EXAME Agro

El Niño cria mapa desigual de riscos para a agricultura brasileira

Fenômeno deve afetar de forma desigual as regiões produtoras, pressionar commodities e ampliar os riscos para soja, milho, café e arroz.

Carlos Cogo, sócio diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio (Eduardo Frazão/Divulgação)

Carlos Cogo, sócio diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio (Eduardo Frazão/Divulgação)

Jiane Carvalho
Jiane Carvalho

Jornalista

Publicado em 12 de agosto de 2026 às 15h40.

O avanço de um El Niño de forte intensidade, previsto para ganhar força entre outubro e dezembro, coloca sob risco diferentes regiões produtoras e culturas agrícolas no Brasil e no mundo. No país, o fenômeno tende a provocar estiagem severa no Matopiba e no Norte, redução moderada das chuvas no Centro-Oeste e Sudeste e precipitações acima da média no Sul, criando impactos distintos sobre soja, milho, café, arroz, feijão e açúcar. Para Carlos Cogo, sócio-diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio, os efeitos podem se prolongar além do verão e alcançar o outono e o inverno, justamente porque o Brasil trabalha com duas e, em algumas regiões, três safras por ano.

Durante participação no evento SuperAgro 2026, promovido pela Exame, Cogo lembrou que tecnicamente o fenômeno El Niño é caracterizado pelo superaquecimento das águas do Pacífico persistindo por mais de três trimestres consecutivos. “O El Niño começou em julho e deve avançar nos meses seguintes. Entre outubro e dezembro, temos mais de 81% de probabilidade de estarmos sob efeito do fenômeno”, afirmou.

O principal ponto de atenção no Brasil está na distribuição regional das chuvas. Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que formam o Matopiba, além da região Norte, devem enfrentar os maiores riscos de seca. O norte de Mato Grosso também pode ser afetado, enquanto Centro-Oeste e Sudeste tendem a registrar redução moderada das precipitações. No Sul, o cenário é oposto, com possibilidade de chuvas acima da média — o que, entretanto, também pode prejudicar determinadas culturas.

“É desigual porque, quando prejudica uma área, acaba ajudando outra. O Brasil tem essa característica e, por isso, a perda total não costuma ser tão grande”, disse Cogo. No caso do arroz, por exemplo, o excesso de chuvas no Sul pode ser negativo, apesar de beneficiar outras atividades agrícolas.

Soja: metade da área sob risco

A soja é uma das culturas mais expostas ao fenômeno. O Centro-Oeste concentra 47% da área plantada, seguido pelo Sul, com 27%, e Matopiba, com 14%. Segundo Congo, entre 45% e 50% da área brasileira de soja pode ficar sob influência do El Niño. O histórico reforça a preocupação. No último El Niño intenso, registrado entre 2015 e 2016, a produção brasileira de soja caiu de 47,6 milhões para 30,2 milhões de toneladas. Apesar disso, Cogo ressalta que a previsão da safra de soja segue em 62,3 milhões de toneladas, sem estimar os efeitos do El Niño. “Não se estima quebra de safra, só após os efeitos do fenômeno é que contabilizamos.”

Um fator de proteção está nos estoques mundiais. Segundo o executivo, os estoques globais de soja são suficientes para cerca de 28% do consumo. “Com preços deprimidos e margens apertadas no Brasil, uma eventual redução da produção tende a ter impacto mais limitado sobre as cotações.”

Safrinha do milho

No milho, o risco é diferente e potencialmente mais abrangente. O Brasil responde por cerca de 11% da produção mundial e tem concentrado cada vez mais o cultivo na segunda safra, realizada durante o inverno. Um El Niño que atrase o plantio ou prejudique o desenvolvimento dessa lavoura pode levar à perda de produção para o ano seguinte.

No El Niño de 2015/16, a produção brasileira caiu para cerca de 41 milhões de toneladas, ante 55 milhões de toneladas na safra anterior. Diferentemente da soja, o que preocupa são os baixos estoques do milho neste momento. O mercado global de milho apresenta déficit, com consumo superior à produção e estoques em queda.

“Os problemas locais ficam mais intensos no milho porque temos um mercado mundial mais apertado”, afirmou Cogo. Segundo ele, o último El Niño intenso levou o preço da commodity a R$ 110 a saca (preços deflacionados). Hoje, a cotação está próxima de R$ 60 por saca. “Seria praticamente dobrar de preço, com impacto muito forte.”

Café, açúcar e arroz já sentem a precificação

Algumas commodities, no entanto, já começam a incorporar nos preços o risco climático representado pelo El Niño. O café é um dos casos mais preocupantes. O Brasil responde por cerca de 38% da produção mundial, enquanto o Sudeste Asiático — região que deve ser bastante afetada pelo clima — representa aproximadamente 26% e a Colômbia é o segundo maior produtor de café arábica.

“O café explodiu de preço em 2024 por causa de um El Niño muito mais fraco do que o esperado para este ano. Foi o mesmo processo”, disse Cogo. A cultura é particularmente vulnerável porque necessita de chuva e sol em momentos diferentes do ciclo. Além disso, os estoques mundiais estão em níveis historicamente baixos após os efeitos do último El Niño.

“O mundo nunca teve um estoque tão baixo de café. Foi destruído no El Niño passado e demora para recompor. Tudo indicava queda de preço, mas o El Niño virou o jogo. O preço já voltou a subir e está elevado novamente”, afirmou.

No açúcar, o movimento também já aparece nos mercados futuros. O Brasil é o maior exportador mundial e o mercado trabalha com perspectiva de déficit global, o que tem levado à alta das cotações em Nova York.

O arroz apresenta outra combinação de riscos. Cerca de 85% da produção mundial está concentrada na Ásia, onde a redução das chuvas de monções pode comprometer as lavouras. No Brasil, o Sul concentra a produção e o problema pode ser justamente o excesso de chuva. Segundo Cogo, a tonelada do arroz, que estava próxima de US$ 360, já avançou para cerca de US$ 500. Os estoques brasileiros, contudo, estão elevados e podem amortecer parte da pressão sobre os preços domésticos.

Fertilizantes podem ampliar o impacto

Além do clima, Carlos Cogo chama atenção para um segundo fator de risco: o custo dos insumos. A alta dos preços dos fertilizantes, em meio aos efeitos da guerra no Oriente Médio, pode levar os produtores brasileiros a reduzir as compras.

A expectativa da consultoria Cogo é de uma queda de 10% a 15% no consumo de fertilizantes, movimento semelhante ao observado após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Para Cogo, essa redução pode potencializar os efeitos de uma eventual adversidade climática. “A redução do uso de fertilizantes amplifica o poder destruidor do El Niño. É um dado a mais que preocupa a todos”, afirmou.

Apesar dos avanços em genética, conhecimento do genoma e tecnologias de produção, o executivo avalia que não há como eliminar ou prever com precisão o impacto de um fenômeno climático dessa magnitude. A estratégia sugerida, portanto, passa pela diversificação e pela redução da exposição. Entre as alternativas estão mudanças no espaçamento das lavouras e a combinação de culturas mais resistentes à falta de água. “Em vez de colocar tudo em soja, o produtor pode utilizar uma segunda cultura mais resistente, como o sorgo, que também é destinado à produção de ração”, explicou.

No café, a adaptação é mais complexa. A forte presença de pequenos produtores organizados em cooperativas permite acesso a orientação técnica, mas a própria característica da cultura limita as alternativas. “O café é difícil porque precisa de chuva e sol em momentos diferentes”, afirmou Congo.

Com o Brasil cultivando 83,8 milhões de hectares em primeira, segunda e terceira safras — dos quais cerca de 19 milhões são utilizados mais de uma vez no mesmo ano-safra —, o risco climático não se limita a uma única colheita. Para Congo, essa característica faz com que um El Niño iniciado no segundo semestre possa produzir efeitos que atravessam o verão e avançam pelo outono e inverno, ampliando a janela de incerteza para produtores, agroindústrias e consumidores.

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