Tecnologia

Nem com bigode falso: verificação de idade por selfie da Unico acerta 99,98% das vezes

Após crianças enganarem sistemas com truques simples, uma solução brasileira, que visa manter os pequenos longe de apps não autorizados, atinge precisão alta para atender à nova lei do ECA Digital

Criança com bigode falso: truque simples foi utilizado para enganar IAs que verificam a idade de usuários na internet (Getty Images)

Criança com bigode falso: truque simples foi utilizado para enganar IAs que verificam a idade de usuários na internet (Getty Images)

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 11 de maio de 2026 às 10h34.

Última atualização em 11 de maio de 2026 às 14h58.

Um garoto de 12 anos conseguiu enganar um sistema de verificação etária por selfie desenhando um bigode no rosto com lápis de sobrancelha. O caso, revelado em um estudo da organização britânica Internet Matters, virou símbolo de um problema que mobiliza governos, redes sociais e empresas de tecnologia: como impedir que menores de idade acessem plataformas digitais sem transformar a internet em um ambiente de vigilância permanente.

A discussão ganhou força nos últimos meses após países como Austrália, Reino Unido e membros da União Europeia endurecerem regras para redes sociais, apostas online e plataformas de conteúdo adulto. No Brasil, o tema entrou definitivamente na agenda regulatória com a Lei nº 15.211/2025, o chamado ECA Digital, que passou a exigir mecanismos confiáveis de aferição etária para determinados serviços online.

É nesse cenário que a brasileira Unico, especializada em verificação de identidade digital, lançou uma tecnologia de validação de maioridade baseada em selfie. A empresa afirma que a ferramenta consegue confirmar se um usuário é maior de idade com 99,98% de assertividade, superando bigodes falsos, e sem armazenar biometria ou compartilhar dados pessoais com as plataformas.

“O cenário atual comprova a importância da responsabilidade compartilhada entre Governo, empresas e sociedade civil em proporcionar mais segurança na experiência de menores de idade online”, afirma Luis Felipe Monteiro, CEO LATAM da Unico.

O movimento reflete uma mudança mais ampla no setor de tecnologia. Durante anos, grande parte das plataformas confiou em métodos simples, como a autodeclaração de idade, bastava alterar a data de nascimento para acessar conteúdos restritos. O avanço da pressão regulatória, porém, obrigou empresas a buscar sistemas mais sofisticados.

A Meta, dona de Facebook e Instagram, passou recentemente a usar inteligência artificial para tentar identificar menores de 13 anos por meio da análise de fotos, vídeos e padrões de comportamento nas plataformas. O sistema observa desde características físicas até referências escolares em publicações e perfis.

Ainda assim, os resultados mostram as limitações desse modelo. Um relatório da Internet Matters revelou que cerca de um terço das crianças entrevistadas conseguiu contornar controles de idade em redes sociais. Entre os métodos usados estavam documentos de adultos, vídeos manipulados, personagens de videogame e maquiagens improvisadas para parecer mais velho.

O caso do “bigode falso” chamou atenção justamente por expor como mecanismos automatizados podem ser vulneráveis até a truques rudimentares.

A estratégia da Unico tenta se diferenciar desse modelo baseado apenas em aparência visual. Segundo a empresa, o sistema combina biometria facial com tecnologias de liveness, mecanismo conhecido como prova de vida digital, usado para confirmar que há uma pessoa real diante da câmera e não uma imagem gerada por inteligência artificial.

A companhia afirma operar com múltiplas camadas de proteção contra fraudes digitais, em um momento em que o avanço da IA generativa tornou mais fácil criar rostos sintéticos, vídeos manipulados e identidades falsas.

Além da preocupação regulatória, o tema virou também uma disputa de mercado. Plataformas digitais precisam equilibrar exigências de proteção infantil com uma experiência rápida para o usuário; um processo excessivamente burocrático pode reduzir conversão em vendas e aumentar abandono de cadastros.

Brasil entra em debate global sobre proteção digital

O avanço do ECA Digital colocou o Brasil entre os primeiros países a exigir mecanismos mais robustos de verificação etária em larga escala. A legislação prevê exigências proporcionais ao risco do serviço oferecido, especialmente em setores como apostas, bebidas alcoólicas e entretenimento adulto.

Nesse cenário, empresas de biometria e identidade digital passaram a ocupar um espaço estratégico na infraestrutura da internet brasileira.

A Unico afirma ter realizado mais de 1,5 bilhão de verificações de identidade em 2025 e diz participar de discussões técnicas com o Ministério da Justiça e a ANPD, Autoridade Nacional de Proteção de Dados, sobre modelos de aferição etária.

Ao mesmo tempo, especialistas avaliam que a corrida entre sistemas de segurança e tentativas de fraude tende a se intensificar. A lógica lembra a evolução dos mecanismos antifraude no sistema bancário: cada nova camada de proteção costuma gerar novas formas de evasão, incluindo bigodes.

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