Carne bovina: Em 2025, o Brasil embarcou cerca de 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 3 de julho de 2026 às 06h05.
O avanço das canetas emagrecedoras deve mudar não apenas a forma como os brasileiros comem, mas também a dinâmica do mercado de carne bovina. Medicamentos da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, tendem a reduzir o consumo total de alimentos, mas podem abrir espaço para um mercado com menor volume e maior valor agregado. A avaliação é do Itaú BBA, em relatório divulgado nesta quinta-feira, 2.
Segundo o banco, o mercado desses medicamentos pode saltar de R$ 10 bilhões em 2025 para cerca de R$ 50 bilhões até 2030, impulsionado pela ampliação do acesso e pela queda da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic. Hoje, o alto custo ainda limita o uso a uma base estimada entre 1,5 milhão e 2 milhões de brasileiros.
"Os efeitos tendem a ganhar escala, trazendo implicações estruturais para o sistema alimentar como um todo", diz o banco.
Em junho deste ano, a farmacêutica EMS lançou o Ozivy, primeira versão nacional do princípio ativo do Ozempic. O medicamento foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após o vencimento da patente da semaglutida no Brasil e passou a ser comercializado em canetas injetáveis, com venda condicionada à apresentação de receita médica.
A mudança preocupa o setor de alimentos porque o GLP-1 aumenta a sensação de saciedade, reduz o apetite e auxilia no controle do peso corporal. Na prática, isso pode significar menos comida no prato. Mas, para a carne bovina, o efeito tende a ser mais complexo.
"O movimento não se resume a uma simples contração da demanda, mas envolve uma mudança em sua composição", diz César de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do banco no relatório.
A menor ingestão calórica deve vir acompanhada de maior atenção à qualidade nutricional da dieta, especialmente à ingestão de proteínas.
Nesse cenário, diz o Itaú, a carne bovina pode perder volume, mas ganhar valor. O banco vê sinais de uma mudança para o padrão de consumo de “menos volume e maior valor”, com porções menores, maior foco em qualidade e espaço para cortes premium e produtos de maior valor agregado.
“Proteínas de alta densidade nutricional, como a carne bovina, tendem a manter sua relevância na dieta, ainda que em volumes potencialmente menores”, afirma o relatório.
Para o setor, isso significa que o avanço do GLP-1 não é, ao menos por enquanto, um vetor claramente negativo. O impacto deve ser mais estrutural: menor crescimento do consumo per capita, mas maior valorização relativa de produtos de qualidade.
Apesar das discussões sobre o impacto das canetas emagrecedoras, a expectativa do Itaú BBA é de que o consumo de carne bovina continue crescendo em 2026. O banco projeta uma demanda doméstica de 7,331 milhões de toneladas, alta de 6,6% em relação a 2025 e o maior volume da série apresentada.
O avanço é favorecido pelo aumento da oferta no mercado interno. A produção brasileira deve alcançar 11,214 milhões de toneladas, crescimento de 1% sobre 2025. Ao mesmo tempo, as exportações devem recuar 8%, para 3,927 milhões de toneladas, elevando a disponibilidade de carne para o consumidor brasileiro.
Com isso, o consumo per capita deve subir de 32,2 kg para 34,4 kg por habitante ao ano, um crescimento de 6,6% e o maior patamar desde pelo menos 2020.
O pano de fundo também importa. O Itaú BBA avalia que, em 2026, pode haver maior disponibilidade de carne bovina no mercado doméstico, reflexo de exportações menores para a China e manutenção da produção — essa concentração deve ocorrer principalmente no segundo semestre.
No caso da China a questão é mais complexa. Segundo o Itaú BBA, a manutenção da tarifa de 55% imposta pelo país asiático sobre a carne bovina brasileira após o preenchimento da cota de 1,1 milhão de toneladas deve reduzir significativamente os embarques no segundo semestre de 2026.
No momento em que o relatório foi elaborado, no fim de junho, Pequim ainda não havia sinalizado qualquer mudança na política tarifária. A expectativa do banco — e do setor — é de que a cota seja totalmente preenchida entre julho e agosto, tornando a tarifa altamente restritiva para novas exportações ao longo de quatro a cinco meses.
Ao mesmo tempo, o banco vê um cenário mais construtivo para os preços do boi gordo nos anos seguintes, diante da perspectiva de moderação da oferta, típica das fases iniciais de retenção de fêmeas.
“Caso o El Niño não provoque distúrbios relevantes na produção brasileira, a expectativa do banco é de continuidade de um ambiente de margens apertadas”, diz o relatório.
Para os pecuaristas, a recomendação é de atenção ao risco de preços, especialmente para animais que serão comercializados no terceiro trimestre. O Itaú BBA diz que a relação entre arroba e milho ainda pode abrir oportunidades de hedge.