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El Niño pode levar 49 milhões de pessoas à fome aguda, diz ONU

Fenômeno climático deve agravar a insegurança alimentar em 45 países até o fim de 2027; América Central e sul da África estão entre as regiões mais afetadas

El Niño: fenômeno climático levará a secas e enchentes, que afetarão a produção agrícola mundial (AFP Photo)

El Niño: fenômeno climático levará a secas e enchentes, que afetarão a produção agrícola mundial (AFP Photo)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 5 de agosto de 2026 às 14h50.

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O fortalecimento do El Niño poderá empurrar 49 milhões de pessoas para a fome aguda até o fim de 2027, alertou nesta quarta-feira, 5, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP, na sigla em inglês). Segundo a agência da ONU, o fenômeno climático deve agravar a situação de comunidades já afetadas por pobreza, conflitos, desemprego e eventos climáticos extremos.

Com esse avanço, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda pode subir de 225 milhões para 274 milhões em 45 países considerados altamente vulneráveis, um aumento de aproximadamente 22%.

O alerta está relacionado aos efeitos do El Niño sobre o clima global. O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico altera o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do planeta, provocando secas, enchentes, ondas de calor e perdas de safra. Com menor produção agrícola e dificuldade para manter rebanhos e colheitas, a oferta de alimentos diminui e os preços tendem a subir, agravando a situação de países que já enfrentam pobreza, conflitos e insegurança alimentar.

O WFP já ampliou seus planos de resposta em oito países e, em parceria com outras agências da ONU, intensifica ações preventivas para reduzir os impactos de secas, enchentes e tempestades antes que eles provoquem crises humanitárias.

Fenômeno pode ser mais severo que o de 2015

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, capaz de alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

A probabilidade de um novo El Niño em 2026 supera 90%, com possibilidade de um episódio de forte intensidade e efeitos prolongados até 2027.

Segundo o WFP, o El Niño de 2015-2016 afetou entre 60 milhões e 100 milhões de pessoas em todo o mundo. As projeções atuais indicam que o ciclo de 2026-2027 poderá provocar um novo agravamento da fome, especialmente em países que já enfrentam dificuldades estruturais.

A agência destaca que o pico do fenômeno é esperado entre setembro e dezembro de 2026, mas seus impactos devem continuar sendo sentidos ao longo de 2027, principalmente devido às perdas nas próximas safras agrícolas.

América Latina e África concentram maior risco

Entre as regiões mais afetadas, a América Latina e o Caribe podem registrar um dos maiores aumentos da insegurança alimentar, com mais de 16 milhões de pessoas entrando em situação de fome aguda.

A América Central deverá apresentar o maior crescimento proporcional entre todas as regiões analisadas, com alta estimada de 83,1%.

Já a África Oriental e Austral poderá registrar a deterioração da segurança alimentar para mais de 18 milhões de pessoas, crescimento de cerca de 26%. Segundo o WFP, muitos países do sul africano dependem da agricultura de subsistência alimentada pelas chuvas, tornando-se especialmente vulneráveis às secas.

Na Ásia e no Pacífico, a expectativa é de que 8,2 milhões de pessoas adicionais enfrentem fome aguda, enquanto a África Ocidental e Central poderá registrar quase 6 milhões de novos casos, aumento de aproximadamente 12%.

Secas, enchentes e calor extremo já afetam comunidades

O WFP ressalta que os impactos do El Niño não ocorrem de forma uniforme. Enquanto alguns países já enfrentam chuvas abaixo da média, enchentes e temperaturas excepcionalmente elevadas, outros deverão sentir os efeitos durante as próximas temporadas de plantio e colheita.

A intensificação do El Niño preocupa a produção agrícola mundial, podendo ampliar secas em regiões estratégicas para a produção de alimentos e aumentar o risco de perdas de safra.

No Brasil, o governo federal já anunciou um plano de R$ 1,3 bilhão para enfrentar os efeitos do fenômeno, incluindo ações para proteger a agricultura, reforçar os estoques públicos de alimentos e ampliar medidas de prevenção a desastres climáticos.

Investimento antecipado reduz perdas

O Programa Mundial de Alimentos afirma que agir antes da chegada dos eventos extremos reduz significativamente os custos humanitários.

Desde maio, a agência ativou planos de ação antecipada no Sudão do Sul, Chade, Mauritânia, Uganda, Guatemala e El Salvador, destinando mais de US$ 14 milhões para apoiar cerca de 500 mil pessoas por meio de mecanismos como seguros contra desastres, crédito e pagamentos digitais.

Segundo o WFP, experiências anteriores mostram que cada US$ 1 investido em prevenção pode economizar entre US$ 3 e US$ 7 em perdas evitadas e custos futuros de resposta humanitária.

O organismo também fez um novo apelo, em conjunto com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), para ampliar os recursos destinados às comunidades mais vulneráveis antes que os efeitos do El Niño se intensifiquem.

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