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O Brasil pode ter uma nova ameaça que vem da China — e a 'vítima' é o frango

Relatório do BTG aponta que o país asiático deixa de ser apenas grande comprador para se tornar concorrente do Brasil no mercado global da proteína

Carne de frango: o país asiático deve se tornar o terceiro maior exportador mundial, atrás apenas de Brasil e Estados Unidos. (Leandro Fonseca /Exame)

Carne de frango: o país asiático deve se tornar o terceiro maior exportador mundial, atrás apenas de Brasil e Estados Unidos. (Leandro Fonseca /Exame)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 21 de julho de 2026 às 06h02.

A China, historicamente conhecida como uma das maiores importadoras de alimentos do mundo, está consolidando uma nova posição no mercado global de proteínas: a de exportadora de carne de frango.

Segundo relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), o avanço da produção chinesa pode representar um risco estrutural para os exportadores brasileiros ao ampliar a concorrência internacional e pressionar os preços.

Os analistas lembram que, impulsionada pela rápida urbanização e pela expansão da classe média, a China passou, em menos de duas décadas, de exportadora líquida de carnes para a maior importadora mundial de proteínas.

Agora, porém, o movimento começa a se inverter também no segmento de frango.

"A China também está se tornando um importante player nas exportações de frango", afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual, no documento divulgado nesta segunda-feira, 20.

As estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam que as exportações chinesas de carne de frango cresceram 41% em 2025, para cerca de 1,1 milhão de toneladas, e devem alcançar 1,4 milhão de toneladas em 2026.

Com isso, o país asiático deve se tornar o terceiro maior exportador mundial, atrás apenas de Brasil e Estados Unidos.

Em menos de dez anos, a participação chinesa nas exportações globais de frango deve saltar de um patamar considerado pouco relevante para cerca de 9,5%, segundo o relatório.

O avanço das exportações é sustentado pelo crescimento da produção doméstica. Segundo o USDA, o país asiático já é o segundo maior produtor mundial de frango e deve elevar sua produção em 7% em 2026 e mais 5% em 2027, atingindo 17,3 milhões de toneladas.

Na avaliação dos analistas, o efeito mais imediato desse movimento é o aumento da oferta exportável, intensificando a concorrência e exercendo pressão sobre os preços internacionais da carne de frango.

"A implicação imediata é simples: mais oferta para exportação, mais concorrência e, mantidos os demais fatores constantes, pressão adicional sobre os preços globais do frango", afirmam os analistas.

No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras de carne de frango somaram 2,936 milhões toneladas, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2025. A receita cresceu 17%, atingindo US$  US$ 5,700 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Entre os principais destinos das exportações brasileiras em junho, a China manteve a liderança, com 50,1 mil toneladas embarcadas, alta de (+12,2 mil% em relação ao mesmo período do ano anterior). 

Brasil e a carne de frango

O relatório chama atenção especialmente para o mercado de peito de frango, principal corte exportado pelo Brasil nos últimos 12 meses e um dos que apresentam maior valor agregado. O peito de frango respondeu por 22% de todo o volume exportado pelo país no período.

Segundo o BTG, a China continua importando produtos de maior consumo interno, como pés de frango, enquanto amplia as exportações de cortes com menor demanda doméstica, entre eles justamente o peito de frango.

Os analistas observam que Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos figuram entre os principais destinos do peito de frango brasileiro e estão geograficamente mais próximos da China.

Caso o país continue expandindo sua produção e conquistando novos mercados, essa combinação pode representar um risco estrutural para a formação de preços das exportações brasileiras.

Se o país continuar expandindo sua produção e conquistando acesso a novos mercados, poderá se tornar um risco estrutural relevante para a precificação dos exportadores brasileiros de frango", afirmam Duarte e Guttilla no relatório.

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