Zaima: para executiva, não é hora de pensar no 6G (Algar/Divulgação)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 10h08.
Última atualização em 20 de agosto de 2026 às 13h49.
*PRAIA DO FORTE - BA | Enquanto o mundo discute quando o 6G vai chegar, a Algar Telecom segue um roteiro mais cauteloso: esperar a demanda do cliente aparecer antes de investir pesado na próxima geração de rede móvel.
"Quando for o momento de evoluir para o 6G, vamos fazer isso. Acompanhamos a evolução, mas ainda não sabemos qual vai ser o momento exato", diz Zaima Milazzo, diretora de produtos e tecnologia (CPTO, na sigla em inglês) da operadora mineira, em entrevista à EXAME durante o IT Forum Praia do Forte 2026. "Mas o setor não tem alternativa. A gente precisa evoluir, obrigatoriamente."
A padronização técnica global do 6G, batizada de IMT-2030 pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), deve ser concluída entre 2029 e 2030. As primeiras redes comerciais devem surgir em países líderes — China, Coreia do Sul, Estados Unidos — a partir de 2030.
A promessa técnica é ambiciosa: velocidades de até 1 terabit por segundo e latência abaixo de 0,1 milissegundo, cerca de 100 vezes mais rápido que o 5G — voltada, segundo especialistas do setor, a viabilizar internet das coisas em escala, automação industrial e integração mais profunda entre comunicação e inteligência artificial (IA).
Zaima usa a própria história recente da Algar para justificar a cautela. Segundo ela, a transição mais bem-sucedida da operadora foi do 3G para o 4G, porque coincidiu com a explosão do WhatsApp e do streaming — a tecnologia chegou exatamente quando o cliente já queria.
Com o 5G, segundo ela, isso não se repetiu. "A grande promessa era que seria a escala da tecnologia das coisas (IoT, na sigla em inglês), e isso não aconteceu. O crescimento foi muito menor do que as previsões", afirma. "Não vimos esse mesmo alinhamento que aconteceu anteriormente. A tecnologia sai na frente da demanda do mercado, e a gente tem que ter cuidado com isso. O cliente precisa vir à frente."
A desconfiança com o ritmo do IoT no 5G ajuda a explicar a decisão recente da companhia de vender a própria operação de internet das coisas para a empresa inglesa Arqia, controlada pela Wireless Logic, por R$ 720 milhões.
"Esse negócio foi criado em nosso centro de inovação. Nossa escala começou em 2019 e construímos uma operação muito robusta de IoT nacional, e essa decisão vem para fortalecer outras linhas de negócio", afirma Zaima. "Foi uma decisão que alinhou um momento muito interessante para a empresa, que construiu esse negócio, que tem uma valorização do mercado, com a necessidade de escolhas."
Em outras palavras, em vez de continuar operando um negócio de IoT que cresceu abaixo do esperado, a Algar preferiu vendê-lo no momento em que ele tinha valor de mercado reconhecido e realocar capital para áreas consideradas mais prioritárias hoje, segundo Zaima — como cloud e segurança.
Os números recentes da Algar ajudam a explicar por que a empresa prefere não antecipar apostas caras.
A companhia fechou 2025 com receita de R$ 2,93 bilhões, alta de 3,9% sobre o ano anterior, mas ainda no vermelho: prejuízo líquido de R$ 197 milhões — 40,5% menor que o de 2024, quando havia somado R$ 331 milhões.
O primeiro semestre de 2026 mostra a trajetória de recuperação. A receita líquida chegou a R$ 735,7 milhões no primeiro trimestre e R$ 732 milhões no segundo.
O Ebitda ajustado somou R$ 308,4 milhões no primeiro trimestre e R$ 308,5 milhões no segundo, com margem ajustada de 42,1% no segundo trimestre — a margem do primeiro trimestre teve expansão de 1,4 ponto percentual sobre igual período de 2025, para patamar próximo. O prejuízo trimestral caiu para R$ 54,5 milhões no primeiro trimestre (queda de 38,4% sobre um ano antes) e R$ 57,3 milhões no segundo.
O investimento também recuou: capex de R$ 90,2 milhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 25,8% sobre um ano antes, e R$ 87,6 milhões no segundo trimestre, queda de 13,8%. Em contrapartida, o fluxo de caixa operacional livre cresceu com força — 46,5% no primeiro trimestre, para R$ 105,2 milhões, e 45,9% no segundo, para R$ 202,8 milhões.
A alavancagem financeira (relação entre dívida líquida e Ebitda) caiu de 2,76 vezes, em junho de 2025, para 2,18 vezes, em junho de 2026.
É esse conjunto — menos investimento, mais geração de caixa, menos dívida — que sustenta o discurso de Zaima sobre trabalhar primeiro o que já está construído. "A nossa principal estratégia, olhando para o curto prazo, é trabalhar o ativo que temos. Já temos uma infraestrutura bastante robusta e construída", diz.
Em vez de acelerar rumo à promessa do 6G, a Algar tem redirecionado capital para serviços de maior margem — nuvem, segurança e conectividade complementar.
A operadora passou a oferecer Starlink em parceria comercial para clientes corporativos, como complemento ao portfólio próprio de conectividade — não como substituto da rede móvel.
Para 2026, a prioridade declarada é cloud e segurança. "Queremos evoluir muito nosso portfólio de cloud e segurança. Isso vai acontecer ao longo desse ano", diz a executiva, citando operações próprias de nuvem no Sul e no Nordeste do país como parte dessa expansão.
Por trás da aposta em nuvem própria está um argumento que Zaima trata como estratégico, não só técnico: o de manter dados de clientes brasileiros dentro do país, sob controle de uma empresa nacional.
"Somos uma empresa brasileira e precisamos ter soberania de dados. Nossa nuvem é brasileira, nossa empresa está gerando resultados para o Brasil, conseguimos dar um controle financeiro em real", afirma. "Investir no Brasil é relevante porque estamos pensando na gente."
*A jornalista viajou a convite do IT Forum