Presidente dos EUA, Donald Trump: “A fim de romper esse poderoso monopólio, cuja propriedade em grande parte está baseada fora dos EUA, estou autorizando a elaboração de documentos legais para permitir que fazendeiros e pecuaristas tenham o direito de processar sua própria comida", disse o republicano. (AFP)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 10h31.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve anunciar nesta segunda-feira, 31, medidas para apoiar o setor pecuário americano. A iniciativa ocorre em meio à disparada dos preços da carne bovina e à aproximação das eleições de meio de mandato (midterms). Trump afirma que existe um “monopólio” no processamento de carne no país.
Nos EUA, o setor é dominado por quatro grandes empresas — JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef — que, juntas, controlam cerca de 85% do mercado. Duas delas têm ligação com o Brasil: a JBS, de origem brasileira, e a National Beef, controlada pela MBRF.
Segundo Brooke Rollins, secretária do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), entre as medidas anunciadas devem estar a redução da burocracia no processamento, a ampliação da capacidade dos fazendeiros de venderem entre estados, o aumento do apoio a pequenos processadores, com financiamento e desregulamentação, entre outras.
“O mundo está com fome de carne bovina americana!", disse Rollins em sua conta no X (ex-Twitter).
No caso da carne, os preços acumulam sucessivos recordes de alta. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país.
“A fim de romper esse poderoso monopólio, cuja propriedade em grande parte está baseada fora dos EUA, estou autorizando a elaboração de documentos legais para permitir que fazendeiros e pecuaristas tenham o direito de processar sua própria produção”, disse Trump na TruthSocial na sexta-feira, 28.
A alta da carne bovina é resultado de uma combinação de fatores de oferta e demanda. Trump, porém, atribui parte do problema à concentração do processamento nas mãos dos grandes frigoríficos.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho bovino total do país atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA.
O problema para Trump é que a crise não está apenas nos frigoríficos. Há menos gado disponível para abate, o que reduz a oferta de carne e mantém os preços elevados.
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem. Como consequência, muitos produtores venderam parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com a queda, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção de carne bovina.
As restrições sanitárias às importações de gado do México, um dos principais fornecedores americanos, também aumentaram a pressão sobre a oferta. A medida foi adotada após o avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que ameaça a pecuária da região.
A menor oferta doméstica também aumenta a dependência americana do mercado externo. O USDA projeta que os Estados Unidos importem 2,78 milhões de toneladas de carne bovina em 2026, alta de 14% em relação ao ano anterior. Só no primeiro semestre, as compras externas somaram cerca de 1,5 milhão de toneladas, avanço de 12%.
O Brasil, porém, perdeu espaço nesse mercado. As compras americanas de carne brasileira recuaram 3%, para aproximadamente 325 mil toneladas, fazendo a participação do país nas importações dos EUA cair de 25% para 22% na comparação com o mesmo período de 2025.
Ainda assim, o Brasil segue como o maior fornecedor individual, à frente da Austrália, que ampliou suas vendas em 17% no período.
Na semana passada, Trump anunciou a ampliação em 300 mil toneladas da cota de importação de carne bovina dos EUA, em uma tentativa de reduzir os preços no país.
A alta dos preços dos alimentos também ganhou peso político com a aproximação das eleições de meio de mandato, previstas para novembro.
Uma pesquisa da Universidade de Illinois e da Universidade Purdue mostra que o custo de vida está entre as principais preocupações dos eleitores americanos, independentemente da preferência partidária.
O levantamento, realizado com cerca de 1.000 adultos, aponta que mais de 40% dos entrevistados de todos os grupos políticos consideram que a posição de um candidato sobre a acessibilidade dos alimentos pode influenciar fortemente seu voto.
A economia e a inflação receberam notas entre 7,7 e 8,5, em uma escala de 0 a 10, quando os participantes avaliaram seu peso nas decisões eleitorais.
A preocupação é especialmente relevante para Trump porque o preço da carne bovina está entre os alimentos que mais pressionam o orçamento das famílias.
Entre os democratas, 57,9% disseram que a posição dos candidatos sobre o preço dos alimentos influencia fortemente seu voto. O percentual foi de 40,9% entre republicanos e 44,3% entre independentes.
A pesquisa também mostra que os eleitores enxergam espaço para a política influenciar os preços dos alimentos, embora os independentes sejam mais céticos. Mais de 20% deles afirmam não acreditar que nenhum dos dois grandes partidos seja capaz de reduzir os preços.