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Juros altos e eleições 2026 dominam agenda da Agrishow neste ano

Em Ribeirão Preto, cenário doméstico pesa mais que guerra e expõe incertezas sobre juros e investimentos no agro

Agrishow 2026: a discussão sobre juros elevados e margens apertadas se intensificou desde o fim da safra 2023/24. Para a temporada 2026/27, que começa em 1º de julho, havia expectativa de algum alívio, mas a guerra no Irã deteriorou esse cenário. (Divulgação)

Agrishow 2026: a discussão sobre juros elevados e margens apertadas se intensificou desde o fim da safra 2023/24. Para a temporada 2026/27, que começa em 1º de julho, havia expectativa de algum alívio, mas a guerra no Irã deteriorou esse cenário. (Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 29 de abril de 2026 às 06h00.

Última atualização em 29 de abril de 2026 às 06h28.

RIBEIRÃO PRETO (SP) — Não poderia ser diferente: em um ano marcado por eleições presidenciais e com a taxa básica de juros, a Selic, ainda em dois dígitos, os dois temas dominam a agenda da 31ª edição da Agrishow, a maior feira agrícola da América Latina.

A guerra no Irã, que fez disparar os preços de fertilizantes e do diesel, também é citada, mas o cenário doméstico tem peso maior. A presença de pré-candidatos ao cargo mais alto do Executivo reforçou essa percepção — e chegou a pautar movimentos de pré-campanha.

Na visão de Luis Felli, head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da AGCO, os comunicados recentes do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central indicam incerteza sobre quando e em que magnitude os juros começarão a cair.

“No Brasil, por exemplo, a velocidade de queda da taxa de juros tem sido inferior ao que esperávamos. A expectativa era de uma redução mais rápida. Embora a queda tenha começado, ainda não há clareza sobre sua continuidade”, disse o executivo no estande da empresa na Agrishow.

A discussão sobre juros elevados e margens apertadas se intensificou desde o fim da safra 2023/24. Para a temporada 2026/27, que começa em 1º de julho, havia expectativa de algum alívio, mas a guerra no Irã deteriorou esse cenário.

Levantamento da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, indica que, no caso da soja — principal cultura do Brasil —, a margem do produtor pode ser a pior em 20 anos, mesmo diante da perspectiva de safra recorde.

Juros altos também dificultam o acesso ao financiamento de máquinas agrícolas. Como muitos produtores dependem de crédito para adquirir equipamentos, o custo mais elevado das parcelas torna a decisão de investimento mais difícil.

“O cenário mais desafiador hoje é o do produtor que tomou crédito atrelado ao CDI, com taxas adicionais elevadas. Há um descasamento: o dólar caiu, reduzindo a receita, enquanto os juros permanecem altos, pressionando o custo da dívida”, afirma Felli.

Após anos de expansão sustentada por crédito barato, o agronegócio enfrenta agora um período de ajuste. Com maior nível de endividamento, a tendência é de adiamento de investimentos, movimento reforçado pela perspectiva de juros elevados por mais tempo.

Esse ambiente já afeta a indústria. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) projeta queda de 8% nas vendas do setor em 2026, na comparação com 2025. No primeiro bimestre, as vendas recuaram 17% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Com isso, as empresas tiveram que se adaptar. “A taxa de juros é um dos principais determinantes da decisão de compra de equipamentos agrícolas”, diz Neto Colombo, COO das Indústrias Colombo.

Segundo ele, a dependência de financiamento torna o crédito caro um freio direto para o setor. “Os últimos anos de juros elevados contribuíram para a queda nas vendas de máquinas no país”, afirma.

Colombo diz que se trata de uma variável fora do controle das empresas. Diante disso, a estratégia tem sido buscar alternativas para sustentar a demanda. “Procuramos mitigar esse efeito por meio da inovação que levamos ao produtor”, diz.

No início de abril, em entrevista, o presidente da Abimaq, Pedro Estevão, afirmou que esse conjunto de fatores — agravado pela guerra no Oriente Médio — leva o setor a manter cautela e evitar a divulgação de estimativas de vendas durante a maior feira agrícola do país, que termina na sexta-feira, 1º.

Juros e as eleições

O debate sobre juros não ficou restrito aos executivos e ganhou espaço na agenda política, com a presença de pré-candidatos à Presidência no evento.

Na terça-feira, 28, o governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República, Romeu Zema (Novo), defendeu a redução da taxa básica de juros. Segundo ele, caso seja eleito, pretende cortá-la pela metade.

Zema afirmou que esse movimento poderia ocorrer entre seis e 12 meses após a implementação de cortes de gastos pelo governo federal.

“Vou atacar a gastança. Quando isso acontecer, como já vimos com o teto de gastos em 2016 e 2017, a taxa de juros cai pela metade em seis a 12 meses. Isso traz um alívio relevante para quem está endividado e para quem quer investir”, disse, em coletiva na Agrishow.

Na segunda-feira, 27, o senador e também pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), criticou o atual nível de juros, afirmando que ele desestimula a atividade produtiva e favorece aplicações financeiras.

“Com esse cenário, muitos deixam de investir na economia real e optam por aplicações que rendem 16% ou 17% ao ano, sem risco produtivo”, afirmou.

Assim como Zema, Flávio Bolsonaro defendeu que a redução de gastos públicos, em um eventual governo, abriria espaço para a queda dos juros e estimularia a retomada dos investimentos no país.

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