Tecnologia

'Uma única ferramenta para tudo': os planos do Canva para disputar o mercado de produtividade

Em entrevista exclusiva à EXAME, Rob Kawalsky explica como a empresa quer integrar design, planilhas e IA — e por que o Brasil é peça-chave nessa estratégia

Rob Kawalsky, head global de produtos do Canva: Brasil é laboratório para o crescimento da plataforma (Canva/Divulgação)

Rob Kawalsky, head global de produtos do Canva: Brasil é laboratório para o crescimento da plataforma (Canva/Divulgação)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 12h59.

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Fundado há 13 anos como uma ferramenta para facilitar a criação de posts e artes simples, o Canva hoje mira um território bem mais ambicioso: disputar espaço com as principais suítes de produtividade do mundo, ao lado de nomes como Microsoft e Google.

Em entrevista exclusiva à EXAME, Rob Kawalsky, head global de produtos do Canva, explica como a empresa pretende unir design, documentos, planilhas e inteligência artificial (IA) em um único espaço de trabalho — e por que o Brasil, onde 70% dos usuários acessam a plataforma pelo celular, funciona como uma espécie de laboratório para o futuro do produto.

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EXAME: Vocês começaram como uma ferramenta de design focada em simplicidade. Agora estão avançando mais em documentos, planilhas e fluxos de trabalho corporativos. Como vocês pensam em manter essa identidade enquanto a plataforma continua expandindo sua área de atuação?

Essa é uma ótima pergunta. O ponto principal em que focamos é a conexão entre todos esses diferentes tipos de documentos e formatos.

Uma das coisas de que nossa comunidade sempre gostou no Canva é que, independentemente de você estar criando uma publicação para redes sociais, uma apresentação, um documento ou uma planilha, a maior parte da interface é familiar, consistente e funciona da mesma forma.

Se você é usuário de apresentações, por exemplo, sabemos que existem 100 milhões de usuários de apresentações por mês no Canva. Se depois você quiser criar um site, uma publicação para redes sociais ou um vídeo, tudo acontece dentro da mesma interface. Essa consistência é uma parte central da nossa identidade desde o começo e continua sendo uma prioridade.

EXAME: Documento enviado por vocês mostra que os brasileiros usam bastante dispositivos móveis para acessar o Canva. O Brasil funciona como um mercado que antecipa tendências que depois se espalham para o resto do mundo? Quais são as principais particularidades que vocês enxergam no mercado brasileiro?

Acho que essa é exatamente a observação correta. Cerca de 70% dos usuários brasileiros do Canva usam o aplicativo móvel. Isso mostra que o Canva existe na interseção entre produtividade e criatividade — ele combina essas duas áreas e sempre teve como princípio permitir que as pessoas criem em qualquer lugar, a qualquer momento e em qualquer dispositivo.

O Brasil realmente está liderando esse movimento. Até formatos que historicamente as pessoas imaginavam que seriam criados em um computador, como apresentações, estão cada vez mais sendo feitos em dispositivos móveis.

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Isso também mostra a criatividade da comunidade brasileira. O Brasil é nosso segundo maior mercado — um país em que o Canva foi amplamente adotado.

No último ano, tivemos cerca de 480 milhões de designs criados para redes sociais no Brasil, além de aproximadamente 200 milhões de vídeos. É um mercado que abraçou toda a amplitude da Suíte Visual.

EXAME: Você vê o Brasil mais como um laboratório de inovação mobile, como um grande mercado de crescimento, ou como uma combinação dos dois?

Acho que é uma combinação de tudo. Investimos bastante em mobile para garantir que a experiência do Canva funcione para uma audiência global, não apenas em termos de recursos, mas também de desempenho em diferentes tipos de dispositivos.

O Brasil é um mercado em que isso claramente funciona, porque existe uma adoção muito forte de dispositivos móveis. Ao mesmo tempo, ainda existe uma grande quantidade de usuários no desktop — isso mostra a amplitude do Canva.

Uma das coisas mais interessantes da nossa atualização é que, em vez de as pessoas precisarem escolher uma ferramenta para apresentações, outra para redes sociais e outra para vídeos, elas têm uma única plataforma. Você pode alternar entre diferentes formatos de maneira integrada, seja no computador ou no celular.

EXAME: A operação de vocês está em um espaço que envolve design, produtividade e colaboração ao mesmo tempo. Como vocês enxergam a posição do Canva no cenário de ferramentas que as pessoas já usam diariamente?

Hoje, o Canva é uma das três grandes suítes de produtividade disponíveis globalmente. Temos cobertura dos principais formatos de produtividade, incluindo apresentações, documentos, planilhas e quadros brancos.

Nossa visão sempre foi que o diferencial do Canva está na integração entre criatividade e produtividade.

Não acreditamos que algumas pessoas vivam apenas em planilhas e apresentações enquanto outras precisam criar documentos criativos — tudo isso faz parte do trabalho moderno. As pessoas precisam analisar dados, apresentar esses dados, criar documentos estratégicos e até produzir algo pessoal, como um convite de aniversário.

A ideia de usar ferramentas separadas para cada tarefa foi quebrada. Outro ponto que nos diferencia é que fomos além da ideia de arquivos e passamos a trabalhar com projetos. Em outras ferramentas, um projeto normalmente é dividido em vários arquivos: uma planilha, uma apresentação, um documento — isso acaba criando várias versões e complexidade.

No Canva, tudo fica em um único espaço de projeto, que pode ter um documento, uma análise em planilha, visualizações de dados e slides de apresentação, tudo conectado. Entre usuários corporativos, os projetos com múltiplos formatos cresceram mais de 150% nos últimos 12 meses.

Além disso, mais de 50% das planilhas criadas no Canva já estão profundamente integradas a projetos, em vez de funcionarem como arquivos independentes.

EXAME: Com a evolução do trabalho, você acredita que as pessoas estão buscando cada vez mais fazer tudo em um único lugar?

Sim, acredito. Nossos dados mostram isso. O trabalho das pessoas é muito diverso atualmente, e existem grandes benefícios em reunir tudo em um único ambiente.

Um exemplo é a marca. Quando você cria algo no Canva, consegue aplicar sua identidade visual em tudo. Outro exemplo é a inteligência artificial — ela, dentro da Suíte Visual, permite que as pessoas tenham uma experiência mais inteligente usando uma única ferramenta.

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Além disso, existe a questão da simplicidade: quando você pula de uma ferramenta para outra, precisa aprender diferentes interfaces que mudam constantemente. Com uma única plataforma, você aprende uma vez e, com o tempo, fica mais sofisticado no que consegue criar.

EXAME: Vocês fizeram muitas atualizações de produto neste ano. Como garantem que essas novidades estejam conectadas, e não sejam apenas recursos separados dentro de diferentes produtos?

Esse é um ponto muito importante. Estamos aumentando rapidamente as capacidades da suíte — adicionamos cerca de 100 atualizações em toda a plataforma neste ano.

Mas tudo continua baseado nos documentos e fluxos de trabalho que as pessoas já querem criar. Um exemplo são as apresentações: elas existem há muito tempo, e as notas do apresentador sempre foram uma parte importante desse formato.

Adicionamos recursos de inteligência artificial para criar notas automaticamente e estimar o tempo de fala por slide. Essas funções não criam confusão porque aprofundam algo que já fazia parte do produto. O objetivo é melhorar fluxos existentes, como criar uma apresentação ou praticar uma apresentação, tornando essas experiências mais completas.

EXAME: Como vocês decidem se a inteligência artificial deve estar presente em todos os produtos, ou se existem casos em que ela não faz sentido?

Vemos a inteligência artificial como uma grande ferramenta de capacitação. A missão do Canva sempre foi tornar design e criatividade mais acessíveis, e a IA funciona como um acelerador disso. Nossa abordagem é entender como podemos ajudar a comunidade a criar de forma mais acessível e produzir designs que seriam mais difíceis sem IA.

Não é sobre substituir a criatividade individual, mas ampliá-la. Um exemplo é a consistência visual: ao criar um design, muitas pessoas gastam tempo procurando elementos que combinem entre si.

Com IA, introduzimos uma função que permite selecionar um elemento da página, copiar seu estilo e aplicar esse estilo a outros elementos, como imagens. Algo que antes exigia muita busca e esforço de visualização agora pode ser feito com um clique. Esse é o tipo de situação em que acreditamos que a IA realmente aumenta a capacidade das pessoas.

EXAME: O Brasil vem mostrando demanda por softwares mais localizados, com assistentes que falam como os usuários locais. Como vocês trabalham para criar recursos que realmente façam sentido em mercados como o brasileiro?

Existem alguns aspectos. Um deles é o conteúdo. O Canva tem uma biblioteca enorme, com milhões de templates e centenas de milhões de elementos de design.

Investimos há muitos anos para garantir que essa biblioteca reflita a diversidade da nossa comunidade — um usuário brasileiro deve encontrar imagens, templates e elementos que respeitem e representem sua realidade.

Outro aspecto é o investimento em mobile e desempenho. O celular é uma parte fundamental da rotina dos usuários brasileiros, então precisamos garantir que o Canva funcione bem nesse contexto.

EXAME: Se tudo seguir como planejado e vocês criarem esse espaço conectado entre ideia e resultado final, como as pessoas e empresas vão descrever o que o Canva é daqui a cinco anos?

Nossa missão continua a mesma desde a fundação, há cerca de 13 anos: permitir que o mundo inteiro possa criar. Não acredito que isso vá mudar.

Design não é apenas sobre aquilo que as pessoas criam, mas sobre aquilo que elas conseguem realizar.

Às vezes é criar um convite de aniversário para uma criança. Às vezes é montar uma apresentação para uma grande negociação. Às vezes é criar um quadro de ideias para projetar uma casa.

Design é o início de um processo para alcançar objetivos. Daqui a cinco anos, acreditamos que isso continuará igual. Mas, com inteligência artificial e a expansão da Suíte Visual, vamos criar formas de dar ainda mais poder às pessoas para realizarem seus objetivos de maneira mais rápida e eficiente.

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