Indústria: empresas enfrentam gastos com segurança e perdas provocadas por crimes. (Divulgação/Getty Images)
Repórter de Invest
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 08h56.
A insegurança pública já pesa diretamente no bolso das famílias brasileiras. É o que mostra uma pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), segundo a qual 84% dos brasileiros afirmam que a criminalidade tira dinheiro do orçamento familiar.
O levantamento faz parte de um pacote de três estudos apresentados pela entidade na segunda-feira, 31, em São Paulo, para medir os efeitos do crime sobre a sociedade e a economia. E a conta vai além dos gastos financeiros. O medo da violência também interfere nas decisões de consumo, trabalho e mobilidade.
Uma em cada quatro pessoas já deixou de aceitar uma oportunidade profissional por receio da violência. Já 60% dizem que suas atividades de trabalho enfrentam dificuldades relacionadas à presença de facções, milícias ou crime organizado.
De acordo com o vice-presidente do Conselho Superior de Segurança (Coseg) da Fiesp e presidente do Sindicato Nacional das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Simdes), Frederico Aguiar, 78% dos entrevistados tiveram custos relacionados à insegurança.
"Isso não é novidade. (...) Um em cada três teve que redirecionar recurso que iria para alimentação, para estudo. Teve que cumprir outro plano, teve que pagar um táxi, teve que pagar um Uber, teve que pagar uma segurança. Uma pessoa em cada três", detalhou em fala no evento.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Brasileiros que dizem que a insegurança tira dinheiro do orçamento familiar | 84% |
| Entrevistados que tiveram custos relacionados à insegurança | 78% |
| Pessoas que já deixaram de aceitar uma oportunidade de trabalho por medo da violência | 25% |
| Pessoas que afirmam que suas atividades profissionais enfrentam dificuldades por facções, milícias ou crime organizado | 60% |
| Pessoas que deixaram de comprar algo por medo de golpes ligados ao mercado ilegal | 51% |
| Brasileiros que reconhecem os danos econômicos do contrabando e da pirataria | 86% |
| Empresas da indústria de transformação que foram vítimas de algum crime no último ano | 40% |
| Indústrias que deixaram de investir ou expandir por causa da violência | 25% |
| Indústrias que pagam por segurança privada, seguros e monitoramento | 98% |
| Indústrias vítimas de crimes que tiveram perdas superiores a 1% do faturamento anual | 20% |
| Indústrias que não registraram boletim de ocorrência após sofrerem crimes | 50% |
| Indústrias que dizem que o custo do crime prejudica a competitividade do Brasil | 70% |
A pesquisa Percepção Nacional de Segurança Pública ouviu 2.411 pessoas em 658 municípios das 27 unidades da federação. O estudo mostra ainda como a presença do mercado ilegal afeta o comportamento dos consumidores.
Mais da metade dos entrevistados, 51%, já deixou de comprar algum produto por medo de cair em golpes associados ao mercado ilegal. Além disso, quase quatro em cada dez disseram já ter comprado produtos e, posteriormente, ficado em dúvida sobre a procedência ou suspeitado de que fossem ilegais.
O contrabando e a pirataria também aparecem como uma preocupação econômica, com 86% dos brasileiros reconhecendo os prejuízos causados por essas atividades, e, entre as medidas consideradas prioritárias para enfrentar o problema, estão o aumento da fiscalização e a oferta de preços mais competitivos.
O impacto da criminalidade se estende ao setor produtivo. Uma segunda pesquisa, feita com 285 empresas da indústria de transformação de São Paulo, mostra que a insegurança representa uma despesa adicional e também limita decisões de investimento e expansão.
Quatro em cada dez empresas disseram ter sido vítimas de algum crime no último ano, proporção que chega a quase metade quando considerados os últimos três anos. Os crimes virtuais, por sua vez, dobraram desde 2023 e passaram a ser o principal tipo de delito contra as fábricas, atingindo quase uma em cada cinco indústrias.
Uma em cada quatro empresas deixou de investir ou expandir suas operações por causa da criminalidade. Ao mesmo tempo, 98% das indústrias afirmam ser levadas a gastar com segurança privada, seguros e monitoramento.
Entre as empresas vítimas de crimes, quase uma em cada cinco teve perdas superiores a 1% do faturamento anual.
Há ainda um problema de subnotificação. Metade das indústrias que sofreram crimes não chegou a registrar boletim de ocorrência por considerar o processo ineficaz. Para 70% das empresas, o custo provocado pela criminalidade prejudica a competitividade do Brasil no mercado global.
O terceiro levantamento foi realizado pelo economista e pesquisador Pery Francisco Assis Shikida com 389 pessoas privadas de liberdade em unidades prisionais de São Paulo. O estudo buscou identificar fatores relacionados à entrada e à permanência na criminalidade.
Apenas 6,2% dos entrevistados afirmaram ter cometido crimes lucrativos por necessidade real. Ambição e status aparecem com maior peso entre os fatores relatados.
Quase sete em cada dez também disseram existir regras do crime em seus bairros, enquanto 46% dos relatos apontam situações em que o crime organizado desempenharia funções associadas ao Estado.
Os resultados também mostram uma diferença entre a percepção da violência na cidade e no bairro. Enquanto 57,6% consideram alta ou muito alta a violência no município, 40,1% classificam como baixa ou muito baixa a violência no próprio bairro.
Sobre o sistema penal, 62,5% defendem que a prioridade deveria ser a reinserção social e a mudança de comportamento. Outros 20,9% entendem que a principal função deve ser punir e dissuadir a prática de crimes. Apesar disso, 70,4% avaliam que o sistema prisional não cumpre plenamente essas funções.
Os três levantamentos foram apresentados durante o Congresso Fiesp de Segurança Pública, realizado na sede da entidade. Para a Fiesp, os resultados reforçam a ideia de que a segurança pública não deve ser tratada apenas como uma questão de violência, mas também como um fator econômico.
Na abertura do evento, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, afirmou que o problema deixou de ser uma questão restrita a determinadas regiões. "A segurança pública é um tema de suma importância para a nação, para a economia do Brasil, para os investimentos, para o turismo, para o consumo, para o emprego e para o trabalho."
A entidade resume os estudos na premissa de que a "segurança não é custo, é condição para a prosperidade".