Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 10h27.
Última atualização em 12 de agosto de 2026 às 10h29.
Todo avião comercial que você já pegou tem o mesmo desenho básico: um tubo com asas presas nas laterais. É assim desde os anos 1950. Uma startup americana quer mudar isso, e conseguiu convencer companhias aéreas e a Força Aérea dos Estados Unidos a bancar a ideia.
O Z4, da JetZero, tem a fuselagem e as asas fundidas numa peça só, num formato que lembra uma arraia. O nome técnico é blended wing body, ou corpo de asa mesclada, e a vantagem é aerodinâmica: em vez de as asas sustentarem um tubo, o avião inteiro funciona como uma asa e gera sustentação.
A empresa afirma que isso reduz o consumo de combustível em até 50% na comparação com aeronaves convencionais de tamanho parecido.

A aposta é grande a ponto de parecer imprudente. Em junho, a JetZero começou a construir sua primeira fábrica, em Greensboro, na Carolina do Norte, um complexo de oito milhões de pés quadrados, mais que o dobro da principal fábrica da Boeing, em Everett, onde saíram o 747, o 767, o 777 e o 787. O investimento previsto é de US$ 4,7 bilhões, com estimativa de 14,5 mil empregos ao longo de uma década, o maior anúncio de vagas da história do estado.
Tudo isso antes de o avião voar uma única vez. O protótipo em escala real está sendo montado no deserto de Mojave, na Califórnia, pela Scaled Composites, subsidiária da Northrop Grumman, e tem primeiro voo previsto para 2027. A entrada em operação comercial é esperada para o início da década de 2030.
O projeto recebeu impulso público: em 2023, a Força Aérea americana concedeu um contrato de US$ 235 milhões para acelerar o desenvolvimento do demonstrador, interessada nas versões militares do desenho, que incluem um avião-tanque de reabastecimento capaz de carregar até o dobro de combustível do modelo atual.
O Z4 é projetado para 250 passageiros e alcance de 5.000 milhas náuticas, cerca de 9.260 quilômetros. Para efeito de comparação, a distância entre São Paulo e Madri é de aproximadamente 8.400 quilômetros.
Como a cabine não é um cilindro estreito, mas um espaço largo, o interior muda bastante. Os passageiros ficam distribuídos em seções, e há espaço para configurações impossíveis num avião comum, incluindo áreas centrais de convivência. Cada assento teria seu próprio compartimento de bagagem.
A mudança mais estranha para quem voa: não há janelas ao lado dos assentos. No lugar delas, telas exibem imagens externas captadas por câmeras de alta definição. A luz natural entra por duas claraboias posicionadas perto das primeiras fileiras.
Nem todo mundo está convencido. Segundo o Wall Street Journal, críticos apontam que passageiros sentados mais próximos das pontas devem sentir mais desconforto durante as curvas, porque a distância em relação ao eixo central do avião amplifica o movimento. A ausência de janelas reais também pode agravar a sensação de enjoo, já que o corpo perde uma referência visual do horizonte.
Há ainda a questão prática dos aeroportos. As portas ficariam em posições diferentes das convencionais, o que complicaria o encaixe nas pontes de embarque projetadas para aviões tubulares. A JetZero afirma que o Z4 foi desenhado para caber na infraestrutura existente sem exigir reformas nos terminais, e mais de uma dúzia de companhias aéreas participa de um grupo de trabalho que assessora a empresa justamente nesse ponto.
Para acelerar a certificação, a estratégia é usar componentes já aprovados pela FAA, a agência que regula a aviação americana, em outros aviões, reduzindo o número de itens inéditos a serem homologados.
A United Airlines investiu na startup e assinou acordo condicional para comprar até 100 aeronaves, com opção por outras 100. A Alaska Airlines também é investidora e fez uma reserva condicional. A Delta entrou em 2026 aportando conhecimento de engenharia e de experiência do passageiro ao projeto.
A palavra-chave em todos esses acordos é "condicional": as compras só se confirmam se a JetZero cumprir marcos de desenvolvimento, a começar pelo voo do protótipo em 2027, e se o avião atender aos requisitos de segurança e operação das companhias. Até lá, a maior fábrica de aviões em construção nos Estados Unidos segue erguida sobre uma promessa que ainda não decolou.