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Por que a agropecuária deve perder força no 2º semestre

Produção de grãos e pecuária impulsionaram o setor no 2º tri, mas ciclo de colheitas reduz o impacto sobre a economia nos próximos meses, dizem analistas

Descarregamento de soja no Rio Grande do Sul: Diferentemente de setores industriais e de serviços, a atividade agrícola não ocorre de maneira uniforme ao longo do ano. (Silvio Avila/AFP/Getty Images)

Descarregamento de soja no Rio Grande do Sul: Diferentemente de setores industriais e de serviços, a atividade agrícola não ocorre de maneira uniforme ao longo do ano. (Silvio Avila/AFP/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 1 de setembro de 2026 às 11h15.

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O PIB da agropecuária cresceu 2,8% no segundo trimestre de 2026, ajudando a sustentar a alta de 0,5% da economia. No segundo semestre, porém, o setor deve perder força com o fim do período de colheitas, avaliam economistas ouvidos pela EXAME.

Para Felippe Serigatti, coordenador do FGV Agro, o resultado do campo foi determinante para que o PIB ficasse próximo do limite superior das projeções.

“Se diversos setores desaceleraram mais do que no primeiro trimestre ou chegaram até mesmo a uma contração, de onde veio esse crescimento pelo lado da oferta no topo das expectativas? Justamente na agropecuária”, afirma.

O desempenho foi favorecido pela produção agrícola e pela pecuária. Entre as lavouras, soja e café tiveram destaque e ajudaram a compensar quedas em culturas como arroz, algodão e milho. Os abates de animais também contribuíram para o resultado.

Antônio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, considera que o desempenho do setor foi a principal surpresa positiva do PIB. O banco esperava uma expansão mais modesta para a agropecuária.

“A gente teve um excelente desempenho do agro, variando quase 3% na passagem de um trimestre para o outro, enquanto nossa expectativa era de uma variação mais tímida”, afirma.

O avanço ganha ainda mais relevância diante do desempenho dos demais setores. Serviços cresceram 0,2% no trimestre e a indústria, 0,1%, enquanto a indústria de transformação recuou 0,4%.

Apesar da força do resultado, economistas recomendam cautela ao interpretar o crescimento trimestral da agropecuária. Para Celso Toledo, economista e diretor da E2, a divisão do desempenho do setor entre os trimestres tem limitações.

“O fato de ter sido ‘puxado pela agropecuária’ me parece ser menos relevante. A atividade da agropecuária é anual. A divisão trimestral e ainda por cima ajustada para a sazonalidade é algo que costuma gerar surpresas, mas com pouca significância econômica”, afirma.

A explicação está no próprio ciclo da produção rural. Diferentemente de setores industriais e de serviços, a atividade agrícola não ocorre de maneira uniforme ao longo do ano. A colheita concentra boa parte da produção em determinados períodos e influencia diretamente o resultado trimestral do PIB.

Segundo Serigatti, a maior parte da safra de verão é colhida no primeiro trimestre, enquanto uma parcela relevante da segunda safra chega ao campo no segundo trimestre.

“A principal safra a gente colhe no primeiro trimestre. A maior fração da nossa segunda safra a gente colhe no segundo trimestre”, explica.

Isso ajuda a entender por que a contribuição do agro para o PIB tende a ser menor na segunda metade do ano. O plantio ganha importância nesse período, mas o PIB contabiliza a produção colhida.

“O principal ponto que nós temos no segundo semestre é justamente o plantio, ou seja, a preparação daquilo que a gente vai colher no ano que vem. Como PIB é volume produzido, o que entra no cálculo é o que foi colhido, não o plantio”, diz Serigatti.

Agro no 2º semestre

A expectativa é de que a agropecuária continue contribuindo para a economia, mas com menos intensidade nos próximos trimestres.

A própria composição do resultado do segundo trimestre reforça essa perspectiva. Enquanto o agro avançou 2,8%, os serviços e a indústria tiveram crescimento bastante mais modesto.

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o desempenho do campo ajudou novamente a sustentar o PIB, mas não muda a tendência geral de desaceleração da economia.

“Em boa parte, de fato, a agropecuária mais uma vez carregou o resultado do PIB nas costas”, afirma.

A avaliação de Agostini é de que a atividade deve perder força no segundo semestre, principalmente em razão dos efeitos dos juros elevados sobre o consumo e o investimento.

Ricciardi também espera uma desaceleração gradual. Segundo ele, os componentes mais sensíveis à política monetária já mostram sinais mais claros de enfraquecimento, enquanto a contribuição do agro tende a ser menor.

O Daycoval trabalha, por enquanto, com crescimento de 0,15% a 0,2% para o PIB no segundo semestre, embora a projeção ainda esteja sujeita a revisão. O banco elevou sua estimativa para o crescimento da economia em 2026 de 1,7% para 1,8%.

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