Café brasileiro: chuvas intensas prejudicaram a qualidade dos grãos e pressionaram os preços do arábica (Joshua Trujillo/Starbucks/Divulgação)
Repórter
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 06h59.
As chuvas intensas que atingiram as principais regiões produtoras de café do Brasil estão afetando a qualidade dos grãos e podem dificultar o abastecimento de café arábica premium usado por grandes marcas como Starbucks, Lavazza e Illy.
O problema ocorre mesmo com a expectativa de uma safra brasileira volumosa neste ano.
O excesso de chuva durante a colheita derrubou frutos maduros dos pés e deixou parte do café em contato com o solo encharcado, aumentando o risco de fermentação e outros problemas de qualidade, segundo a Bloomberg.
No Cerrado Mineiro, uma das principais regiões produtoras do país, as chuvas de junho atingiram as lavouras no início da colheita. Segundo Simão de Lima, presidente da cooperativa Expocacer à Bloomberg, cerca de 20% dos frutos foram derrubados pelas chuvas, ante uma média de 5% a 7% em um ano normal.
O problema continuou em julho, quando uma nova onda de precipitações atingiu os grãos que já estavam sendo secos. Alguns produtores precisaram reiniciar o processo, dificultando o controle da umidade e das características responsáveis pelo sabor e pelo aroma do arábica.
Em algumas áreas do cinturão cafeeiro brasileiro, o volume de chuva entre junho e julho chegou a até cinco vezes o normal, segundo dados da empresa de previsão meteorológica Vaisala citados pelo site.
O Brasil responde por cerca de 45% da produção mundial de café arábica, variedade valorizada por seu sabor mais suave e aromático. Por isso, problemas de qualidade em uma safra brasileira podem repercutir no mercado internacional, principalmente entre compradores que disputam os lotes considerados mais sofisticados.
O impacto não significa que Starbucks e outras grandes torrefadoras ficarão sem café. Essas empresas podem combinar grãos de diferentes origens e qualidades ou repassar parte do aumento dos custos aos consumidores. A questão é que a disponibilidade dos melhores grãos brasileiros tende a ficar mais restrita.
Na cooperativa Expocacer, a estimativa é que a parcela da produção capaz de atender aos padrões de qualidade da bolsa de Nova York caia de uma faixa normalmente entre 30% e 35% para cerca de 10% a 15% neste ano.
A preocupação com a qualidade ocorre em um mercado que já enfrenta estoques apertados. Os contratos futuros de café arábica acumulam alta de cerca de 35% desde junho, recuperando grande parte das perdas registradas no primeiro semestre, segundo dados citados pela Bloomberg.
Os cafés finos brasileiros também passaram a ser negociados com prêmio de até US$ 0,15 por libra em relação aos contratos futuros de Nova York, de acordo com operadores ouvidos pela publicação.
Os estoques certificados em armazéns da Intercontinental Exchange (ICE), referência para o mercado internacional, também estão próximos dos menores níveis deste século. A menor entrada de cafés de alta qualidade pode dificultar ainda mais a recomposição desses estoques.
A situação ocorre em um momento paradoxal para o mercado brasileiro. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta uma safra recorde no Brasil e um excedente global de cerca de 10 milhões de sacas na temporada que começa em outubro.
O aumento da produção, porém, não significa necessariamente maior oferta de café premium. As chuvas podem reduzir justamente a parcela dos grãos que atende aos padrões exigidos por compradores especializados.
Para o consumidor, o efeito pode aparecer principalmente nos cafés de maior qualidade. As grandes torrefadoras têm mais alternativas para administrar os custos, mas uma oferta menor de arábica premium brasileiro pode aumentar a disputa pelos melhores grãos e pressionar os preços ao longo da cadeia.