Os presidentes Donald Trump e Lula durante encontro na Casa Branca, em maio de 2026 (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 25 de agosto de 2026 às 15h33.
Última atualização em 25 de agosto de 2026 às 15h50.
Após o telefonema entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, na semana passada, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) entrou em contato com o governo brasileiro e agendou uma nova reunião entre as áreas técnicas dos dois países para discutir o tarifaço. O encontro, que será virtual, foi agendado para a próxima segunda-feira, 31.
A reunião de nível ministerial será a sexta entre a equipe de Jamieson Greer, que comanda o USTR, e a equipe do Brasil, capitaneada pelo ministro Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e ocorre em meio a uma tentativa do governo Lula de reconstruir a interlocução com Trump. O encontro foi noticiado pela TV Globo e confirmado pela EXAME por autoridades brasileiras diretamente envolvidas no assunto. Lula tenta driblar influência de Rubio e Brasil volta a negociar tarifaço com os EUA
No governo brasileiro, a avaliação é de que as duas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos, que somam 37,5%, têm caráter político. No caso da tarifa de 25% imposta apenas ao Brasil, a percepção das autoridades brasileiras é de que a barreira é uma tentativa do Departamento de Estado americano de interferir na eleição em favor de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e não está relacionada a fatores econômicos.
Na semana passada, o próprio presidente Lula ouviu de Trump que os dois lados deveriam voltar a conversar. No Planalto, a avaliação é de que o tarifaço ocorreu sob pressão, sobretudo da parte do secretário de Estado Marco Rubio. Lula, inclusive, já criticou publicamente o auxiliar de Trump ao afirmar que ele "não gosta do Brasil" nem da América Latina.
Entre os negociadores do lado brasileiro, Rubio é visto como membro da ala mais ideológica do governo americano. O contato direto entre Lula e Trump, nesse sentido, é uma tentativa do Brasil de driblar a influência de Rubio na área comercial.
Embora o telefonema entre os dois líderes e a nova reunião ministerial sejam notícias positivas, o governo brasileiro não é otimista quanto à possibilidade de revogar o tarifaço antes das eleições presidenciais de outubro. Ainda assim, o ministro Márcio Elias tem dito publicamente que a determinação de Lula é para que o Brasil busque a negociação comercial com os americanos.
Do ponto de vista comercial, as condições apresentadas pelos americanos nos encontros anteriores de nível ministerial são consideradas inaceitáveis. Além de uma capitulação em relação à infraestrutura do Pix, vista pelos EUA como um instrumento de concorrência desleal com meios de pagamento americanos, os representantes de Trump pediram a abertura total e irrestrita, por parte do Brasil, do mercado para indústria automotiva, produtos químicos, etanol, entre outros produtos americanos.
O telefonema entre Lula e Trump foi o mais longo entre os dois chefes de Estado desde o início do atual ciclo de negociações e teve como foco comércio bilateral, combate ao crime organizado e temas internacionais.
Segundo pessoas próximas às discussões, o objetivo principal do contato não era obter uma mudança imediata em todas as posições dos Estados Unidos, mas sim criar uma ponte para a retomada das conversas entre as equipes dos dois governos.
Ao final da ligação, Trump indicou que colocaria seus principais assessores para retomar as conversas com representantes brasileiros. A avaliação do governo brasileiro é que o gesto representa uma reabertura do canal em alto nível, embora os resultados concretos dependam das próximas rodadas de negociação.
Um encontro entre os dois na Assembleia-Geral da ONU não foi mencionado durante a ligação, mas não é descartado por aliados do petista. Essa deve ser a única viagem internacional de Lula durante o período eleitoral.