Os presidentes Donald Trump e Lula, durante encontro em maio, na Casa Branca (Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 17h49.
Última atualização em 21 de agosto de 2026 às 18h02.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que o brasileiro pode procurá-lo “a qualquer momento”, em uma conversa por telefone de cerca de 1h20 nesta sexta-feira, 21.
O contato, iniciado por iniciativa do governo brasileiro, foi avaliado como uma tentativa de reabrir o diálogo direto entre os dois países após meses de tensão com o tarifaço de 25% do governo americano sobre produtos brasileiros, numa escalada que levou à recente revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Viotti.
A conversa entre Lula e Trump foi a mais longa por telefone entre os dois chefes de Estado desde o início do atual ciclo de negociações e teve como foco comércio bilateral, combate ao crime organizado e temas internacionais.Segundo pessoas próximas às discussões, o objetivo principal do contato não era obter uma mudança imediata em todas as posições dos Estados Unidos, mas criar uma ponte para a retomada das conversas entre as equipes dos dois governos.
Ao final da ligação, Trump indicou que colocaria seus principais assessores para voltar a conversar com representantes brasileiros. A avaliação no governo brasileiro é que o gesto representa uma reabertura de canal em alto nível, embora os resultados concretos dependam das próximas rodadas de negociação.
Um encontro entre os dois na Assembleia-Geral da ONU não foi mencionado durante a ligação, mas não é descartado por aliados do petista. Essa deve ser a única viagem internacional de Lula durante o período eleitoral.
O governo brasileiro tem argumentado que parte das medidas americanas prejudica a relação econômica entre os dois países.
O principal tema tratado pelos presidentes foi a relação comercial. Segundo relatos de bastidor, Lula apresentou a avaliação de que as medidas adotadas pelos Estados Unidos criaram dificuldades para a relação bilateral e defendeu a retomada da agenda de negociações.
Trump teria demonstrado concordância com a necessidade de fortalecer a relação e indicado disposição para que as equipes dos dois países voltem a trabalhar no tema.
A avaliação brasileira é que o telefonema criou uma oportunidade para reduzir barreiras comerciais aplicadas contra produtos do país, mas não representa uma solução imediata para a disputa tarifária.Entre as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos, há produtos brasileiros sujeitos a diferentes níveis de cobrança, incluindo setores com taxas mais elevadas, como aço e alumínio. O governo brasileiro pretende avançar em uma negociação para reduzir essas medidas.
A expectativa dentro do governo é que a retomada do contato político possa abrir espaço para discussões técnicas. A estratégia, segundo interlocutores, é buscar uma redução gradual das restrições comerciais em vez de concentrar a negociação em uma única decisão.
A eleição brasileira também apareceu na conversa, mas, segundo relatos, apenas de forma introdutória. Trump teria perguntado como estava o processo eleitoral no Brasil, e Lula respondeu que o sistema eleitoral brasileiro funciona e é confiável.
Segundo o relato de integrantes do governo, Trump não fez comentários sobre o resultado da eleição brasileira nem apresentou questionamentos sobre o sistema eleitoral do país durante a ligação.O tema de reconhecimento do resultado eleitoral também não teria sido discutido. A conversa permaneceu concentrada na relação bilateral e em temas internacionais.
Não houve a confirmação se o secretário de Estado, Marco Rubio, participou da conversa.
A decisão americana de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington não foi mencionada, assim como a determinação brasileira para barrar assessores do governo Trump.
Dentro do governo brasileiro, existe a avaliação de que a dinâmica interna da administração Trump envolve diferentes grupos com visões distintas sobre política externa. A leitura é que o contato direto entre os presidentes pode ajudar a reduzir ruídos, mas não elimina divergências entre áreas do governo americano.
Outro ponto da conversa foi o combate ao crime organizado. O governo brasileiro apresentou ações realizadas no país e destacou a cooperação histórica entre Brasil e Estados Unidos nessa área.
Trump também teria apresentado informações sobre o combate ao tráfico de fentanil, substância opioide que se tornou um dos principais problemas de saúde pública nos Estados Unidos.
Lula não teria mencionado a decisão americana de declarar o PCC e Comando Vermelho como organizações criminosas.
Segundo relatos, o diálogo ocorreu em tom cordial e sem confrontos. Também foram tratados temas internacionais, como a guerra na Ucrânia e conflitos no Oriente Médio.