EXAME Agro

Hoje é o pior cenário para o produtor, diz head global da Massey Ferguson

Para Luis Felli, o cenário atual expõe fragilidades estruturais que vão além do agro e atingem o equilíbrio energético global

"Atualmente, o ambiente é considerado o pior possível por muitos produtores. Diante disso, a reação tem sido interromper decisões", diz o executivo. (Massey Ferguson/Divulgação)

"Atualmente, o ambiente é considerado o pior possível por muitos produtores. Diante disso, a reação tem sido interromper decisões", diz o executivo. (Massey Ferguson/Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 28 de abril de 2026 às 06h00.

RIBEIRÃO PRETO — A combinação de juros elevados, guerra e incertezas globais interrompeu o ritmo de recuperação esperado para o agronegócio em 2026 e colocou produtores em um compasso de espera ao redor do mundo.

Com custos pressionados — especialmente por fertilizantes e diesel — e crédito mais caro, o setor enfrenta um dos momentos mais desafiadores do ciclo recente. No Brasil, a desaceleração já aparece nos números, com queda no mercado de máquinas agrícolas e maior cautela por parte dos produtores na hora de investir.

Para Luis Felli, head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da AGCO, o cenário atual expõe fragilidades estruturais que vão além do agro e atingem o equilíbrio energético global.

O grupo AGCO reúne as marcas Massey Ferguson, Fendt, Valtra e PTx, esta última voltada para o desenvolvimento tecnológico. No ano passado, o AGCO registrou lucro de US$ 726,5 milhões, revertendo o prejuízo de US$ 424,8 milhões reportado no ano anterior. A receita líquida recuou 13,5% no período, totalizando US$ 10,08 bilhões.

Segundo o executivo, o momento atual sintetiza o desalinhamento mais crítico do ciclo recente. “Hoje é o pior cenário possível para o produtor”, afirma. Na conversa, durante a Agrishow, Felli faz um alerta sobre o Brasil: o custo da dívida segue como principal entrave para o crescimento do setor.

Leia a entrevista completa:

Na feira de máquinas agrícolas em Hannover, na Alemanha, em novembro passado, você estava otimista. O que mudou de lá para cá?

Tínhamos, naquele momento, uma visão de início de recuperação dos mercados globais. No entanto, essa recuperação acabou atrasando um pouco. No Brasil, por exemplo, a velocidade de queda da taxa de juros tem sido inferior ao que esperávamos. A expectativa era de uma redução mais rápida. Embora a queda tenha começado, ainda não há clareza sobre sua continuidade ou se ela deve se estabilizar no patamar atual por mais tempo. Esse cenário acaba inibindo o consumo.

Mas no meio desse processo começou a guerra no Irã, certo?

A guerra também trouxe consequências relevantes. No curtíssimo prazo, gerou uma incerteza significativa. Os preços de nitrogênio e do óleo diesel subiram de forma expressiva em todo o mundo — e, no Brasil, não foi diferente. Diante disso, o agricultor passa a se questionar sobre o futuro. Essa apreensão faz com que ele adote medidas mais conservadoras, como adiar investimentos. As principais dúvidas hoje giram em torno de custos, acesso a financiamento e formação de preços nesse cenário. Atualmente, o ambiente é considerado o pior possível por muitos produtores. Diante disso, a reação tem sido interromper decisões: “vamos parar e esperar”. Esse comportamento já se reflete no mercado de máquinas agrícolas no Brasil, que registrou queda de 17% entre janeiro e fevereiro.

Mas esse sentimento é mais localizado?

Esse movimento não é exclusivo do Brasil. Na Europa, o clima também é de apreensão. Na Oceania, especialmente na Austrália, muitos agricultores já indicam que não irão plantar trigo, principal cultura de inverno no país. O motivo é a falta de fertilizantes e o início de sinais de escassez de óleo diesel, o que gera dúvidas sobre a capacidade de manter as operações. O cenário global, portanto, é de cautela. Predomina um compasso de espera, com produtores preferindo interromper decisões até que haja maior clareza sobre os desdobramentos econômicos e logísticos.

Como a guerra afetou o negócio da Massey Ferguson?

Estamos trabalhando alinhados ao mercado. Neste início de ano, conseguimos ganhar um pouco de participação globalmente. No entanto, o mercado encolheu em um ritmo muito maior do que o volume que conquistamos com esse ganho de share. Diante disso, o desafio é generalizado. Este é um momento de reorganização e de maior austeridade nas despesas. É importante diferenciar despesa de investimento — e isso está muito claro para nós. Áreas como engenharia e inovação são tratadas como investimento. Hoje, destinamos entre 4% e 5% do faturamento anual para engenharia, e isso não mudou. Seguimos avaliando como fazer mais com os recursos disponíveis, mas sem reduzir esses aportes.

E qual foi o planejamento nesse sentido?

No campo das despesas, estamos fazendo os ajustes necessários, como qualquer empresa. Um ponto central é evitar que os concessionários operem com estoques elevados. Por isso, não vendemos tudo o que gostaríamos, mas sim o que entendemos ser necessário. Se um concessionário vendeu 10 máquinas, vendemos 10. Se a projeção de mercado indica estabilidade, ajustamos para 8. Se a perspectiva é de retração, reduzimos ainda mais. Essa disciplina é fundamental.Temos um cuidado muito grande em preservar a saúde da rede de concessionários em todo o mundo. Essa é a nossa diretriz: garantir que a rede consiga atravessar esse momento desafiador, manter um bom atendimento ao agricultor e, internamente, fazer a lição de casa em relação aos custos. Esse trabalho de controle de despesas já vem sendo realizado há dois anos, justamente porque sabíamos que o ciclo econômico passaria por um movimento de queda.

Na sua visão, como a guerra escancarou a vulnerabilidade da matriz energética global, principalmente para o agro?

A guerra está mostrando o quanto o mundo ainda é vulnerável. O mundo inteiro não pode ser vulnerável a um estreito chamado Ormuz. Com isso, cresce a busca por alternativas. As pessoas passam a pensar em diversificação: “não preciso abandonar o carro elétrico, mas quero ter opções”. Nesse contexto, o etanol ganha força como solução viável. No Brasil, esse movimento já aparece de forma concreta. O governo elevou a mistura de etanol para 30% e discute o aumento do biodiesel no diesel, dentro de um mandato já estabelecido. A questão que surge é: de onde virá toda essa oferta? O fato é que o mercado de energia ainda não está totalmente precificado na dinâmica de oferta e demanda, o que abre espaço para mudanças relevantes nos próximos anos.

Considerando o avanço de soluções como tratores elétricos e a etanol, qual dessas tecnologias você acredita que deve ganhar escala primeiro no Brasil — e o que ainda falta para isso acontecer?

Esse é um trabalho que já vem sendo desenvolvido há algum tempo. As alternativas, como combustíveis e fontes de energia, já fazem parte da nossa estratégia. Hoje, por exemplo, já temos um trator elétrico desenvolvido no Brasil que é comercializado na Europa. Além disso, estamos desenvolvendo na Europa um trator movido a hidrogênio, com previsão para os próximos anos. No Brasil, também avançamos no desenvolvimento de tratores movidos a etanol e a metano, com projetos conduzidos localmente. O país, inclusive, tem um papel central dentro da companhia. Aqui está a plataforma global de desenvolvimento de tratores de até 145 cavalos da Massey Ferguson — tecnologia que foi integralmente desenvolvida no Brasil. Além disso, o desenvolvimento de motores para combustíveis alternativos também é feito no país, com foco no mercado global. O mesmo acontece com a engenharia de plantadeiras e pulverizadores da marca, que têm no Brasil seu principal centro de desenvolvimento. E a aposta nesse protagonismo é clara. A expectativa é de que a operação de engenharia no país cresça de forma significativa nos próximos anos.

Em que pé está o trator movido a etanol?

Avançou bastante. Os motores já estão desenvolvidos e disponíveis — inclusive, é possível vê-los de perto. Atualmente, acumulamos mais de 10 mil horas de testes, já que esses motores vão equipar mais de uma linha de produtos. Por isso, o foco tem sido o desenvolvimento e a validação da tecnologia em si. Os resultados até agora são muito positivos. A performance é excelente e já estamos bastante satisfeitos com o desempenho alcançado. Hoje, inclusive, o motor já apresenta eficiência que justifica o uso. Ainda assim, o objetivo é dar um passo além, tornando-o ainda mais eficiente do ponto de vista energético. Seguimos avançando nos testes e no ajuste das curvas de desempenho, com previsão de lançamento para 2028.

No ano passado, havia uma expectativa bastante positiva de queda dos juros, com projeções de encerrar 2026 em torno de 12%.

O que estamos fazendo hoje é recomendar que o produtor rural reveja a sua estratégia financeira, especialmente no que diz respeito à moeda do financiamento. A orientação é clara: sempre que possível, buscar crédito em dólar. Pode parecer contraintuitivo em um primeiro momento, especialmente com o dólar em patamares mais baixos. No entanto, é importante considerar que a principal receita do produtor, como no caso da soja, também é dolarizada. Ou seja, é possível casar a operação. Na prática, isso significa alinhar vencimentos e receitas: se há uma parcela em dólar a pagar em determinada data, o produtor pode vender sua produção naquele momento para cobrir o compromisso. Assim, se o dólar subir, a receita também acompanha esse movimento. O cenário mais desafiador hoje é o do produtor que tomou crédito atrelado ao CDI, com taxas adicionais elevadas. Nesse caso, há um descasamento: o dólar caiu, reduzindo a receita, enquanto os juros permanecem altos, pressionando o custo da dívida. Por isso, a recomendação é justamente evitar esse desequilíbrio e buscar o chamado “casamento de moeda”.

Há um debate sobre recuperação judicial no agro, com algumas leituras mais pessimistas sobre a saúde financeira do setor. Esse cenário alterou de que forma o negócio da Massey?

Pelo modelo como comercializamos nossas máquinas, isso não nos afeta diretamente. As vendas são, em geral, à vista ou financiadas, sem prazos longos concedidos diretamente pela empresa. A recuperação judicial no agro representa uma fatia muito pequena do setor. Existe muito ruído, o que gera ansiedade e preocupação, mas, na prática, o volume é bastante limitado. O que existe, de fato, é uma percepção amplificada pelo tamanho e pela relevância do setor. O agro gera muito barulho, o que acaba ampliando a sensação de risco. Acredito, inclusive, que o pior momento já tenha ficado para trás.

O Plano Safra volta ao centro das discussões em um ano eleitoral. Diante do atual patamar de juros, há algum risco para o programa?

Mais do que o Plano Safra, o principal fator de estímulo ao agricultor são os preços das commodities. Não há solução mágica nesse sentido, e o governo não tem como fazer milagre. Embora seja possível promover pequenos ajustes nas taxas, não é viável oferecer um Plano Safra com juros de 8% ou 9% em um cenário de Selic elevada. O custo de equalização seria alto demais, tornando essa alternativa impraticável. Criar essa expectativa é, na prática, apostar em algo que não deve se concretizar.

As eleições presidenciais no Brasil neste ano deve impactar o agro?

No longo prazo, não. O cenário continua positivo. O Brasil é extremamente competitivo, com capacidade de produzir duas safras por ano, avanços em irrigação e, em alguns casos, até a possibilidade de uma terceira safra. Além disso, o país vem transformando pastagens degradadas em áreas agrícolas e aumentando a produção de carne ao mesmo tempo em que reduz a área utilizada. Ou seja, no longo prazo, esse cenário não se altera. Pode haver impactos pontuais no curto prazo, mas eles não comprometem a competitividade do agronegócio brasileiro.

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