Segurança pública: dez cidades brasileiras com maiores taxas de Mortes Violentas Intencionais estão na região Nordeste (Getty Images)
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Publicado em 23 de julho de 2026 às 17h18.
As dez cidades brasileiras com maiores taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) estão na região Nordeste, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública com os dados de 2025, divulgado nesta quinta-feira, 23. Segundo o levantamento, a lista tem relação direta com as movimentações do tráfico de drogas.
Desde 2020, a região possui a maior taxa de MVI do país. Em 2025, a taxa média no Nordeste foi de 31,6 crimes do gênero por 100 mil habitantes, enquanto, no Brasil, foi de 19,1.
Das dez cidades mais violentas, cinco estão localizadas na Bahia, três estão no Ceará, enquanto Pernambuco e Paraíba têm um município cada. Para a medição, o Anuário considerou apenas municípios com população igual ou superior a 100 mil habitantes.
São elas:
Segundo o Anuário, existem dois padrões comuns às dez cidades mais violentas do Brasil. O primeiro é o padrão histórico de disputas por cidades, principalmente do interior, cortadas por importantes rodovias, que funcionam como corredores logísticos para o escoamento interno do tráfico de drogas.
O segundo é um padrão observado apenas recentemente, que engloba as cidades litorâneas e serve para o fluxo de saída de drogas. Aliado a este fator, há uma demanda pelo comércio varejista das drogas em cidades turísticas, o que leva facções do Sudeste para o Norte e Nordeste.
A cidade que lidera a lista é Maranguape, no c. No ano base do estudo, o município apresentou uma taxa cinco vezes maior do que a taxa nacional, com 100,3 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes.
Segundo os insights do Anuário, o território é atrativo às facções criminosas pela proximidade com importantes rodovias, como a CE-065 e a BR-222. O número elevado de homicídios na região se deve, sobretudo, às disputas entre os grupos criminosos.
Eunápolis, no extremo sul da Bahia, é a segunda cidade da lista, com 85,1 MVI por 100 mil habitantes. Segundo o Anuário, trata-se de um município marcado por homicídios dolosos, quando há intenção de matar, e por mortes por intervenção policial. Esta cidade também é a segunda colocada no ranking dos municípios com maiores taxas de Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP).
Localizada próxima às rodovias BR-101 e BR-367, Eunápolis não figurava nem entre as 20 cidades mais violentas em 2024, indicando um salto brusco em um ano.
Vizinha de Maranguape, a cidade cearense de Maracanaú funciona como uma cidade satélite da primeira colocada, com geolocalização similar e mais próxima do Aeroporto Internacional de Fortaleza, Pinto Martins.
Segundo o levantamento, o índice de MVI no município é de 80,7 casos por 100 mil habitantes, ocasionados, sobretudo, por conta do conflito entre três facções criminosas de atuação nacional e que têm bases na região.
Um dos principais pontos turísticos do Nordeste, Porto Seguro, na Bahia, tem uma taxa de 71,2 MVI por 100 mil habitantes. O grande fluxo de turistas nacionais e internacionais favorece o comércio varejista de drogas na cidade.
Outra hipótese é a importância logística de Porto Seguro para o tráfico internacional, com o Aeroporto Internacional de Porto Seguro e a rodovia BR-367, a mesma que corta o município de Eunápolis. Segundo o Anuário, a cidade faz parte da rota de escoamento de drogas também pelo porto de cargas em Ilhéus, a cerca de 300 km de distância.
Em 2025, o cartão postal também foi a cidade com maior taxa de morte por decorrência de intervenção policial do país, com 32,3 casos por 100 mil habitantes.
Quinta colocada na lista, Simões Filho fica na Bahia e registrou 68,1 casos de MVI por 100 mil habitantes em 2025. Trata-se de uma cidade próxima ao porto de Aratu e às rodovias estaduais BA-93 e BA-526, e à rodovia federal BR-324, que passa por Maranhão, Piauí e Bahia.
Também é a quinta cidade com maiores taxas de MDIP, com 19,1 mortes por intervenção policial por 100 mil habitantes.
Com 67,4 MVI por 100 mil habitantes, Jequié, na Bahia, também é a sexta colocada entre as cidades com maior taxa de MDIP, com 18,9 por 100 mil habitantes.
É cortada por duas rodovias federais: BR-116, que passa do Ceará até o Rio Grande do Sul, e a BR-330. Além de ser próxima do porto de Ilhéus, com menos de 200 km de distância.
Caucaia ocupa a sétima posição, com uma taxa de 66,6 casos de MVI por 100 mil habitantes. Como hipóteses para o número estão disputas e acordos entre as facções criminosas pela proximidade com o porto de Pecém, bem como a presença da rodovia BR-020.
De acordo com o Anuário, as disputas por territórios entre facções no Ceará desencadeiam na expulsão de moradores de suas casas, a mando dos grupos criminosos, com a justificativa de alianças desses moradores com grupos rivais. O levantamento aponta que Caucaia, Maracanaú, Maranguape e Fortaleza estão entre os municípios com este tipo de fenômeno.
Localizada em Pernambuco, a cidade de Cabo de Santo Agostinho teve uma taxa de 65,1 MVI por 100 mil habitantes em 2025. O município fica a cerca de 20 km do Porto Suape, ponto importante de rota para tráfico internacional de drogas.
Em outubro do ano base do levantamento, a Polícia Federal e o Complexo Portuário de Suape assinaram um acordo de cooperação técnica para redobrar a segurança e aumentar o controle do tráfico de drogas e outros crimes marítimos.
Santa Rita, na Paraíba, apresentou uma taxa de 60,9 MVI por 100 mil habitantes em 2025. Assim como Eunápolis, a cidade também não figurava entre as vinte cidades com maiores taxas de crimes letais em 2024.
A proximidade com o porto de Cabedelo, a cerca de 35 km de distância, e a presença de duas grandes rodovias federais, a BR-101 e a BR-230, conhecida como Rodovia Transamazônica, configura a cidade como ponto estratégico para a logística do tráfico que vem e vai para a Amazônia.
Com quase três vezes mais mortes violentas intencionais que a média nacional, Juazeiro, na Bahia, teve 55,8 crimes do tipo por 100 mil habitantes em 2025.
Na cidade acontece o cruzamento de três rodovias federais (BR-122, BR-235 e BR-407), além da presença do rio São Francisco, dando a opção de escoamento fluvial para o tráfico.
Os dez estados com maiores taxas de mortes violentas intencionais estão nas regiões Norte e Nordeste: sete no Nordeste (Bahia, Ceará, Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Rio Grande do Norte e Paraíba) e três no Norte (Amapá, Pará e Rondônia).
A taxa média de MVI por 100 mil habitantes no Nordeste foi de 31,6 crimes por 100 mil habitantes, em 2025, seguida pela do Norte (25,3), da Região Centro-Oeste (17,3), do Sudeste (12,6), e pela taxa do Sul, com 11,9.
Segundo o levantamento, a concentração de MVI nas regiões Norte e Nordeste está muito associada “à capacidade de organizações criminosas ampliarem suas forças a partir da captura de territórios, economias e modos de vida”.
“O controle de infraestruturas críticas da economia dessas regiões passa a ser disputado e, com isso, há um aumento da violência letal”, diz um trecho do Anuário.
Entre 2012 e 2025, a taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) no Brasil caiu de 27,7 para 19,1, uma redução de 31,0%. No entanto, essa redução não foi igual entre as regiões.
Enquanto o Centro-Oeste (-49,9%) e o Sul (-48,8%) registraram as maiores reduções no período, seguidos pelo Sudeste (-35,9%), as quedas foram menos expressivas no Norte (-28,1%) e no Nordeste (-17,1%).
Assim, ainda que a tendência nacional seja pela redução da violência letal, a distância de quase 20 pontos entre as taxas do Nordeste e do Sul demonstra a distribuição territorialmente desigual da violência, que demanda respostas de segurança pública específicas para as dinâmicas locais.