Brasil registrou 409 pontos em Ciências e ficou na 67ª posição entre os 91 países participantes do PISA 2025 (Adtalem Brasil/Divulgação)
Diretora da Graduação Saint Paul
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 18h47.
O novo relatório do PISA 2025, divulgado ontem pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), traz um dos primeiros retratos internacionais sobre a relação entre aprendizagem, uso de dispositivos digitais e inteligência artificial.
O PISA é uma avaliação internacional que mede o desempenho de estudantes de aproximadamente 15 anos de idade. A prova não avalia apenas se os alunos memorizaram conteúdos escolares. Ela verifica se conseguem usar conhecimentos de Matemática, Leitura e Ciências para resolver problemas e lidar com situações da vida real.
No PISA 2025, o foco principal foi Ciências, mas os estudantes também foram avaliados em Matemática e Leitura. Além das provas, eles respondem a questionários sobre sua vida escolar, condições socioeconômicas, uso de tecnologia, distrações digitais e experiências com inteligência artificial.
É nesse contexto que aparece um dos dados mais chamativos sobre o Brasil.
O Brasil registrou 409 pontos em Ciências e ficou na 67ª posição entre os 91 países participantes do PISA 2025. O resultado representa manutenção de uma situação desfavorável, marcada por baixo desempenho e grande distância em relação à média dos países da OCDE.
Em 2025, apenas 48% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível básico em Ciências, enquanto a média da OCDE foi de 74%. Isso significa que mais da metade dos alunos avaliados no Brasil não atingiu o patamar considerado mínimo para interpretar informações científicas, explicar fenômenos ou usar conhecimentos de Ciências em situações simples do cotidiano.
A posição geral ajuda a dimensionar o problema: a discussão sobre celulares e tecnologia ocorre em um sistema que ainda enfrenta dificuldades básicas de aprendizagem. Por isso, mesmo que a distração digital prejudique o desempenho, a retirada dos aparelhos não é suficiente para mudar a posição do Brasil no ranking internacional.
Em poucos anos, o país mudou a forma como as escolas lidam com celulares. Em 2022, 37% dos estudantes avaliados pelo PISA estudavam em escolas que proibiam o aparelho. Em 2025, esse número subiu para 81%. A média dos países da OCDE é de 49%.
O dado parece indicar que o problema está sendo resolvido. Mas o PISA mostra que a situação é mais complexa.
Um em cada quatro estudantes brasileiros diz que os colegas se distraem com dispositivos digitais durante a maioria ou todas as aulas de Ciências. Esses alunos tiveram, em média, 19 pontos a menos na avaliação de Ciências, mesmo quando foram consideradas as diferenças socioeconômicas. Na OCDE, a diferença foi de 11 pontos.
Isso não prova que o celular tenha causado sozinho essa perda. O PISA mostra relações entre fatores, mas não consegue determinar uma causa direta. Escolas, alunos e condições de ensino também são diferentes.
O relatório traz outro dado importante: nos países da OCDE, estudantes de escolas que proíbem celulares têm cerca de 13% menos chance de relatar distração digital. Mas a proibição não está claramente ligada a notas mais altas. Em muitos países, alunos de escolas com essa regra tiveram desempenho parecido ou até pior que os demais.
Um das conclusões é clara: proibir o celular pode ajudar a reduzir distrações, mas não basta para melhorar a aprendizagem nem para elevar o Brasil no ranking do PISA.
O PISA também mostra que não faz sentido tratar todo tempo de tela da mesma forma.Nos países da OCDE, os estudantes passam cerca de seis horas por dia usando dispositivos digitais durante a semana. Desse total, aproximadamente 3,4 horas são dedicadas ao lazer.
O efeito sobre o desempenho depende do objetivo do uso.
O uso moderado de dispositivos para aprender na escola está associado a resultados melhores em Ciências do que não usar tecnologia ou usá-la em excesso. Já o uso para lazer durante a escola tem relação negativa com o desempenho quando passa de cerca de uma hora por dia.
No Brasil, os estudantes relatam usar dispositivos, em média, 1,3 hora por dia para aprender e uma hora para lazer dentro da escola.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas “quanto tempo os alunos passam diante de uma tela?”. É preciso perguntar:
Usar um computador para simular um experimento científico é diferente de interromper a aula para ver vídeos, trocar mensagens ou acessar redes sociais. Os dois casos envolvem tela, mas têm efeitos muito diferentes.
Os dados do Brasil mostram que não se deve colocar toda a responsabilidade pelo desempenho dos alunos na tecnologia. Em 2025, apenas 48% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível básico em Ciências. Na OCDE, foram 74%. Em Matemática, o Brasil teve 28%, contra 65% na OCDE. Em Leitura, 49%, contra 69%.
A desigualdade também continua alta. A diferença entre os estudantes mais ricos e os mais pobres foi de 96 pontos em Ciências. Na média da OCDE, foi de 85 pontos. No Brasil, essa diferença aumentou entre 2015 e 2025.
O celular pode atrapalhar a atenção. Mas proibi-lo não resolve problemas como defasagem de aprendizagem, desigualdade social, falta de estrutura ou baixa qualidade das aulas.
A principal mensagem do novo PISA é as escolas precisam controlar o uso da tecnologia, mas também precisam aprender a usá-la quando ela pode melhorar o ensino.