A gente tem uma estrutura que reverbera a partir da família Barbalho, que tem uma capilaridade muito grande no estado", afirma.

Ele lembra que, em 2022, mais de 80% das cadeiras ocupadas na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) eram de partidos que estavam na coalizão do Helder e quase 60% dos municípios tinha prefeitos ligados ao MDB. "Logo, a estrutura do partido no estado é de grande capilaridade”, diz.

A estrutura partidária, na avaliação de Buna, ajuda a explicar por que a saída de Helder da disputa pelo governo não significa necessariamente uma ruptura imediata das forças que sustentam o grupo político. A questão, para ele, é como essa estrutura será reorganizada na sucessão.

“É muito mais uma reorganização dentro do grupo político que já domina o Estado do que uma reconfiguração. É claro que as eleições podem reconfigurar forças locais, mas o Pará é um caso clássico de uma elite política consolidada”, afirma.

COP 30 amplia agenda sobre desenvolvimento

A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) em Belém, em novembro de 2025, acrescenta outra dimensão à sucessão estadual.

Para Marques, o evento ampliou o repertório disponível para as campanhas, mas não determinou quais temas ocupariam o centro da eleição. A conferência, aponta, funciona no discurso político como uma espécie de novo repertório simbólico.

“Quem apoiou, quem esteve também ligado, usa isso a seu favor e reforça a necessidade da discussão sobre a pauta climática e as necessidades de ampliar a perspectiva sobre a sustentabilidade”, afirma.

Para ele, o desafio político está em traduzir a agenda internacional da conferência para questões concretas da população, como enchentes, moradia, produção agrícola, infraestrutura e impactos das mudanças climáticas.

“A pergunta eleitoral não é simplesmente se o candidato é a favor ou contra a preservação da Amazônia, e sim o que a política climática muda na vida das pessoas. Produção agrícola, moradia, defesa contra enchentes”, conclui.

Buna acrescenta a essa discussão a possibilidade de uma mudança na forma como o Pará apresenta seu modelo de desenvolvimento. Segundo ele, a projeção internacional obtida pela Amazônia pode ampliar o espaço para temas como turismo, bioeconomia e geração de atividade econômica associada à floresta em pé.

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