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Carne dispara 75% nos EUA, frigoríficos fecham e Trump vai importar mais

Com rebanho no menor nível desde 1952 e preços em alta, governo libera 300 mil toneladas sem tarifa extra por 90 dias

Carne bovina: desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano. (Freepik)

Carne bovina: desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 21 de agosto de 2026 às 12h02.

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A escalada dos preços da strong carne bovina nos Estados Unidos levou o presidente Donald Trump a recorrer às importações para tentar aliviar o bolso dos consumidores. Nesta sexta-feira, 21, o republicano anunciou a suspensão temporária de tarifas para parte das compras externas de carne destinada à produção de carne moída.

Pelos próximos 90 dias, os EUA permitirão a entrada de até 300 mil toneladas da proteína sem a aplicação de tarifas sobre volumes que excedam as cotas atuais, segundo Trump.

“Hoje, concluí um acordo para reduzir substancialmente o preço da carne moída para as famílias trabalhadoras americanas”, disse o presidente na Truth Social. “Temos o compromisso de que essa carne será vendida a 25% abaixo dos valores atuais de mercado”, acrescentou.

Trump, porém, não informou quais países poderão fornecer a carne dentro das novas condições nem detalhou quem participa do acordo anunciado.

O anúncio ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos Estados Unidos, marcado pela menor disponibilidade de animais, aumento dos custos e margens apertadas.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos EUA atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

As restrições sanitárias impostas às importações de gado do México, um dos principais fornecedores dos Estados Unidos, em razão do avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, adicionaram pressão à disponibilidade de animais no país.

O resultado é alta nos preços da carne bovina. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.

A situação fez a Tyson Foods, um dos principais frigoríficos dos EUA, a fechar unidades no país. Além dela, JBS e Cargill encerraram operações em unidades nos Estados Unidos em 2025, em um movimento interpretado por analistas como sinal de que as condições da indústria são ainda mais difíceis do que o esperado.

Crise da carne nos EUA

A abertura temporária acontece em meio a outras iniciativas adotadas pelo governo americano para colocar mais produto no mercado doméstico. Entre elas estão a ampliação das importações de carne da Argentina e a retomada dos embarques de gado vivo provenientes do México.

O novo anúncio também pode abrir uma oportunidade para frigoríficos brasileiros, embora ainda não esteja claro se o Brasil será contemplado pelas novas condições.

Entre janeiro e julho, os americanos importaram 233,8 mil toneladas do produto brasileiro, volume 17,1% superior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

No total, o Brasil exportou 1,969 milhão de toneladas de carne bovina nos primeiros sete meses do ano, crescimento de 9,9% na comparação anual. A receita alcançou US$ 11,43 bilhões, avanço de 28,3%.

Após a publicação de Trump, a informou que ainda não havia recebido informações oficiais sobre a implementação da medida. Segundo a Abiec, o setor ainda trata com cautela a decisão do republicano.

A entidade afirmou não ter detalhes sobre os volumes, os critérios de distribuição ou os países que poderão utilizar a nova cota.

“Uma eventual ampliação da cota tarifária pode beneficiar o Brasil”, afirmou a Abiec em nota.

Atualmente, o Brasil participa de uma cota de importação compartilhada com outros fornecedores dos Estados Unidos. Segundo a Abiec, esse volume costuma ser preenchido já nas primeiras semanas do ano.

Isso não impede que a carne brasileira continue entrando no país. A diferença aparece no preço uma vez que depois de esgotada a cota, as exportações seguem normalmente, mas ficam sujeitas a uma tarifa extra-cota de 26,4%.

É justamente aí que o anúncio de Trump ganha importância para os frigoríficos brasileiros. Caso o Brasil esteja entre os fornecedores contemplados, uma parcela maior das exportações poderia entrar no mercado americano sem esse custo adicional.

“Por isso, qualquer ampliação que contemple o Brasil pode representar uma melhora nas condições de acesso da carne bovina brasileira ao mercado norte-americano”, afirmou a Abiec.

A oportunidade para o Brasil, portanto, depende de uma informação que Washington ainda não revelou: quem terá direito a fornecer as 300 mil toneladas anunciadas por Trump.

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