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'Pecuaristas em 1º lugar': o plano de Trump para o setor da carne dos EUA

Governo americano quer recuperar rebanho, fortalecer pequenos frigoríficos e reduzir dependência dos grandes processadores

Carne bovina: Desde 2019, o número de bovinos de corte nos Estados Unidos caiu 13%, para 27,9 milhões de cabeças, e o rebanho total atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA.  (Montagem com elementos Canva)

Carne bovina: Desde 2019, o número de bovinos de corte nos Estados Unidos caiu 13%, para 27,9 milhões de cabeças, e o rebanho total atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA. (Montagem com elementos Canva)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 15h37.

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O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira, 31, um pacote de medidas para tentar reverter uma das maiores crises da pecuária americana em décadas. Com o rebanho bovino no menor nível em cerca de 75 anos e a carne em níveis recordes de preço, a administração de Donald Trump quer estimular a retenção de fêmeas, ampliar a participação de pequenos frigoríficos e reduzir a dependência dos grandes processadores.

Batizado de Ranchers First (“Pecuaristas em Primeiro Lugar”), o plano foi apresentado pela secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, e mira dois gargalos da cadeia da carne: a falta de animais para abate e a concentração do processamento em poucas empresas.

A iniciativa ocorre após Trump acusar os grandes frigoríficos de formar um “monopólio” no setor. Nos Estados Unidos, quatro empresas — JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef — concentram cerca de 85% do processamento de carne bovina.

“Estamos investindo recursos reais para reconstruir o grande rebanho bovino americano, reduzindo a burocracia que sufocou pequenos produtores e operadores independentes e exigindo transparência em um mercado que esteve concentrado e sob controle estrangeiro por tempo demais”, disse a secretária.

A principal frente do pacote está em incentivar produtores a manter mais novilhas no campo para reprodução. A estratégia, porém, tem um efeito colateral no curto prazo: reduz a quantidade de animais disponíveis para abate antes de ampliar a oferta futura de carne.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) pretende criar uma nova modalidade dentro do programa de proteção de risco pecuário Livestock Risk Protection (LRP), chamada Beef Retention and National Development (BRAND).

O mecanismo funcionará como uma proteção financeira para produtores que decidirem segurar novilhas para reprodução em vez de vendê-las aos frigoríficos. O anúncio não cita o valor dedicado aos pecuaristas.

A medida tenta acelerar a recuperação de um rebanho pressionado por anos de seca, custos elevados e redução da oferta de animais. Desde 2019, o número de bovinos de corte nos Estados Unidos caiu 13%, para 27,9 milhões de cabeças, e o rebanho total atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA.

A recomposição, no entanto, será lenta. Uma vaca precisa de tempo para entrar no ciclo reprodutivo e gerar novos bezerros, o que significa que a maior oferta de carne só deve aparecer depois de alguns anos.

Além de estimular a produção de gado, o governo americano quer ampliar a participação de frigoríficos independentes e regionais.

O USDA anunciou a expansão de programas de financiamento para pequenas unidades de processamento por meio do Strengthening Processing for U.S. Ranchers (SPUR). Os recursos poderão ser usados para ampliar empresas menores, criar cooperativas e diversificar a produção.

A estratégia responde à crítica de Trump sobre a concentração do setor. Para o republicano, a presença de poucos grandes processadores reduz a concorrência e prejudica produtores rurais.

O governo americano também pretende facilitar a venda de carne entre estados para pequenos processadores e reduzir barreiras regulatórias que, segundo a administração, dificultam a entrada de novos participantes no mercado.

O novo pacote dá continuidade a uma série de medidas anunciadas pelo governo americano desde o ano passado para fortalecer a indústria doméstica. Entre elas estão recursos para expansão da capacidade de processamento, apoio a frigoríficos regionais e redução de exigências regulatórias.

Mas o principal desafio continua sendo a oferta de animais. Mesmo com novos incentivos, a recuperação do rebanho depende de decisões tomadas dentro das fazendas e de um ciclo biológico que não pode ser acelerado.

"A ideia é estimular o crescimento do rebanho no longo prazo, mas isso demora. Então, a necessidade de momento vai permanecer. O que o Trump está tentando fazer é agradar o setor produtivo, os pecuaristas norte-americanos", diz Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercados.

Carne vira tema político nos EUA

A crise da carne ganhou peso político porque acontece em um momento de pressão sobre o consumidor americano. Desde 2020, os preços da carne bovina acumulam alta de 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.

A inflação dos alimentos tornou-se uma preocupação para eleitores americanos às vésperas das eleições de meio de mandato (midterms), previstas para novembro.

Além das medidas para o setor produtivo, Trump também anunciou a ampliação das importações de carne bovina como uma tentativa de aumentar a oferta e reduzir os preços.

O movimento mostra o dilema da política americana para a carne: aumentar a produção interna exige tempo, enquanto o consumidor sente o impacto da alta dos preços agora.

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