Colheita de algodão em Sapezal, em Mato Grosso: a leitura do banco é de que o ciclo de preços baixos, que pressionou produtores de grãos e fibras ao redor do mundo, começa a produzir sua própria reação. (Scheffer/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 10h43.
Durante os últimos três anos, a SLC Agrícola fez uma aposta que exigia paciência. Enquanto soja e algodão perdiam valor e as margens do setor agrícola encolhiam, a companhia seguiu aumentando a área cultivada.
Agora, na avaliação do BTG Pactual, o mercado de commodities começa a dar os primeiros sinais de que essa estratégia pode começar a se pagar.
A leitura do banco é de que o ciclo de preços baixos, que pressionou produtores de grãos e fibras ao redor do mundo, começa a produzir sua própria reação. Com menos incentivo econômico para plantar, a oferta perde força justamente quando os estoques globais caminham para baixo.
“Depois de quase quatro anos de preços baixos, começamos a ver escassez de oferta em fibras e grãos, à medida que a falta de incentivo de preços reduz a área plantada”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, em relatório divulgado nesta sexta-feira, 21.
Nas estimativas do Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês), a produção mundial de grãos deve cair 2,7% na safra 2026/27, quede de 69 milhões de toneladas, puxada por milho e trigo.
Nos Estados Unidos e na Índia, dois dos grandes produtores mundiais de algodão, a área destinada à cultura diminuiu 32% e 11%, respectivamente, em relação aos picos registrados em 2022, segundo os dados citados pelo BTG.
No Brasil, o banco acredita que a a área plantada com soja pode ficar praticamente estável depois de três décadas de expansão. Nas estimativas da Hedgepoint Markets Global, a área plantada com a oleaginosa deve crescer apenas 0,9%, enquanto a produção brasileira de soja deve aumentar 0,1% em relação à temporada 2025/26.
O efeito desse movimento começa a aparecer nos balanços globais. Pelas projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os estoques finais da safra 2026/2027 devem cair nas principais culturas analisadas. No milho, a retração projetada é de 8,1%; no algodão, de 6,8%; no trigo, de 2,5%; e na soja, de 0,7%.
A relação entre estoques e consumo também diminui. No caso do algodão, o indicador projetado recua de 61,9% para 56,7%. Para o milho, passa de 22,5% para 20,8%. É esse estreitamento entre oferta e demanda que sustenta boa parte da tese de recuperação dos preços.
“Acreditamos que as commodities agrícolas podem se fortalecer ainda mais a partir daqui. A inércia da oferta que provocou anos de excesso de produção e preços mais baixos finalmente parece estar se revertendo e impulsionando um novo ciclo de preços mais altos”, afirmam os analistas.
É nesse cenário que a SLC aparece como uma espécie de estudo de caso da tese do BTG. Em três anos, a companhia aumentou sua área plantada em 23%, adicionando 158 mil hectares à operação — uma expansão equivalente, segundo o banco, a praticamente toda a área cultivada atualmente pela BrasilAgro.
O crescimento, porém, coincidiu com uma deterioração dos preços. No mesmo intervalo, os preços realizados pela SLC caíram 7% no algodão e 22% na soja. A combinação impediu que o aumento de escala aparecesse de forma mais clara nos resultados.
O EBITDA permaneceu praticamente estável no período, enquanto a margem caiu de 37,5%, em 2023, para uma estimativa de 28,5% em 2026.
“A estratégia contracíclica de alocação de capital da SLC, que envolve investir para crescer quando os preços estão baixos, só dá frutos quando os preços se recuperam, destravando todo o potencial da maior base de ativos. Acreditamos que estamos agora às vésperas desse momento”, dizem os analistas.
A tese do BTG é de que a SLC passou os anos de baixa construindo capacidade e pode entrar no próximo ciclo de preços com uma operação significativamente maior.
A estratégia segue uma lógica conhecida no setor agrícola que é a de investir quando os retornos estão deprimidos, na expectativa de capturar o ganho operacional quando os preços se recuperarem. Para o banco, esse momento pode estar se aproximando.
Em 2027, o BTG espera que a margem volte a crescer pela primeira vez em três anos. Nas projeções comparáveis apresentadas pelo banco, o EBITDA ex-IFRS 16 deve alcançar R$ 2,95 bilhões, alta de 17,8% sobre a estimativa anterior. O lucro líquido estimado passou de R$ 334 milhões para R$ 763 milhões, revisão de 128,3%.
O banco também está mais otimista do que o mercado. Sua estimativa de EBITDA para 2027 está 12,6% acima do consenso, enquanto a projeção de lucro supera em 24% a média das estimativas reunidas pela Refinitiv.
A mudança de ciclo, contudo, está longe de ser garantida diante da possibilidade de um super El Niño a partir de outubro no Brasil.
Projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) estima um fenômeno climático super forte a partir de setembro, período de plantio em alguns estados.“O El Niño é agora o maior risco para nossa tese”, afirmam Duarte e Guttilla.
A expectativa apresentada pelos analistas é de que o fenômeno climático alcance seu pico em novembro, justamente durante etapas importantes do plantio da primeira safra de soja e de algodão, e perca força apenas no segundo trimestre de 2027, período de desenvolvimento do algodão e do milho.
Os efeitos sobre a produtividade são difíceis de antecipar, mas, segundo os analistas, “historicamente têm sido mais negativos do que positivos” para a SLC.
A companhia, no entanto, aumentou investimentos em tecnologia e irrigação e hoje possui praticamente toda a sua área agricultável já desenvolvida, o que tende a reduzir parte da vulnerabilidade das lavouras.
No mercado financeiro, a leitura do BTG se traduz em uma recomendação de compra para a SLC. O banco estabeleceu preço-alvo de R$ 23 para os próximos 12 meses, ante R$ 15,15 usados como referência no relatório, potencial de valorização próximo de 52%.