Diretora da Graduação Saint Paul
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 09h19.
O limite de duas horas diárias anunciado pela Meta para adolescentes reacende uma das perguntas mais frequentes entre pais: afinal, quanto tempo de tela é demais? A resposta científica é menos precisa do que o número sugere.
Um estudo publicado no JAMA em 2025 acompanhou 4.285 jovens americanos durante quatro anos e analisou não apenas a quantidade de tempo gasto em redes sociais, celulares e videogames, mas também os padrões de uso.
Os pesquisadores observaram que trajetórias crescentes ou persistentemente altas de uso aditivo estavam associadas posteriormente a piores indicadores de saúde mental e maior risco de ideação ou comportamento suicida.
O resultado mais interessante apareceu quando os pesquisadores olharam apenas para o número de horas. O tempo total de tela medido no início do estudo não apresentou a mesma associação.
Por se tratar de uma pesquisa observacional, os dados não provam que determinado padrão de uso cause problemas de saúde mental. Mas reforçam uma distinção que vem ganhando espaço na literatura: tempo de uso e forma de uso são variáveis diferentes.
Entre os sinais analisados estavam dificuldade de interromper o uso, necessidade de passar cada vez mais tempo conectado, sofrimento quando o aparelho não estava disponível e utilização da tecnologia como forma de escapar de problemas.
Isso ajuda a explicar por que duas horas diante de uma tela podem representar experiências muito diferentes. Conversar com amigos, criar conteúdo ou estudar não é psicologicamente equivalente a passar o mesmo período em consumo passivo, comparação social ou navegação compulsiva.
Outro fator é aquilo que a atividade digital substitui. Sono, exercício, estudo e relações presenciais são variáveis importantes para a saúde de adolescentes. Uma hora de uso adicional durante a madrugada pode ter consequências diferentes de uma hora no meio da tarde.
A National Academies of Sciences chegou a uma conclusão semelhante em sua revisão sobre redes sociais e saúde adolescente: existem riscos concretos, como cyberbullying, exposição a conteúdos nocivos e comparação social, mas os efeitos variam de acordo com o jovem e com a experiência digital.
Essa complexidade está no centro da divergência entre pesquisadores.
Jonathan Haidt argumenta que smartphones e redes sociais tiveram papel relevante na deterioração da saúde mental de adolescentes e na substituição de uma infância mais independente e presencial por uma vida mediada por telas. Pesquisadoras como Candice Odgers e Amy Orben defendem maior cautela em estabelecer essa relação causal. Para elas, os efeitos médios encontrados em grandes populações tendem a ser pequenos e escondem diferenças importantes entre indivíduos.
Há, porém, um ponto de convergência: a pergunta sobre tecnologia não deveria se limitar ao número de minutos.
Também é preciso entender se o jovem consegue interromper o uso, se o celular interfere no sono, se substitui outras atividades e qual função emocional a tecnologia está exercendo. Esse raciocínio também muda a conversa dentro das famílias.
Uma meta-análise publicada no American Psychologist, com 238 estudos e mais de 126 mil participantes, encontrou associação entre práticas parentais que apoiam autonomia e melhores indicadores de bem-estar. Formas intensas de controle psicológico apareceram associadas a resultados menos favoráveis.
Na prática, isso significa que limites podem ser úteis, especialmente entre adolescentes mais novos, mas o objetivo de longo prazo continua sendo a autorregulação.
As novas restrições da Meta vão ajudar a reduzir determinados excessos. Porém, a ciência sugere, porém, que entender a relação dos adolescentes com a tecnologia exigirá mais do que um cronômetro.